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Não vai ser fácil

Com a adesão à UE e o diálogo inter-religioso em pano de fundo, Angela Merkel inicia esta quinta-feira uma visita oficial à Turquia. Não vai ser fácil, garantem fontes do governo alemão.

A chanceler alemã Angela Merkel inicia esta quinta-feira uma visita oficial à Turquia, que além dos habituais temas internacionais, europeus e bilaterais, sublinhará a importância do diálogo entre religiões.

O encontro de Merkel amanhã, dia 6, em Istambul, com líderes de várias confissões religiosas, entre os quais o Patriarca ecuménico Bartolomeu I, que exigiu recentemente mais liberdade religiosa no seu país, está a ser encarado na imprensa alemã como uma crítica indirecta da chanceler ao governo turco.

Uma fonte governamental em Berlim limitou-se ontem, no entanto, a admitir que "o diálogo sobre a evolução social, a cultura e a religião será a característica especial" da viagem. Outras fontes sublinharam que se trata da deslocação "mais difícil" ao estrangeiro da chefe de governo democrata-cristã, desde que assumiu funções, há quase um ano.

A maioria dos analistas fez notar em vésperas da viagem que o diálogo germano-turco, já de si complicado, se tornou ainda mais difícil, porque, entretanto, impera o cepticismo de ambos os lados, no que toca à entrada da Turquia para a União Europeia.

A euforia reinante entre os turcos desvaneceu-se, logo que perceberam que nem todos lhes desejam boas-vindas, e o número de alemães que temem a desagregação da União Europeia, se o grande país do Bósforo se tornar membro, aumentou ainda mais, de acordo com várias sondagens.

Não admira, por isso, que as críticas do governo turco ao discurso do Papa Bento XVI, a 12 de Setembro, na Universidade de Ratisbona, fossem pretexto para líderes conservadores alemães, como o governador da Baviera, Edmund Stoiber, exigirem a anulação das conversações de adesão da Turquia à UE, a iniciar a 1 de Janeiro de 2007.

Tal como a chanceler alemã, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan está em acentuada perda de popularidade e sabe que a visita de Angela Merkel dificilmente o ajudará a marcar pontos.

As afinidades entre Berlim e Ancara no que se refere aos principais focos de conflito mundiais – Irão, Iraque, Afeganistão e Médio Oriente – são grandes e a Turquia tem sido um parceiro fiável da comunidade internacional na conturbada região.

Além disso, há intensas relações económicas entre os dois países, a União Europeia é o principal parceiro comercial e a Alemanha o principal investidor na Turquia, que tem cerca de dois milhões de emigrantes a viver na Alemanha.

No que concerne às negociações de entrada da Turquia para a UE, Berlim considera que se trata de um processo "com desfecho em aberto", como está fixado no acordo de coligação do novo governo de democratas-cristãos e sociais-democratas.

Antes de se tornar chanceler, Angela Merkel defendeu mesmo uma "parceria privilegiada" para a Turquia, em vez da adesão à União Europeia, contrariando a linha do anterior governo de Gerhard Schroeder, que tinha dado algumas esperanças a Ancara.

Agora, porém, os tempos são outros, e num recente fórum da Fundação Bertelsmann, em Berlim, a chanceler alemã foi clara ao dizer que a prioridade é a integração dos novos Estados membros da União Europeia e não o alargamento das fronteiras comunitárias.