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O nascimento de um cineasta (Manoel de Oliveira, parte I)

Um improbabilíssimo talento cinematográfico surge no Porto sem aviso prévio. Corre o ano da graça de 1931.

Muitos anos depois, Agustina escreveu que ele parecia um "menino Jesus". E ainda agora, vendo o papel que desempenhou n'A Canção de Lisboa - o cabelo encaracolado, os olhos cândidos - nos parece que a descrição não é errada. Nos anos 20/30, Manoel de Oliveira era assim, um menino rico do Porto, um "dandy" desocupado que se preocupava com as coisas do corpo e algumas do espírito. Nascera em 1908 numa família abastada. O pai era industrial de passamanarias e um homem empreendedor: foi o primeiro fabricante de lâmpadas eléctricas em Portugal, na década de 30 investiu num empreendimento hidroeléctrico sobre o qual, aliás, o filho fez um pequeno filme. Manoel era o mais novo de três filhos do matrimónio - havia mais dois irmãos de uma relação anterior do pai.

Inteligente, fez estudos secundários limitados, num liceu do Porto e no colégio dos Jesuítas de La Guardia, logo do outro lado da fronteira minhota, pois a República havia expulsado a ordem do nosso país. Os livros e a educação formal não o motivavam. A vida sim. Tornou-se um boémio, frequentava os teatros, o cinema, os espectáculos de circo e as mulheres da vida. Gostava de automóveis, entrou em corridas, fazia desporto - chegou a ser um praticante destacado de salto à vara - e montou números de circo, com o irmão Casimiro, que exibia em festas de beneficência. Gostava de vestir bem e sonhava ser actor de cinema, um "jeune premier", um sedutor. Mais tarde quis ser cómico, à maneira de Max Linder. De qualquer forma, ainda frequentou a escola de actores que Rino Lupo fundou no Porto e entrou, como figurante, na Fátima Milagrosa que Lupo dirigiu em 1928. Foi o primeiro contacto profissional de Oliveira com o cinema. Tinha 20 anos e fazia de jovem endinheirado e estroina, nada de muito difícil...

Mas o cinema era também uma arte plástica, moderna, veloz, fascinante. Manoel de Oliveira começou a olhá-la por outro prisma - o dos criadores - e desejou mostrar que era capaz. A fortuna familiar foi indispensável. O pai não só lhe comprou uma câmara de filmar como financiou as latas de película necessárias. Oliveira pegou num amigo que se interessava por fotografia - António Mendes - e, aos solavancos, entre 1929 e 1931, filmou um documentário de pouco mais de 20 minutos, mudo - Douro, Faina Fluvial. António Lopes Ribeiro que o viu no laboratório propôs a sua exibição no V Congresso Internacional da Crítica que António Ferro trouxera para Portugal.

E na noite de 19 de Setembro de 1931 Oliveira escutou a sua primeira pateada. Ao que parece os congressistas portugueses achavam que aquilo não era maneira de mostrar o Porto. Mas os convidados estrangeiros gostaram muito - diz-se que Pirandello, espantado com a reacção da sala, terá perguntado se em Portugal se aplaudia com os pés...

Douro, Faina Fluvial é um filme absolutamente extraordinário - ainda mais se pensarmos que Oliveira não fazia a menor ideia de como um filme se fazia, tendo trabalhado no puro domínio da intuição. O que nele vemos é uma improbabilíssima modernidade de processos que põem o (então) balbuciante cinema português ao nível de uma modernidade que se desconhecia. Nascia um grande cineasta, mas poucos deram por isso.

Durante os anos 30 Oliveira faz outros pequenos documentários irrelevantes, para reaparecer, em 1942, pela mão de Lopes Ribeiro, tornado produtor. Estreou-se, assim, na ficção, com Aniki Bóbó - uma história de meninos do Porto que o cineasta filmou maioritariamente nos estúdios da Tobis, em Lisboa. Alguns intelectuais defenderam o filme, mas o público não gostou nada, foi tiro e queda nas bilheteiras. Aquele que hoje é reconhecido unanimemente como um grande clássico do cinema português não o foi nada nesse início dos anos 40 em que parecia que tudo corria mal para Oliveira.

(...continua na próxima semana)

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Novembro de 2008