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O pior amigo do cão

Quando os animais se tornam incómodos, os portugueses livram-se deles. Haverá pelo menos um milhão de animais de companhia à espera de serem adoptados.

Todos os dias são deixados dois, três animais de companhia à porta da União Zoófila, em  S. Domingos de Benfica, Lisboa. Somente este ano, até ontem, deram entrada no albergue cerca de 200 cães e gatos adultos e mais de 80 «bebés», os quais vieram juntar-se às centenas de «hóspedes» acolhidos por essa associação de utilidade pública.

Tal como a União Zoófila, outros organismos não-governamentais e serviços municipais de recolha de animais abandonados, espalhados por todo o país, estão este ano com as suas lotações quase esgotadas. No canil municipal de Lisboa, que habitualmente faz capturas na via pública, «tem havido um aumento em especial do número de animais entregues directamente», assegura o gabinete do vereador Pedro Feist, dos Resíduos Sólidos, que tem esse pelouro na autarquia. A procura para adopção, ao contrário, tem decrescido este ano.

O fenómeno do abandono é crescente em Portugal e embora não haja estatísticas oficiais, as estimativas apontam que haverá pelo menos um milhão de animais de companhia à espera de serem adoptados ou (no caso dos canis e gatis municipais) de serem abatidos. Esse número estará muito próximo da realidade, admite Luísa Barroso, uma das responsáveis pelo albergue da União Zoófila, explicando ao EXPRESSO que o cálculo foi feito «com base nos dados recolhidos em associações congéneres e câmaras municipais».

O abandono de animais acontece o ano inteiro, mas o pico regista-se nas férias da Páscoa e, sobretudo, do Verão. Essa prática aumenta também no fim da temporada oficial da caça, que coincide com os meses de Agosto e Setembro. Frequentemente, a União Zoófila recebe animais feridos por balas.

Portugal ratificou a Convenção Europeia para a Protecção dos Animais de Companhia que proíbe a violência contra os animais, um conceito que abrange o abandono. As coimas variam entre os 500 e os 3.740 euros e podem atingir os 45 mil euros se se tratar de pessoa colectiva. Mas apesar de ser uma prática comum no país, não são conhecidos os casos de pessoas que tenham sofrido sanções por ter abandonado o seu animal durante as férias.

Prato do dia

«É o prato do dia: saem dois adoptados e entram seis abandonados», afirma Maria da Luz, há cinco anos responsável pelo gatil da União Zoófila, que recentemente acabou por levar a gata «Luisinha» – encontrada na rua enrolada num trapinho – para a própria casa.

«Não raras vezes, são os próprios donos que vêm cá deixar os animais, a fingirem que os encontraram na rua», afirma Luísa Barroso. As mais variadas razões servem de pretexto e de desculpa para o abandono. «Deixaram de ter condições» para continuarem a ter o animal, «saíram de férias», «tiveram um  filho», «vão mudar para uma casa pequena» ou «a senhoria não concorda com a sua permanência», como é o caso, respectivamente, de «Toa» («cadela meiga e com muita saúde») e «Shiva» («gatinha muito querida») disponíveis para adopção no «site» da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal.

Em Portugal, são comuns os casos de animais abandonados quando deixam de ser bebés. «Quando os animais crescem, roem os pés das mesas, dão cabo dos sofás, acabam com as meias. Ou seja, tornam-se incómodos, tal como acontece aos velhos», afirma Clara, que há uns anos encontrou um dálmata «com ar de abandonado, perdido na mata de Monsanto».

Esta semana, no albergue da União Zoófila encontravam-se 800 cães e 225 gatos, sem contar com os recém-nascidos mantidos de quarentena. Até ontem, os «hóspedes» mais novos eram dois gatinhos que, na tarde de terça-feira, estavam a ser alimentados a biberão por Ana Páscoa. De tão pequeninos, cabem na palma da mão dessa voluntária da União Zoófila, vendedora de profissão. Com a ajuda de uma voluntária mais experiente, Ana Páscoa esteve também a aprender como massajar a barriga dos órfãos para ajudá-los a urinar (em substituição às lambidelas que as crias receberiam da mãe). Os outros eram três cães rafeiros, um dos quais bebé.