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O metódico "trapalhão"

Desfile carnavalesco madeirense caricaturou discurso oficial do Governo Regional. Jardim assistiu da varanda.

Aquela que será a versão mais popular do desfile carnavalesco madeirense, designado "Trapalhão", em contraponto com o cortejo oficial que decorreu no Sábado – ambos financiados e organizados pela Secretaria Regional do Turismo –, caricaturou, de certa forma, o discurso oficial do Governo Regional.

As máscaras pareciam moldadas pelo discurso que Alberto João Jardim fizera na véspera anunciando a renúncia ao cargo. O primeiro-ministro José Sócrates, pelo corte ao orçamento da Região, e o resultado do referendo ao aborto, foram bombos de festa de foliões num concerto temático tão afinado que o improviso se resumia ao pormenor mais ou menos grotesco do gesto.

Alberto João Jardim que assistira ao desfile numa das varandas da Secretaria Regional do Turismo na Avenida Manuel de Arriaga diria no fim não ter visto ali qualquer manifestação de solidariedade por não ser aquele o lugar para a população "apoiar ou desapoiar". Mas, em bom rigor, os inúmeros polegares erguidos pelos foliões na sua direcção durante o desfile pareciam funcionar, àquela distância, como o piscar de olho cúmplice por cima do ombro.

Diz a "tradição" desta manifestação carnavalesca madeirense que este cortejo é composto por populares que se inscrevem individualmente no cortejo e de caretos improvisados. Ou porque a sociedade de consumo iniba mesmo os mais habilidosos na arte, a verdade é que desta feita eram muitos os mascarados a repetir a indumentária e sobretudo a concorrer para a mesma temática, como coesas escolas de samba. E o samba repetia-se: "Sócrates" e "traição" partilhavam espaço nas pancartas como sinónimos e o primeiro-ministro dividia um carro alegórico com Sadam, julgado e condenado à "forca".

O "crime" estava identificado em cheques gigantes do Banco de Portugal "rubricados" por Sócrates, e de valor facial igual ao corte no orçamento anunciado por Alberto João Jardim, por força da aplicação da nova Lei das Finanças Regionais. Traição foi também uma expressão usada pelo líder madeirense para caracterizar a disciplina de voto dos socialistas locais na votação no Parlamento de Lisboa da Lei das Finanças Regionais. Não parece difícil inferir a pena capital como metáfora da penalização popular pelo voto. Custa acreditar que num piscar de olhos a mensagem de Jardim fosse tão bem entendida, interiorizada e inspiradora das massas, mas a verdade estava aí para confirmar.

Em tempo de Carnaval, mascarada ou não, a campanha eleitoral parece ter já começado, ainda que na véspera de Jardim formalizar a sua renúncia ao representante da República, no Palácio de S. Vicente.