Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

O português que foi sequestrado por engano

João Paulo Araújo conhece bem a história do homem que estava no lugar errado à hora errada. Aconteceu consigo.

 No domingo, 17 de Setembro de 2006, João Paulo devia dormir até tarde e passar com a mulher e os dois filhos o último dia de férias. O mais parecido que faria com trabalho seria preparar-se psicologicamente para voltar no dia seguinte ao La Castañuela, o restaurante de que é sócio no bairro de Mercedes, em Caracas. Mas no sábado à tarde trocaram-lhe os planos: José, um dos seus dois parceiros de negócio, pediu-lhe que o substituísse no negócio na manhã seguinte. João Paulo concordou.

No domingo, à hora costumeira, antes das oito da manhã, parou o carro no lugar de sempre, no estacionamento do restaurante. Não reparou no estilo duvidoso do edifício, de influência vagamente mourisca, com fachada de pedra e azulejos e janelas em arco, mas deu-se conta dos dois rapazes de roupas desportivas que estavam encostados à porta de serviço. Julgou que fossem novos ajudantes da cozinha, contratados durante as suas férias.
Saiu da carrinha Hyundai e os dois homens arrancaram na sua direcção. «Quando os vejo a andar, quando vejo a cara deles, a vir para cima de mim, percebi que havia alguma coisa diferente.» Um mostrou uma arma e ordenou-lhe que entrasse no carro.
«Tranquilo, o que é que se passa? Há algum problema?», tentou argumentar o português.
«Não fales, entra no carro», respondeu o que tinha a arma e o empurrava para o banco de trás, enquanto o outro se sentava ao volante. Arrancaram, João Paulo deitado, tapado com o forro do banco traseiro, que tinha ido a lavar e ainda estava solto. Sentia qualquer coisa nas costas e supôs que fosse a arma do indivíduo que se sentou ao seu lado.

Quando os raptores conferiram os documentos que o empresário tinha na carteira, perceberam que tinham o sócio errado. Estavam à espera de José, que já tinha sido raptado em 2004, tendo então pago um resgate de 500 milhões de bolívares (cerca de 180 mil euros). João Paulo explicou que estava a substituir o sócio e tentou aproveitar a situação:
«Já que foi um engano, não há problema, levem o meu carro, mas deixem-me sair.»
«Não, eu já não roubo carros»
, informou o que conduzia. «Isso era antes.»

Andaram uns vinte minutos em estrada plana, sem congestionamento, o que só é possível em Caracas num domingo bem cedo. Depois, passaram para outro automóvel e meteram por uma estrada má, cheia de solavancos, sempre a subir. Caracas é uma cidade cercada por montanhas onde se amontoam favelas e a subida indiciava que estariam a dirigir-se a um desses bairros. Ao fim de meia hora, o carro parou e João foi levado aos tropeções, sempre com a cara coberta, para dentro de uma casa.

Vendaram-lhe os olhos, amarraram-lhe os pulsos com fita adesiva larga e mandaram-no ficar no chão. Podia sentar-se ou deitar-se, só não podia sair do canto onde o tinham posto.

Ofereceram-lhe água, sumo e calmantes, que João recusou. Depois, ordenaram-lhe que falasse com o sócio. Com o seu telemóvel encostado à orelha direita, e o cano de uma arma do outro lado da cabeça, o empresário fez o que lhe mandavam:

«José, fui sequestrado. Eles querem dinheiro, vão falar contigo.»
Pediam um resgate de 500 milhões de bolívares, o mesmo que tinham extorquido a José dois anos antes, como se esse fosse o preço de tabela para os sócios do La Castañuela. Ao longo do dia, havia de baixar esse valor para 200 milhões e, depois, para 70 milhões.

A negociação telefónica entre os sequestradores e o sócio de João Paulo Araújo foram acompanhadas pela polícia, que apareceu no restaurante alertada por uma denúncia anónima. Contra os avisos de João, ameaçado de morte caso as autoridades fossem chamadas, e contra os apelos da sua mulher, que não queria a polícia envolvida no caso, a Divisão Anti-Extorsão e Sequestros convenceu o sócio do La Castañuela a colaborar e a aceitar a intervenção policial.

A entrega do resgate foi combinada para as 4 da tarde, num restaurante de fast-food. Em vez de um saco de notas, o elemento do bando que compareceu no local tinha à sua espera mais de uma dezena de polícias. Em pouco tempo denunciou os nomes dos cúmplices e a localização do esconderijo onde guardavam o português, na zona de Petare.

João Araújo estava sentado no chão, tão imóvel quanto podia, há cerca de oito horas. Os únicos sons que ouvia, para além de alguns barulhos da rua, vinham da televisão que estava ligada no quarto ao lado. Reconheceu os diálogos de dois filmes que já tinha visto: «Sequestro Express» – um sucesso do cinema venezuelano, estreado no ano passado, que conta a história do rapto de um casal em Caracas – e «Sicário», outra obra venezuelana, de 1994, sobre um assassino contratado. «Até pensei: o filme será para eles ou para mim, para me fazer medo?»

O som dos disparos na televisão foi abafado pelo de socos violentos numa porta. João levou segundos, que lhe pareceram uma eternidade, até perceber que era a polícia. Podia ser um momento de alívio, mas foi de terror. «Fiquei ainda com mais medo. Achei que os que estavam a tomar conta de mim me davam um tiro e fugiam. Encolhi-me o mais que pude, com as mãos a tapar a cabeça. Fiquei à espera de ouvir um tiro, mas eles não dispararam. Depois disseram-me que eles tinham fugido pela varanda.»

Nas mais de oito horas que passou de olhos vendados e mão amarradas, João Paulo pensou na vida e rezou. «Passou-me pela ideia a minha vida toda e as pessoas [que me são] mais queridas. Os filhos, a mulher... Pensei no que fiz, o mal e o bem… Foi um bom momento para reflectir.»

A pressão fê-lo tomar uma resolução. «Pensei: amanhã compro um bilhete e meto-me no avião para Portugal.» Em vez disso, no dia seguinte, às oito da manhã, estava a abrir o restaurante, tal como tinha tentado fazer na véspera, quando foi raptado. «A pessoa tem compromissos, tem as suas coisas a andar…», justifica-se. Nasceu na Madeira há 44 anos, mas vive em Caracas há 40. A mulher, filha de madeirenses, nasceu na Venezuela, e os dois filhos, de 10 e 15 anos, também. Para eles, a Madeira é lugar mais distante do que as sete horas que o avião demora para chegar lá. «Mas se voltar a acontecer uma coisa destas, acho que vou mesmo.»