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O caçador de planetas

A prestigiada revista «Time», que o elegeu uma das 100 personalidades mais influentes de 2006, chama-lhe «o pior pesadelo de Plutão». Mike Brown, 41 anos, é o astrónomo que despoletou o processo de definição científica do conceito de planeta, com a sua descoberta, em 2003, do 2003 UB313, o objecto mais longínquo conhecido no sistema solar. Baptizou-o Xena, em homenagem à princesa guerreira da série televisiva, mas foi o facto do corpo celeste ter um diâmetro superior ao de Plutão que lançou o meio científico num debate que pode culminar com a ampliação do sistema solar de nove para doze planetas.

Se a resolução da União Astronómica Internacional (UAI) for aprovada amanhã, Brown poderá quase instantaneamente transformar-se no maior caçador de planetas da história. Com o seu velho telescópio de 122 centímetros e muita paciência, o astrónomo descobriu já 14 outros objectos que gravitam na misteriosa Cintura de Kuiper – situada para lá de Neptuno – todos mais pequenos que Plutão, mas que encaixam na nova categoria de «planetas plutões» proposta pela UAI. Seria o suficiente para lhe assegurar um lugar no Olimpo da Astronomia, mas o americano surpreendeu tudo e todos ao defender que seria «uma pequena fraude» classificar a sua descoberta como um planeta. «A decisão científica racional», sustentou ao EXPRESSO, seria assumir que o sistema solar é constituído apenas por oito planetas, mas falta coragem e sobra sentimento aos astrónomos para excluir Plutão da lista.

Natural de Huntsville, no Alabama, Brown cresceu entre o ruído dos ensaios dos foguetões no vizinho Marshall Space Flight Center da NASA. Muito cedo percebeu que queria ser astrónomo, mas estava então longe de imaginar que faria uma carreira a descobrir planetas. «Eu adorava os planetas, mas nunca pensei que quisesse encontrar um», recordou à Associated Press. «Durante muito tempo, toda a gente pensava que o sistema solar acabava em Plutão. Não existia mais nada para além disso».

A sua percepção mudou durante o doutoramento na Universidade de Berkeley, quando colegas seus fizeram as primeiras descobertas de outros corpos gelados na Cintura de Kuiper para além de Plutão. Mas foi só depois de se juntar ao Instituto de Tecnologia da Califórnia, em 1997, que começou a ganhar fama pela perícia em encontrar objectos com um telescópio. A primeira coisa que fez quando descobriu que Xena era maior que Plutão – e, como tal, poderia qualificar-se como o décimo planeta do sistema solar – foi telefonar à mulher. Ela limitou-se a responder: «Isso é bom, querido. Importas-te de trazer algum leite para casa?»