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«O Plano Tecnológico vai diminuir os favores»

Paulo Morgado, administrador-delegado da Capgemini e autor do livro Contos de Colarinho Branco, defende que o Plano Tecnológico terá um papel na redução da corrupção em Portugal

Um instrumento precioso para as polícias e que serviria também de dissuasor de novos episódios de corrupção. Como? A resposta é simples: ninguém quer que as suas opções sejam questionáveis à luz de um IPC. É um ónus muito pesado para a imagem de qualquer um. Além disso, as próprias associações dos sectores assinalados a vermelho sentir-se-iam pressionadas a inverter esse cenário e a actuar, também, como reguladoras.

A sugestão do IPC pertence a Paulo Morgado, administrador-delegado da Capgemini e autor do livro Contos de Colarinho Branco, publicado recentemente. «A corrupção é um crime muito difícil de detectar e de fazer prova. Entre corruptor e corrompido sela-se um pacto de silêncio», refere o especialista. Por isso, «não se deve olhar para o fenómeno apenas sob a perspectiva da punição e perseguição». Até porque o desfecho dos processos por corrupção é, regra geral, frustrante.

O IPC faria uma medição objectiva, não tendo por base insinuações mas sim dados económicos. «Em vez de estarmos no campo desagradável da suspeição, poderíamos actuar no campo da objectividade», salienta Morgado. As universidades deviam ser os motores deste índice, composto por indicadores sectoriais. Pegando no exemplo de uma consultora, uma forma de aplicar o IPC passa por verificar o número de trabalhos de consultoria e de auditoria prestados a uma mesma entidade.

Além dos dados fornecidos pelo mercado, o IPC também ganharia em ter indicadores transversais, como o número de processos de dívidas fiscais prescritos por sector de actividade. «Pode-se chegar à conclusão de que 80% das prescrições se verificam num determinado sector. E aí será interessante investigar por que razão isso acontece».

Morgado frisa que «não devemos tratar a corrupção de uma forma cega. Por exemplo, na contratação pública há truques que são conhecidos e essa informação deve ser tida em conta na altura de analisar as propostas dos concorrentes».

Igualmente importante é o controlo «a posteriori» das adjudicações. «O Estado aposta muito no aspecto processual da contratação, mas depois descura o seu acompanhamento», diz o consultor da Capgemini, acrescentando que «é preferível que se aligeirem as exigências iniciais e se invista mais no controlo do serviço prestado pelo vencedor do concurso. É indispensável obrigar a justificar todas as despesas adicionais - que, muitas vezes, são aprovadas não por quem adjudicou mas por outras pessoas».

Para Paulo Morgado, o Plano Tecnológico, lançado pelo Governo, terá um papel a desempenhar na redução da corrupção em Portugal. «Não tendo sido criado com o objectivo de combater este tipo de crime, o Plano Tecnológico será um instrumento muito importante para a sua diminuição, já que vai atacar a burocracia - um terreno fértil para a proliferação de favores».

Morgado não tem dúvidas de que «o efeito mais pernicioso da corrupção é destruir a competitividade de uma economia, travando a sua capacidade de modernização».