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Nacionalistas catalães precisam de refletir...

O presidente Artur Mas saiu enfraquecido das eleições que ele próprio convocou. Perdeu 12 deputados e fica nas mãos do independentismo mais radical.

Pedro Cordeiro,(www.expresso.pt)

Os dirigentes da coligação Convergência e União (CiU) pedem "tempo para refletir". É compreensível: a estratégia de antecipar as eleições autonómicas da Catalunha em dois anos (a data prevista era 2014) para obter uma maioria absoluta "excecional", nas palavras do presidente Artur Mas, fracassou por completo. O partido governante caiu de 62 para 50 deputados e reconhece que já não poderá governar sozinho, em maioria relativa, como fazia desde 2010.

Os cidadãos castigaram a política de austeridade da CiU, mais severa do que a do próprio governo espanhol do Partido Popular (direita). Há mais desemprego na Catalunha desde que Artur Mas é presidente e o nível de vida da generalidade da população piorou.

O homem que quis ser o messias de um "novo Estado da Europa" tropeçou na realidade dos votos contados, numa União Europeia que alertou para a impossibilidade de uma Catalunha separatista permanecer como Estado-membro (seria necessária nova candidatura e Espanha possuiria o direito de veto), e em alegações de corrupção surgidas na reta final da campanha, envolvendo o nome do próprio presidente e do seu antecessor, Jordi Pujol.

Há que notar que a derrota da CiU não é a derrota do nacionalismo nem do projeto de referendo de autodeterminação, como poderá julgar quem tenha lido, hoje, os jornais mais conservadores de Madrid. É que o número de deputados soberanistas pouco caiu (menos 2) e 87 dos 135 assentos no parlamento autonómico serão ocupados por homens e mulheres favoráveis a uma consulta popular para saber se os catalães querem ou não continuar a ser espanhóis.

Legalmente, tal consulta só pode ser convocada pelo Executivo central. Artur Mas prometeu fazê-la durante a legislatura que agora começa, com ou sem autorização de Madrid, o que deixa adivinhar imbróglios institucionais.

Nacionalismo é mais radical

Os 12 deputados perdidos pela CiU são compensados, no arco nacionalista, pelos 11 conquistados pela Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, independentista, que passa de 10 a 21 e se converte no segundo maior grupo parlamentar) e pela entrada da Candidatura de Unidade Popular (esquerda separatista antissistema), que pela primeira vez terá deputados (3). É caso para dizer que os cidadãos preferiram o nacionalismo claro e de toda a vida (a ERC sempre desejou a secessão) ao independentismo recente da CiU, que até agora se pautava por um "jogo da corda" com Madrid, um pouco ao estilo de Alberto João Jardim, mas mais polido.

Aos deputados nacionalistas soma-se, para efeitos de referendo, o partido ecologista/socialista/pós-comunista Iniciativa pela Catalunha-Verdes (ICV), que subiu de 10 para 13 deputados. A ICV não é nacionalista e a sua subida deve-se mais à campanha próxima do eleitor e à crítica da austeridade. Ainda assim, defende a consulta ao povo, argumentando com o "direito a decidir".

Artur Mas dificilmente governará sem o apoio da ERC, o que será complicado. Sendo certo que ambos apoiam o processo separatista, na política económica e social estão nos antípodas um do outro. O presidente catalão arrisca-se a ficar na mão de nacionalistas mais radicais, cujo líder, Oriol Junqueras, já disse que quaisquer acordos serão condicionados ao conteúdo programático. É provável que a ERC exija um relaxar da austeridade.

Desaire socialista

A votação de ontem pode ter cravado mais um prego no caixão da liderança de Alfredo Pérez Rubalcaba no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). O seu ramo catalão, PSC, caiu de 28 para 20 deputados e de segunda para terceira bancada parlamentar. O seu líder, Pere Navarro, defendeu a ideia de converter Espanha num Estado federal, para estancar o secessionismo, mas a ideia, algo ambígua e pouco explicada, não singrou.

Desde 2011 o PSOE perdeu não só o Governo central como os executivos autonómicos da Extremadura, Castela La Mancha, Aragão, Baleares e País Basco. De momento só detém o poder nas Astúrias e na Andaluzia, sempre graças a pactos com outras forças políticas.

No poder em Madrid, o PP não é um grande partido na Catalunha, mas manteve a sua representação (19 deputados). Não conseguiu capitalizar todo o voto anti-independentista, pois parte dele - descontente com o primeiro-ministro Mariano Rajoy, do PP - foi para o pequeno partido catalão Cidadãos, que passou de 3 para 9 deputados. O seu líder, Albert Rivera, foi o único a iniciar o seu discurso da noite eleitoral em espanhol. Todos os outros falaram catalão primeiro.

Outro desaire eleitoral foi o da pequena formação Solidariedade Catalã, até agora liderada pelo ex-presidente do Futebol Clube Barcelona, Joan Laporta. Este não se candidatou e os quatro deputados do partido passaram a zero.