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O espectáculo da violência

Uma peça sobre a violência e a catástrofe, servida em dois actos pela companhia Mala Voadora.

Ao fundo de um palco forrado a negro uma jornalista lê, em tom monocórdico, um texto que nos informa de como os soldados levaram as suas consolas Playstation e Xbox para o Iraque. Dois homens e uma mulher correm para frente e para trás, tentando cumprir tarefas absurdas, num jogo onde a derrota dá direito a açoitamento público. Um registo de vídeo mostra-nos estranhas figuras engravatadas, a moverem-se como marionetas ao som de um hino.

Em “Hard 1+2”, a peça em cena até dia 22 no Teatro Taborda, a companhia Mala Voadora leva para palco uma série de registos diversos: vídeo, maquetas, aquários, soldadinhos de chumbo, elementos pirotécnicos… “Temos procurado construir os espectáculos ao sabor dos temas. Optar por registos completamente diferentes e ir buscar pessoas de várias áreas consoante o que precisamos para cada projecto”, explica o responsável pela cenografia, José Capela, sobre o trabalho que tem sido desenvolvido pela companhia nascida em 2003.

Este foi mais um espectáculo que o grupo construiu sem partir de um texto. O projecto começou com a recolha de diversos materiais, desde notícias de imprensa até a excertos de filmes. “Desde o início que sabíamos que queríamos trabalhar o conceito da violência e do acidente, pela espectacularidade com que são servidos no 'entertainment'”, refere o encenador Jorge Andrade. Com o avançar do processo criativo, o conceito de ‘acidente’ acabou por evoluir para dar lugar ao de ‘catástrofe’.

‘Violência’ e ‘catástrofe’ ficaram como os pontos de base deste diptico, apresentado em dois actos, resultado de um trabalho de criação colectiva que passou por duas residências no Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa). “Interessava-nos trabalhar o geral e o particular. Ir da política para a pequena política, chegar à família e ao indivíduo, que é onde reside a violência”, diz Jorge Andrade.

A determinada altura resolveram pedir a Miguel Rocha (autor de bd que já havia colaborado com a Mala Voadora na peça “Philatlelie”) para escrever a dramaturgia da segunda parte do espectáculo (“Hard II” sobre a catástrofe).

Enquanto que na primeira parte somos levados por entre jogos, que tão depressa se apresentam como lúdicos e inofensivos como se transformam em algo de letal, a segunda remete-nos para as maravilhas do “admirável mundo novo”, desde as electrocussões promovidas por Thomas Edison, a fogos florestais ou a acidentes que marcaram o século XX, como o da central nuclear de Chernobyl.

“Hard I+II” estreou em finais de Julho em Faro e está agora a ser apresentado, com pequenas modificações, no Teatro Taborda. O espectáculo conta com as interpretações de Anabela Almeida, Diogo Bento, Inês Lopes e John Romão. Trata-se de uma co-produção da companhia MalaVoadora com a Devir CAPa e o Teatro da Garagem.