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"Nos próximos dois anos, a Líbia será um país de oportunidades"

Portugal vai abrir uma embaixada no país liderado por Muamar Khadafi. As oportunidades de negócio são a grande prioridade desta missão. O embaixador Rui Lopes Aleixo embarca este domingo para Tripoli.

Quais são as prioridades desta embaixada?
São fundamentalmente três. Por um lado, era necessário completar a nossa cobertura dos países do Norte de África, que são a fronteira sul da Europa. Durante muito tempo, esses países estiveram negligenciados pela União Europeia (UE) que durante o processo de alargamento olhou muito mais para a fronteira leste. Infelizmente, a UE só olhou para sul quando começou a haver problemas de terrorismo e de imigração ilegal.

E as outras duas?
Em segundo lugar, a Líbia representa um mercado potencial muito importante em termos de investimentos, de exportações e de fornecimento de gás e petróleo. Além disso, o país tem hoje um papel em África que não se pode ignorar. A influência do Presidente Khadafi sobre os países africanos é muitíssimo importante e decisiva na União Africana. Aliás, a União Africana, no seu modelo actual, é uma concepção do próprio Khadafi.

Os Estados Unidos de África...
Ainda não estamos lá... A Líbia é um país incontornável no diálogo mediterrânico. Para além do Processo de Barcelona, Portugal privilegia também o diálogo 5+5 e a União do Magrebe Árabe que não tem estado a funcionar de uma forma exemplar mas que, mais uma vez, passa pela Líbia.

É possível hierarquizar essas prioridades?
A curto prazo, a prioridade passa pela realização da cimeira Europa-África [Lisboa, 8 e 9 de Dezembro]. A Líbia tem muita influência na agenda da União Africana. A médio e longo prazo, a prioridade passa, sem dúvida, pela cooperação económica.

Ainda em relação à cimeira Europa-África, o que seria para si uma reunião de sucesso?
A realização da cimeira é em si um sucesso na medida em que já decorreram cinco anos desde a reunião do Cairo. A cimeira pode não decidir muita coisa mas é o símbolo da cooperação entre os dois continentes. Eu acho que um dos objectivos desta cimeira deveria ser a criação de um mecanismo de acompanhamento entre reuniões.

As oportunidades de negócio e o passado greco-romano

A nível económico, qual é a mais-valia do mercado líbio para os empresários portugueses?
O Governo líbio tem um plano de investimentos em infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias, hospitais e universidades que quer ver concluído a tempo de comemorar o 40º aniversário da revolução, a 1 de Setembro de 2009. Isto oferece aos empresários portugueses enormes oportunidades. Amanhã, parte daqui uma delegação de seis empresários, sobretudo da área da construção civil, para desenvolver contactos com as autoridades líbias. Ao nível da indústria do petróleo, há empresas portuguesas com uma grande capacidade tecnológica para fornecer materiais e equipamentos.

Há algum calendário de iniciativas para dar a conhecer o mercado líbio em Portugal e vice-versa? Agora as partes interessadas têm de se encontrar...
A embaixada vai criar um "site" onde se vão anunciar os grandes concursos. Claro que a AICEP, uma vez concluída a sua reestruturação, também terá essa função de divulgar as oportunidades de negócio. Se a AICEP abrir uma delegação em Tripoli será a oportunidade para divulgar em Portugal as potencialidades que nos oferece o mercado líbio e apresentarmos na Líbia as nossas potencialidades. Também não está fora de questão fazermos uma feira de produtos portugueses em Tripoli. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Líbia propôs que fizéssemos uma exposição para lançarmos os produtos portugueses.

A cultura costuma ser um bom ponto de partida para a cooperação...
Tenho esperança que seja possível desenvolver uma cooperação cultural com a Líbia ao nível, por exemplo, da conservação dos sítios arqueológicos. Temos este grande elo do passado greco-romano... A Universidade de Letras está também a negociar um acordo com a Universidade de Sheba para colaboração em matéria de estudos islâmicos. Há muitas coisas que começam a mexer que, espero, a abertura da embaixada ajude a consolidar. Nos últimos dois meses, também apresentamos às autoridades líbias a revisão dos acordos de cooperação económica, cultural e um novo acordo em matéria de defesa.

Algum desses acordos contempla algum tipo de cooperação em matéria de imigração ilegal?
A nível bilateral, não. O que há é a negociação entre a Líbia e a UE de uma série de medidas que vão desde o controlo das fronteiras até ao repatriamento de imigrantes, que o queiram, para os países de origem, e que está a ser feito pela Organização Internacional das Migrações.

Qual o conteúdo do acordo em matéria de defesa?
Os termos ainda estão a ser negociados, mas poderá abranger, por exemplo, a reparação de aviões líbios nas OGMA.

Os portugueses vão de férias para Marrocos, Tunísia, Egipto, mas não para a Líbia que é, no mínimo, um destino tão interessante quanto os países vizinhos...
A Líbia tem enormes potencialidades: uma costa de 2000 quilómetros, quase inexplorada do ponto de vista turístico, e o deserto, com enorme potencialidade para o turismo de aventura. Mas não tem infra-estruturas turísticas, só há hotéis nas grandes cidades.

Os méritos da comunidade internacional e de Muamar Khadafi

Relativamente ao Processo de Barcelona, que leitura faz da paralisia em que se encontra?
Para fazer um diagnóstico dos males teria de apresentar um projecto de cura, que não tenho. A UE criou as condições para que o Processo de Barcelona tivesse sucesso, mas a maior parte dos países membros, tirando os do Sul, não estão tão empenhados nesse processo. A Líbia não é parte do Processo de Barcelona, é observador. O que a Líbia critica é que se tenha criado um modelo de funcionamento sem a participação dos países do Norte de África. Eles dizem: 'Os europeus conceberam o Processo de Barcelona e apresentaram-nos já pronto. Disso não gostamos. Queremos participar e dar a nossa opinião'. Mas será só isso? Julgo que o que está a paralisar o Processo de Barcelona é o conflito no Médio Oriente. Há um peso da questão palestiniana devido à presença de Israel e enquanto não encontrarmos uma solução para este conflito...

Mas também há conflitos entre os países árabes. Marrocos e a Argélia, por exemplo...
É verdade. Eu creio que - e é por isso que Portugal está tão interessado no 5+5 - um grupo mais pequeno e homogéneo talvez pudesse projectar no Processo de Barcelona uma dinâmica diferente. Ainda por cima, o Processo de Barcelona tem muitos meios que não estão a ser utilizados. Julgo que esta é também a ideia do ministro dos Negócios Estrangeiros que nomeou um representante da nossa presidência só para o Processo de Barcelona [embaixador Ribeiro de Menezes].

A Líbia não é mais um estado pária na comunidade internacional. De quem é o mérito?
O coronel Khadafi teve a grande visão de inverter algumas políticas, de tentar a aproximação à comunidade internacional e de pagar algum preço por isso. Percebeu que isso seria muito mais vantajoso do que manter o isolamento e aquele estado de cerco em que o país esteve durante quase 20 anos. Da parte da comunidade internacional também houve alguma inteligência e paciência em desenvolver as acções necessárias para chegar a esse momento. São coisas que não se resolvem num só dia. De parte a parte, houve a vontade de se chegar a um consenso.

A presidência portuguesa da UE tem iniciativas para impulsionar a cooperação com a Líbia?
Vamos pedir à Comissão Europeia um mandato para a negociação de um acordo de cooperação com a Líbia. Nesse mandato vai assentar o desenvolvimento de cooperação em áreas como a energia, o combate à imigração ilegal e o apoio à reestruturação económica e financeira e à exploração arqueológica. São áreas em que a Líbia está muito interessada.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 1 de Setembro de 2007, 1.º Caderno, página 29.