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O colete de forças que amarra Alegre

Por que uma candidatura de Manuel Alegre é agora muito mais arriscada do que em 2005.

Martim Silva (www.expresso.pt)

Em 2005, Manuel Alegre apareceu ao país como o candidato que rompia com o monopólio dos partidos, que lhes fazia frente e que lhes dizia não. Agora, Manuel Alegre é o candidato oficial do PS oficial que está no poder. E é o candidato oficial do Bloco de Esquerda que é contra o PS que está no poder.

Em 2005, com o país saído de uma maioria absoluta recente de José Sócrates fazia sentido o discurso da não ingerência na esfera governativa. Cinco anos depois, com uma governação fragilizada, um Governo com um rumo pouco claro, e uma situação interna de impasse perante a crise económica, financeira e social, tudo o que se pede é um Presidente que tenha uma palavra que os portugueses ouçam, respeitem, que saiba do que fala e que intervenha. Que intervenha é mesmo o que se pede. 

Há cinco anos, Manuel Alegre começou como o under dog, o candidato que vinha de fora, com as expectativas em baixo, que fazia uma campanha modesta pelo país e que foi em crescendo até conseguir o segundo lugar, um milhão de votos e, sobretudo, ficar à frente do socialista oficial Mário Soares. Em 2010, Manuel Alegre é o candidato oficial. É ele que tem um colete de forças, por mais vezes que use a palavra liberdade nos seus discursos. É ele quem vai ter um Fernando Nobre a morder-lhe as canelas. É ele quem mais tem a perder.

Em 2005, ficar em segundo lugar foi uma vitória. Agora, não esmagar Fernando Nobre e não conseguir evitar a vitória de Cavaco Silva à primeira volta seriam derrotas claras. Por estas razões, pelo menos, parece-me que o lançamento oficial da candidatura do poeta tem mais riscos que potenciais benefícios.

Ainda faltam oito meses para as eleições, é certo. Mas serão oito meses com os socialistas pouco mobilizados. Com a palavra económica de Cavaco Silva a ser cada vez mais fulcral. Com a presença de José Sócrates ao seu lado nos comícios a poder tornar-se cada vez mais incómoda com o crescer do mal-estar social (o desemprego não está a diminuir, pelo contrário). 

Manuel Alegre tem a seu favor a imagem que criou, de homem culto, independente e que ama o seu país. Mas esse discurso é agora curto para o que o país precisa.

Conseguirá ele surpreender-nos?