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"Não sei se voltarei a ter a ambição de liderar o CDS"

Ribeiro e Castro não põe de parte a hipótese de se voltar a candidatar à liderança do CDS, mas diz que isso não o condiciona. E também não exclui a hipótese de se apresentar como candidato às legislativas. Mas diz que não é ele quem tem que dar passos para a reconciliação interna.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Nos últimos dias fez críticas muito duras à direcção do CDS. Não lhe ocorreu a hipótese de se candidatar contra Paulo Portas? Não. Eu acho que não faz sentido. Em 2005 o CDS sofreu uma grande derrota e o centro-direita sofreu a maior derrota eleitoral da história da nossa democracia. O presidente do CDS saiu, deixou o partido à sua sorte diante de umas autárquicas e umas presidenciais, com as coisas não preparadas e num grande vazio. É nesse contexto de vazio que eu sou estimulado a apresentar a moção "2009". Sectores do partido liderados por Paulo Portas mobilizaram-se para tornar impossível esse trabalho, sabotar, contestar. Na sequência do processo chamado de "assalto ao poder", em 2007, o meu mandato é interrompido e eu sou exonerado dessa responsabilidade, e sinto-me muito satisfeito com isso. Portanto, não faz sentido eu estar aqui a teimar. Correspondi uma necessidade do partido.

Só admitiria recandidatar-se em circunstâncias semelhantes? Essas coisas não se prevêem. Não tinha tido nunca essa ambição e não sei se a voltarei a ter.

Mas gostaria de poder fazer o que não conseguiu dessa vez, ou seja, ir a eleições? Mentiria se não dissesse que gostaria de ter levado até ao fim o meu projecto e medi-lo em eleições. Houve sectores determinantes do CDS que o impediram, agora eles que conduzam o partido.

Para si é um absurdo falar numa recandidatura? Não digo que sim nem que não. Essas coisas não se planeiam. Quem anda na vida política há muitos anos sabe que essas coisas relevam muitas vezes da imprevisibilidade. E estamos também em tempos de grande volatilidade, mas isso não me determina.

Vai ao congresso de Janeiro? Não sei. Neste contexto tenho dúvidas que tenha qualquer coisa útil a dizer.

Porquê? Porque o que tem a dizer não são coisas agradáveis? Porque eu acho que existe uma determinação de seguir aquele grupo dirigente a toda a força. Hoje são 95%, amanhã 96 ou 97%...

É muito por cento... Sim, mas sabe que esses por cento valem o que valem... Mas isso significa que não faz sentido abrir uma disputa. O que não quer dizer que eu esteja de acordo com tudo.

Com o que é que não concorda? Para começar, não percebi a razão desta antecipação do congresso. É um congresso do portismo, de reajuste das forças dirigentes do partido e porventura propício a alguns ajustes de contas. Para quem tem dirigido o partido sem afrontamentos, sem dificuldades, com o grupo parlamentar disponível para executar a orientação definida, sem confrontos por parte de distritais ou da Juventude Centrista, sem tentativas de sabotagem interna...

Ou seja, tudo o que o senhor não teve... Exactamente... Não se percebe esta opção. Um congresso mais próximo das eleições até poderia ser mobilizador para o eleitorado.

Acha que um partido que reelegeu Paulo Portas com 95% estaria disponível para o ouvir no congresso? Não. É isso mesmo que estou a dizer. O CDS quer que esta direcção vá a eleições, o que não quer dizer que eu esteja de acordo com ela.

Que leitura faz das demissões de militantes anunciadas após as directas? É triste, sobretudo para quem fica. Acho que é uma questão grave e que deve ser tratada com seriedade. Se quiserem resolver os problemas, porque se não quiserem, mais coisas destas poderão acontecer.

Recandidatura à liderança: “Essas coisas não se prevêem. Não tinha tido nunca essa ambição e não sei se a voltarei a ter”

Recandidatura à liderança: “Essas coisas não se prevêem. Não tinha tido nunca essa ambição e não sei se a voltarei a ter”

Que problemas são esses? Um tem a ver com a falta de institucionalidade do partido, ou seja, a questão das regras e do seu funcionamento. Quem está no CDS sabe que isto é um problema, por isso é que eu falo em regras manhosas. Por outro lado, há a questão da possibilidade de participação na vida do partido com autonomia, com propostas alternativas e isso poder ser bem recebido e bem visto. É importante que as pessoas possam livremente exprimir o que sentem. E, seja a nível local ou distrital, poderem concorrer livremente a eleições internas sem regras distorcidas. Como importa pôr termo à manipulação da jurisdição interna. E há esta questão da eleição de delegados ao congresso em listas uninominais, que não faz sentido e toda a gente sabe que é um sistema manipulado e pouco saudável. Estes problemas não são exclusivos do CDS, mas as direcções têm que compreender e combater. Isso só é combatido com um espírito de debate de ideias e não de obsessão pelo poder. Se o que preside à decisão sobre as regras é a obsessão pelo poder, o sistema vai funcionar mal.

Luís Nobre Guedes, que foi o braço-direito de Portas, ficou fora do congresso depois de ter criticado a estratégia do líder. Diria que ele provou do seu próprio veneno? Ele provou uma medicina que está errada. Não são claras as razões por que ele se demitiu da direcção e isso foi escondido. O presidente do partido disse no Conselho Nacional que tinha sido uma questão de cansaço e não havia razões políticas, mas Nobre Guedes disse na entrevista ao Expresso que saiu por divergências políticas. Há aí uma obscuridade que não é boa.

Nobre Guedes disse que é urgente a reconciliação no CDS e falava do seu nome. Se Paulo Portas fizer um gesto nesse sentido, está disponível para essa reconciliação? Por exemplo, se fosse convidado para ser candidato nas legislativas? A reconciliação é sobretudo uma questão pessoal. E normalmente é quem abriu conflitos que a tem que fazer. Eu não sinto nenhuma necessidade de reconciliação, estou muito bem.

Viu algum gesto de aproximação por parte da direcção? Não. Pelo contrário, tenho tido gestos de hostilidade, indirectamente, atingido severamente pessoas que foram meus colaboradores, atingindo-os de uma maneira particularmente soez e desleal.

O que fará se for convidado a ser candidato em lugar elegível nas legislativas? Eu sou deputado do partido [no Parlamento Europeu].

Registo que não recusou a hipótese de ser candidato às legislativas. Portanto, se esse convite chegar logo vê, é isso? Não vou especular sobre isso, porque isso está longe da realidade.

"Portas serve os interesses estratégicos de Sócrates"

Versão integral do entrevista publicada na edição do Expresso de 27 de Dezembro de 2008, 1.º Caderno, página 8.