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Atualidade / Arquivo

O homem e a rã

Uma denúncia dos riscos do aquecimento global.

Talvez não haja metáfora mais perfeita do que significam os riscos do aquecimento global no planeta que, por mão do homem, vai num rápido crescendo (irremediavelmente?) perante a (quase) alegre indiferença da maioria dos habitantes das regiões mais «civilizadas» do planeta (que se deliciam com os Verões cada vez mais quentes e prolongados que aumentam de ano para ano), antevisão de um destino que (ainda) pode ser alterado.

Al Gore tem feito, ao longo da sua vida política, uma cruzada da denúncia deste problema, e desde que «perdeu» a eleição para Presidente dos Estados Unidos, de uma forma contestada e bem conhecida, tem-se empenhado numa série de conferências por todo o mundo em que expõe exaustivamente as causas do fenómeno e os seus efeitos.

Uma Verdade Inconveniente é um documentário que se poderia incluir na linha de outros trabalhos recentes sobre vários problemas sociais e políticos da actualidade, como Fahrenheit 9.11, de Michael Moore, ou Supersize Me-30 Dias de Fast Food, de Morgan Spurlock, mas tem sobre estes a vantagem de evitar a retórica e o efeito fácil, que transforma o grito de alarme numa provocação. O filme de Davis Guggenheim toma uma forma didáctica, característica reforçada pelo estilo da exposição, que se centra na conferência dada com notável capacidade de comunicação por Al Gore. Não se infira disto que o filme seja «chato». Muito pelo contrário. O texto de Al Gore é objectivo mas a exposição faz-se como num filme de «suspense» (sendo a Terra, a personagem em perigo), e o humor aparece em pequenos apartes de carácter pessoal (repare-se na ironia com que se refere à sua «derrota» eleitoral). Este, e algumas histórias como a que nos serviu de abertura, vão pontuando a exposição que se acompanha de gráficos que dão uma viva perspectiva dos riscos que corremos, e imagens reais que se diriam sair de um qualquer filme «catástrofe»: para onde foram as Neves do Kilimanjaro celebradas por Ernest Hemingway, entre outros fenómenos?

Guggenheim, que acompanhou Al Gore numa digressão pelo país, insere, muito habilmente, ao longo do filme, imagens de carácter mais pessoal sobre Gore, desde os seus tempos de jovem quando abraçou a causa a que se dedica, que lhe tem valido alguns epítetos mordazes por parte dos seus adversários (o «Ozone Man» de Bush, é um deles), incluindo, naturalmente, a campanha eleitoral de 2000.

Seja qual for a opinião que se tenha sobre o tema e o político, Uma Verdade Inconveniente é um filme fundamental para ver e reflectir, antes que seja tarde, antes que a água aqueça e ferva os homens-rãs que todos somos.