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''O mundo está à espera que Bush passe à acção''

"O aquecimento da Terra é um desafio moral e espiritual para todos nós, porque está simplesmente em jogo a sobrevivência da civilização humana", afirma Al Gore em entrevista exclusiva ao Expresso.

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Deu na quinta-feira em Lisboa uma conferência no Museu da Electricidade, a propósito do seu livro e filme 'Uma Verdade Inconveniente'. Quais são as mensagens que quer deixar em Portugal sobre as alterações climáticas? Quero transmitir a minha forte convicção de que o problema que estamos a enfrentar não é apenas motivo para alarme mas também motivo de esperança. A expressão chinesa para 'crise' é composta por dois caracteres: o primeiro é o símbolo de perigo, o segundo é o símbolo de oportunidade. Creio que o "slideshow" que apresento nas minhas conferências explica os perigos que enfrentamos. Mas há também grandes oportunidades para os empresários, governos, investidores e para os cidadãos em geral. E há ainda muitas coisas que cada português pode fazer para ajudar a resolver este problema.

Pode sugerir aos portugueses algumas ideias simples para mudarem o seu modo de vida e reduzirem o aquecimento global? A coisa mais importante que os portugueses podem fazer é tentarem ser neutrais nas emissões de carbono para a atmosfera. Isso significa tornarem-se tão eficientes no consumo de energia quanto possível - usando lâmpadas flluorescentes compactas em vez de lâmpadas convencionais e termóstatos com temporizador, optando pelos transportes públicos, pelas energias renováveis e por uma série de alternativas amigas do ambiente que são discutidas no meu livro e no site www.climatecrisis.net. E, logo que tenham reduzido ao máximo as emissões de carbono, podem comprar direitos de compensação no mercado para investir em projectos de energia renovável.

No seu recente discurso sobre o Estado da União, George W. Bush anunciou medidas para apoiar as energias renováveis e diminuir a dependência dos EUA do petróleo. Acredita que o Presidente quer realmente mudar a política energética e ambiental americana? Creio que temos de olhar para as acções e que passos concretos são tomados pela Casa Branca para aplicar essas propostas. Os melhores cientistas do mundo dizem-nos que precisamos de tomar medidas nos próximos dez anos para cortar as nossas emissões de gases com efeito de estufa. Já sabemos que as medidas voluntárias que tomámos não são suficientes. Por isso, são necessários mais esforços. O mundo está à espera que o Presidente Bush passe à acção para resolver este problema, que não é um assunto apenas dos democratas ou apenas dos republicanos, mas um problema global que exige uma liderança corajosa e acção imediata.

Considera as alterações climáticas, acima de tudo, uma questão moral, ética e espiritual, e não uma mera questão política ou científica. Porquê? Repare. Se você vê a crise climática apenas como um assunto político, então é fácil para os políticos adiar o problema para o próximo ciclo eleitoral. Mas, tal como outros grandes desafios geracionais - os direitos civis na América, o fim do "apartheid" na África do Sul -, há certas questões que simplesmente ultrapassam os temas políticos do dia-a-dia. A crise climática é, na realidade, um desafio moral e espiritual para todos nós porque está em jogo a sobrevivência da nossa civilização e a habitabilidade da Terra tal como a conhecemos hoje.

Que razões levaram os EUA a não ratificar o Protocolo de Quioto durante a Administração Clinton/Gore? Fui à Cimeira de Quioto para ajudar a negociar o acordo, e convenci o Presidente Clinton a assinar o Protocolo, mas quando regressei aos EUA descobri que havia apenas um senador, e não os 67 necessários, que estava de acordo em apoiar a ratificação desse Protocolo. Ficou então claro para mim que tínhamos de educar o público e construir apoios em todo o país para promovermos acções urgentes para combater a crise climática. E só então o Congresso estaria pronto para agir.

Em todo o caso, há estados dos EUA, como a Califórnia, bem como muitas cidades americanas, que aderiram às regras de Quioto. Não acha esta situação paradoxal? Devido à falta de liderança a nível federal, os governadores dos estados e os presidentes de câmara foram forçados a tomar decisões para cortar as emissões de CO2 - o principal gás com efeito de estufa que provoca o aquecimento global. Neste momento, cerca de 376 presidentes de câmara que representam 56 milhões de americanos já adoptaram as metas de Quioto. E 20 estados aprovaram medidas para o uso de energias renováveis nas empresas de serviços públicos. A Califórnia, com um governador republicano (Arnold Schwarzenegger) e uma agenda política democrata, aprovou leis avançadas nesta matéria. Esta nova vaga aumentou as pressões para que Washington passe à acção e, em última análise, será necessária nova legislação federal sobre estes assuntos.

A Europa já está a discutir a era pós-Quioto. Como podem os grandes países que não aderiram às regras do Protocolo de Quioto, como os EUA, a China, a Índia ou a Austrália, ser integrados na economia do carbono nesta nova era que se aproxima? As primeiras metas do Protocolo referem-se ao período de 2008-2012, o que significa que a era de Quioto ainda nem sequer começou. Claro que a esperança é que uma nova liderança política nos EUA e na Austrália integre os dois últimos países do mundo industrializado no processo, de modo a que o Tratado de Quioto seja ainda mais forte. Quanto à China e à Índia, o objectivo foi sempre que fizessem parte do regime do Tratado logo que o mundo industrializado desse o primeiro passo para reduzir as emissões de CO2.

Com o seu livro e filme 'Uma Verdade Inconveniente' e as conferências que tem dado em todo o mundo, sente que as mentalidades em geral estão a mudar rapidamente quanto às questões ambientais? Tem havido algum progresso encorajador, mas não creio ainda que as pessoas compreendam a urgência com que este assunto precisa de ser tratado, especialmente nos EUA. Os Estados Unidos e a Austrália, por exemplo, são os dois únicos países industrializados que não ratificaram o Protocolo de Quioto. E ainda temos países como o Canadá, que querem desenvolver a exploração das reservas de areias betuminosas, que são terrivelmente intensivas em carbono. Temos de fazer algumas escolhas e as soluções estão ao nosso alcance - mas o que nos falta agora é a vontade política para fazer as escolhas certas quanto ao nosso futuro.

Tem algum projecto para novo filme? Neste momento não.

Está a prepar um novo livro. De que temas trata e quando vai ser lançado? O meu novo livro chama-se 'O Assalto à Razão' e estará nas livrarias dos Estados Unidos no próximo dia 22 de Maio. Na verdade, é uma reflexão sobre o meu pensamento e os meus discursos ao longo dos últimos anos. É também uma acusação contra a direita radical liderada por Bush, pelo desprezo que demonstra em relação aos princípios da moderação no processo de decisão, e um ajuste de contas com a degradação da esfera pública que permite tal comportamento. O livro explica como chegámos a esta situação e como podemos restaurar as regras do bom senso para salvaguardar o futuro.

Entrevista publicada na edição do Expresso de 9 de Fevereiro de 2007, 1.º Caderno.