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O dia em que Sócrates deixou de fumar... pela segunda vez

O primeiro-ministro pediu desculpas aos portugueses por ter fumado a bordo do avião que o levou até à Venezuela. Não foi preciso mais para 'salvar' o dia, noticiosamente falando.

Cristina Figueiredo, enviada a Caracas

Há uns anos, José Sócrates deixou de fumar. Foi quando se iniciou no "jogging". A campanha eleitoral de 2005 reacendeu-lhe o vício, que ao princípio tentava dissimular, solicitando a cumplicidade dos jornalistas para que o não fotografassem de cigarro na mão - sobretudo, justificava-se, por causa dos filhos.

Ontem, deixou de fumar outra vez. E hoje começou o dia, o último da sua visita oficial à Venezuela, com uma corrida pelas ruas de Caracas. O "jogging" já estava previsto, pois não há visita oficial que dispense esse momento fotogénico, mas ganhou importância redobrada face à polémica do 'fumo a bordo' que o primeiro-ministro decidiu enfrentar (desta vez sem demoras, comparativamente a outras polémicas, noutras viagens anteriores) com uma assunção de responsabilidades, um pedido de desculpas e essa medida radical, que ninguém (nem tão pouco a situação) lhe exigia: deixar de fumar.

O gabinete do primeiro-ministro garante que a comunicação de José Sócrates (que se dirigiu aos jornalistas propositadamente para o efeito, não esperando ser questionado sobre o tema) foi uma decisão tomada Única e exclusivamente por ele, que se terá limitado a partilhar com assessores e conselheiros o sentimento de perplexidade com as dimensões de escândalo nacional produzidas por uma situação que não só não era inédita como acontecia recorrentemente em voos oficiais (fretados) - dela se aproveitando todos os fumadores a bordo, jornalistas incluídos. Uma reflexão pessoal ter-lhe-á permitido, depois, concluir que não tinha outra saída se não assumir o sucedido e pedir desculpas por isso.

O exercício de humildade, de inesperado, 'secou' a controvérsia que, desde terça-feira, quando saiu a notícia no site do 'Público', vinha tomando proporções crescentes e ameaçava (e em parte conseguiu) relegar para segundo plano os esforços sobretudo a nível económico que o Governo português empenhou nesta visita à Venezuela. Hoje, se tudo correr sem outros imprevistos, é desta que, finalmente, se irá escrever e falar.

O presidente da Venezuela, em mais uma decisão de última hora que acabou por comprometer em parte a organização do programa do primeiro-ministro português, decidiu acompanhar José Sócrates na visita à faixa petrolífera do Orinoco - onde foi assinada mais uma leva de acordos e memorandos de entendimento entre Portugal e a Venezuela. E de novo Hugo Chavez não desperdiçou a plateia que tinha pela frente (com os olhos postos em especial na comunicação social portuguesa) para enviar os seus recados à Europa em particular e ao mundo em geral.

A mensagem, já expressa, na véspera, no palácio de Miraflores, ainda que de forma mais subtil, foi claríssima desta feita, até porque o cenário o proporcionava: "A causa fundamental das agressões permanentes à Venezuela não é a ideologia. É esta gigantesca reserva de petróleo, a maior do planeta", afirmou, antes de estimar que já em 2009 a Venezuela será o primeiro fornecedor mundial de petróleo. Num mundo a braços com uma crise energética, é o mesmo que dizer: não se atrevam a desprezar-nos.

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