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Atualidade / Arquivo

O equívoco de uma sociedade desfeita

Durante o cativeiro, António não sabia que a sua liberdade valia milhões de bolívares. O seu império não era aquilo que os raptores pensavam ser.

Só quando voltou a casa, a 28 de Julho, António soube que a sua liberdade valia mil milhões de bolívares. Enquanto estava detido, perguntou aos seus raptores quanto tinham exigido, mas nunca teve resposta. «Eles diziam que não sabiam porque quem telefonava para a família eram os chefes, que estavam na Colômbia. Nunca pensei em mil milhões», confessa.

Ainda bem – se lhe passasse esse valor pela cabeça, talvez não tivesse passado os dias tão confiante de que havia de sair com vida daquela aventura. «Não achei que fosse morrer, porque eles não me iam matar enquanto a minha família não se negasse a pagar o dinheiro. E eu sabia que os pequenos meus iam fazer tudo para arranjar o dinheiro.»

Pelas suas contas, os raptores haviam de pedir 200 ou 300 milhões de bolívares (à volta de cem mil euros), o que não seria difícil pagar. Mas à medida que passavam dez, quinze, vinte dias, começou a suspeitar que talvez o valor exigido estivesse acima das contas da família. Quando já levava mais de duas semanas de cativeiro, convenceu-se que tudo não passaria de um equívoco: os colombianos julgavam que ele seria mais rico do que de facto era.

Em Puerto Cabello e Morón constava que António era dono de uma dezena de estabelecimentos, equívoco que este, pelo feitio fanfarrão, nunca se preocupou em desmentir. A realidade é que esse pequeno império era seu e do seu sócio – o cunhado Adelino, irmão de Isabel e de Carlos.

A sociedade, que prosperou em poucos anos, tinha-se desfeito em Janeiro, quando os cunhados se desentenderam. Separaram os negócios: António ficou com a fazenda, que era a menina dos seus olhos, mais o bar, o talho e a frutaria. Adelino ficou com outro bar, outro talho e um supermercado, na mesma avenida central de Morón, exactamente do outro lado da rua, e ainda mantinha outros três estabelecimentos em Puerto Cabello. António bem tentou explicar o equívoco aos homens que o guardavam, mas de nada lhe valeu.