Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

"Não me interessa coligação com o PS"

Entrevistado pelo Expresso logo após a declaração de candidatura à liderança do CDS, Paulo Portas diz que quer disputar o espaço do PSD e até cita Sá Carneiro. Garante que não quer um partido equidistante, que sabe bem qual é a sua área política, mas não quer perder tempo com querelas ideológicas.

A sua declaração teve directos em todos os telejornais e nas rádios. Foi a sua primeira vitória sobre Ribeiro e Castro?
Não. Eu certamente não sou o melhor juiz do interesse que exista pelas minhas palavras, mas sou bom observador e noto que há obviamente um défice de oposição, e havendo défice de oposição, a possibilidade de irmos para melhor nessa matéria suscita interesse.

Que Paulo Portas é este com quem estou a falar? Já não é o Paulinho das Feiras, já não é o estadista, que personagem nova que criou para 2007?
Eu já tenho uma visão muito «cool» desse facto. Eu tenho qualidades e defeitos, como é normal, e ao longo da vida as pessoas que não tinham qualquer simpatia, ou que tinham antipatia por mim, iam inventando uma teoria sobre o que é que eu sou em cada momento. Agora dizem que há uma nova personagem, não sei muito bem qual, quando o que há é uma pessoa que passou pelo Governo, que aprendeu bastante com todo o trabalho que desenvolveu no Governo, que tem uma visão bastante coerente do partido, coincidente com aquela que eu tentei levar ao eleitorado na última campanha eleitoral (um partido moderado, credível, com quadros, que possa oferecer qualidade e confiabilidade). Obviamente só não evolui quem é pouco inteligente.

Aquilo a que os outros chamam personagens diferentes, na sua opinião é só uma evolução? O Paulinho das Feiras que se torna um estadista, o eurocéptico que se torna eurocalmo…
É uma evolução… Houve uma rectificação do ponto de vista doutrinário que eu fiz com coerência, ao fazer o partido aceitar a moeda única em 1998. Tudo o mais, eu acho que as discussões sobre adereços podem ser interessantes mas são acessórias. A questão é muito mais funda. Sócrates é considerado um primeiro-ministro imbatível e muitas vezes beneficia de uma certa indulgência. Não era certamente este o melhor momento para tomar riscos, e eu decidi tomá-los. É porque acredito que posso trazer à oposição força, e ao centro-direita mudança.

Há dois anos demitiu-se assumindo a responsabilidade pelo resultado do CDS e por não ter alcançado nenhuma das quatro metas que fixou. Ninguém lhe pediu que se demitisse…
Há uma coisa de que eu tenho a certeza: os eleitores não respeitam a total ausência de verdade quando se vai a votos e não se sabe reconhecer os resultados.

A verdade é que saiu quando quis e volta agora porque quer. Acha que o eleitorado entende este entra-e-sai conforme as conveniências?
O que o eleitorado certamente respeita é que uma pessoa só obedeça à sua consciência. Suponho que era Sá Carneiro que dizia que a nossa independência é a independência de estar com liberdade e sair livremente. Eu não dependo da política, acho que fiz o que devia fazer em 2005, senti que não tinha atingido os objectivos e que isso merecia que eu tirasse daí consequências. Sinto hoje que é preciso dar força à oposição, fazer uma oposição inteligente a José Sócrates, inovar, modificar, modernizar as forças do centro-direita, e acho que posso dar um contributo. Voltei a agir de acordo com a minha consciência.

Disse há um ano que interviria “se houvesse risco para o CDS”. Que risco corre o CDS?
O risco de uma coisa que eu acho que toda a gente nota: desinteresse no eleitorado, divisão nos dirigentes. Por isso é que eu não vou analisar responsabilidades, respeito o trabalho de quem esteve nesta direcção, mas acho que o eleitorado pede e os militantes sentem que é preciso virar a página.

Há dois anos reconheceu que a responsabilidade do mau resultado era só sua, porque o partido lhe tinha dado todas as condições de que precisava. Não acha que também Ribeiro e Castro devia ter condições de tranquilidade interna para trabalhar e poder ir a votos nas legislativas?
Se as coisas estivessem bem, não era preciso eu fazer nenhum gesto. Nestes dois anos a minha atitude caracterizou-se por ser amigo do partido e não o abandonar. Manter reserva, porque qualquer excesso de intervenção era motivo de comparação ou de análise face ao líder em funções.

Foi por isso que teve tão poucas intervenções no Parlamento, só três ou quatro?
Aceitei colaborar no que me pediram, na exacta medida em que me pediram. A minha intervenção foi sempre pacificadora. Mas acho que tenho um dever: não vejo as coisas bem, não vejo que melhorem, portanto devo fazer alguma coisa para virar esta página. Sobre o Parlamento: os antigos presidente de partido, quando ficam nas bancadas parlamentares, normalmente recuam, não ficam na primeira fila, e têm uma intervenção pública deliberadamente contida, porque há novas lideranças em funções, que precisam de espaço.

Mas reconhece que Ribeiro e Castro tem sido cozido em lume brando? Há uma parte do partido que não aceita que ele tenha sido eleito…
Eu não vou falar no passado. Trabalhei com Ribeiro e Castro durante sete anos, tenho uma boa relação com ele, conheço-o, respeito-o, ninguém nega o esforço que ele fez, que é muito grande, ninguém nega que há coisas no partido que melhoraram…

O quê?
Sobretudo no sistema de comunicação interna, na informação que é prestada ao partido, às suas estruturas, ou o maior dinamismo do Conselho Económico e Social. Agora, os resultados, do ponto de vista da situação do partido na opinião pública, da credibilidade do partido no eleitorado, do sentido que o partido faz no século XXI, esses, visivelmente, não estão bem.

Refere-se aos indicadores de popularidade? Segundo o barómetro do Expresso, nestes 22 meses, Castro tem um saldo de popularidade melhor que o seu no mesmo período.
Isto não é um concurso de popularidade. Os indicadores são a observação política e social quotidiana. Acho que não vale a pena disputarmos muito isso: há um problema geral com a credibilidade da oposição de centro-direita, com a disponibilidade dos cidadãos para ouvir essas forças, no caso do CDS é muito perigoso estar abaixo do Bloco de Esquerda, porque isso significa ser a quinta força.

Sabe que o CDS é sempre penalizado nas sondagens.
Eu estou a falar de grandezas políticas. É muito perigoso o CDS ter indicadores de voto tão baixos longe da campanha eleitoral, porque a pressão da campanha normalmente não favorece o partido. É perigoso que as insuficiências de outros partidos não sejam aproveitadas pelo nosso. É perigoso que não consigamos dar o salto de quinta força para, pelo menos, quarta.

Porque é que acha que seria melhor líder?
Porque acho que posso trazer força à oposição, posso construir pacientemente, determinadamente, um partido de centro-direita respeitado, credível, francamente mais forte do que temos tido.

Disse na sua declaração que a oposição precisa de liderança. Isso significa que se candidata a líder da oposição e depois, também, a primeiro-ministro?
Não. Eu estou no princípio de um percurso. Aquilo que eu quero é construir um forte partido de centro-direita, que seja contemporâneo, que seja credível…

Mais de centro ou mais de direita?
Quando eu situo no espaço de centro-direita estou claramente a apontar para a moderação e sobretudo para uma coisa que eu acho que o eleitorado pede como pão para a boca: menos partidos retóricos, mais partidos de soluções, menos predicadores, mais resolvedores.

Como é que se conjuga esse partido sem complexos com o seu discurso de há dois anos, mais ideológico, ao ponto de ter proposto um choque de valores?
Se há uma coisa que foi reconhecida ao CDS enquanto foi governo foi o seu sentido de compromisso, a sua moderação nas práticas governativas e a credibilidade conquistada a pulso. Eu mantenho-me fiel a esse ponto de vista. Porque acho que o país tem toda a vantagem em ter três partidos de governo e em não ficar reduzido àquilo que se chama o centrão.

Mas isso implica que fasquia mínima? 15%?
Eu não vou propor metas nem vou estabelecer limites. Das várias lições que eu tirei da experiência governativa, uma delas é a necessidade de, numa coligação, para além de ter influência na política de certos ministérios e departamentos, conseguir ter influência na condução política geral, e isso significa ser maior.

Ou seja, o PSD não o volta a apanhar na curva, reduzindo o CDS a bengala que dá os votos que faltam no Parlamento?
Eu deixei claro que não tenho pressa de voltar ao Governo, nem voltarei a qualquer preço.

Diz que não terá “complexos em aprovar o que é bom para Portugal”. Isso significa que consigo o CDS pode ser parceiro de governos de qualquer cor, desde que tenham boas propostas?
Há duas coisas que o eleitorado não compreende. Primeiro: política sectária, ser contra uma proposta só porque não vem do meu partido mas do adversário. Segundo: falta de sentido de compromisso, porque não só há matérias de Estado que devem estar fora das armas de arremesso político, como há matérias em que eu posso estar – e estou – em oposição firmíssima ao Governo, e há outras num plano mais reformador que eu posso compreender melhor e até melhorar. Serei a oposição mais determinada; também terei sentido do país para saber que uma boa oposição não é a que está contra tudo.

Isso pode ser uma boa notícia para Sócrates, caso perca a maioria absoluta em 2009.
Ele neste momento tem maioria absoluta, e eu acho que, quando existe uma maioria absoluta o que o eleitorado quer saber não é apenas aquilo em que a oposição se opõe, é também aquilo que a oposição propõe. Esse trabalho tem que ser feito.

Mas mais ainda se não houver maioria absoluta.
Eu não tenho qualquer equidistância, sei muito bem qual é a metade do sistema político em que me encontro, e não tenho nenhuma pressa de fazer acordos políticos.

Mas pode ser um partido charneira, entre o PSD e o PS?
Não, não. Não. Não. Sei muito bem qual é o meu lado.

Não o veremos coligado com Sócrates, se ele não tiver maioria absoluta?
Não tenho nenhuma intenção dessas.

As intenções evoluem…
Eu estou no início de uma etapa, acho que fui claro quando disse que não tenho pressa de voltar ao poder. E não voltarei a qualquer preço. Terceiro: quero construir um partido de centro-direita que seja uma oferta verdadeiramente nova e consistente e isso leva tempo, leva anos.

O mais assertivo que pode ser sobre a hipótese de se coligar com o PS em 2009 é dizer que não está nas suas intenções?
Não estou interessado nela.