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O fim do medo de ser cotado

Portugal vai voltar a estar no mapa das dispersões de capital nos próximos meses - e não serão apenas as grandes privatizações da Galp e da REN a marcar presença na Bolsa. A convicção é do presidente da Euronext Lisbon, Miguel Athayde Marques, no seu balanço sobre a reflexão que tem vindo a ser feita sobre as vantagens de ir para a Bolsa.  

Durante a semana passada a Euronext esteve reunida com grupos não cotados (que não foram identificados), num retiro que serviu para verificar que está em curso uma mudança na relação com o mercado de capitais: das 24 empresas presentes, 23 admitiram a hipótese de ir para a Bolsa.

«Hoje a situação é desesperante, mas em breve teremos novas empresas na Bolsa» Athayde Marques
  
Os números falam por si: este ano não houve qualquer empresa portuguesa a ir buscar dinheiro à Bolsa - a única dispersão de capital coube ao Banco Popular Español. Uma situação que contrasta fortemente com o que se passa noutros países europeus (ver infografia). Esta realidade é «desesperante», afirma o presidente da Bolsa portuguesa. «Se queremos ter uma economia atractiva, temos de ter empresas no mercado». Para alterar este estado de coisas, a Euronext tem promovido encontros individuais com empresas que considera terem condições para se cotar. Tal esforço culminou com o retiro de reflexão, cujo palco foi o Convento do Espinheiro, em Évora, famoso por ter albergado a selecção portuguesa de futebol antes da partida para o Mundial da Alemanha.

«Portugal tem empresas muito inovadoras que deveriam entrar na Bolsa o mais rapidamente possível» António Borges
  
Segundo Athayde Marques, ficou claro que a Bolsa é não apenas um meio de financiamento como também facilita o crescimento por aquisições, já que as acções podem ser utilizadas como moeda de troca nos movimentos de concentração. Terão sido também desmistificados os argumentos que têm afastado as empresas do mercado. Entre eles estão os receios de perda do controlo e da prestação obrigatória de informação sensível, que pode ser utilizada pelos concorrentes. E depois há também os custos associados à entrada e manutenção das empresas na Bolsa, que a Euronext tem intenção de aumentar. Hoje Portugal beneficia de preços mais baixos do que os outros mercados da Euronext, situação que terá de mudar.

O facto de a Euronext estar a contactar as empresas para lhes dar conhecimento dessa intenção levou o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, Carlos Tavares, a alertarem para a necessidade de não pôr em causa, com a subida dos preços que se avizinha, os incentivos fiscais que o Governo quer aprovar para trazer empresas para a Bolsa.

A este propósito, Athayde Marques diz que a questão está a ser empolada. Em primeiro lugar porque ainda nada foi decidido. E depois porque não se prevêem apenas subidas de custos, já que haverá empresas que passarão a pagar menos.

Também presente na iniciativa, António Borges elogiou os avanços registados no mercado português, apesar de considerar que há ainda muito a fazer. O vice-presidente da Goldman Sachs International considera que há em Portugal um conjunto de pequenas empresas muito inovadoras que deveriam ir o mais rapidamente possível para a Bolsa. «Há procura e espaço para essas ofertas. Encontrei em Évora empresas genuinamente interessadas em dispersar capital», afirma.