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«Na raiz do conflito está o petróleo»

ÀS PERGUNTAS  sobre a crise recente, Mari Alkatiri diz que ainda «não chegou o momento para escrever as memórias».

Vai prestar declarações como arguido na próxima semana, pelo seu alegado envolvimento na entrega de armas à população e a alguns grupos organizados, entre eles o de Vicente da Conceição, o Railos?
Fui eu próprio que solicitei essa audiência o mais cedo possível para esclarecer todo o assunto, devido ao grande número de alegações existentes. Tão logo pude constituir a minha defesa, ela foi marcada. Toda a minha resposta vai ser baseada na lei e na verdade. Não tenho interesse em estar a comentar as alegações que têm sido feitas, que são tudo menos a verdade.

Mas o seu ex-ministro do Interior, Rogério Lobato, confessou que se encontrou com o grupo do Railós e que distribuiu armas...
Eu também recebi o Railós no dia 8 de Maio, mas noutro contexto completamente diferente.

Qual contexto?
Não tinha nada a ver com armas, mas com a organização do Congresso do Partido e com a actividade deles, antigos combatentes, apoiarem o Governo no sentido de diluir a contradição que estava já a esboçar-se entre os chamados Lorosae e Loromonu.

E como justifica a iniciativa do ex-ministro, para mais alto quadro da Fretilin?
Ele só foi eleito vice-presidente da Fretilin depois disso. Mas ele já fez os seus depoimentos junto do tribunal e eu não os vou comentar.

Mas o que estava a acontecer em Timor que justificava a distribuição de armas na Fretilin e a constituição de grupos armados?
Desafio quem quer que seja que prove que havia armas na Fretilin por todo o lado. Não havia, nem há. Isso é uma alegação que tem a conotação de difamação. A Fretilin nunca distribuiu armas nem nunca distribuirá. É uma tentativa de manchar a imagem do partido maioritário para fins eleitorais.

E como surgem esses grupos, nomeadamente o de Railós?
Esses grupos existem. As armas que lhes foram dadas são da Polícia. O ex-ministro já reconheceu que participou nessa distribuição com o fim, como ele próprio disse, de apoiar unidades de reserva da Polícia. Eu estou a fazer estas declarações com base nos depoimentos do ex-ministro Rogério Lobato.

A esta distância, acha que poderia ter agido de outra maneira em relação aos peticionários?
Se não tivesse havido outras instituições, outros órgãos de soberania a envolver-se em primeiro plano nesta questão, se desde o início ela tivesse sido entregue ao Governo para ser resolvida, eu tenho a certeza que sim.

Está a referir-se ao Presidente da República?
A história dirá.

Acha que desde o princípio houve algum aproveitamento?
Este é um país jovem onde as instituições de Estado às vezes extravasam as suas competências, muitas vezes com a melhor das intenções de resolver problemas. Eu não estou a dizer que as pessoas o fazem com a intenção de complicar, mas sim de resolver. E até às vezes com a intenção de se solidarizar com outros órgãos, mas a verdade é que as boas intenções nem sempre dão bons resultados.

Durante toda a crise, o senhor sempre disse que estava em curso um golpe constitucional contra o seu governo. Pensa que hoje está consumado esse golpe?
Está em marcha.

Ainda está em marcha?
Digo que está em marcha porque ainda há a exigência da dissolução do Parlamento e de realizar eleições antecipadas, exigências essas que vêm dos mesmos autores das manifestações.

Como é que fundamenta a existência deste golpe?
Ainda não é tempo para eu escrever as minhas memórias.

Considera que o Presidente Xanana foi subjectiva ou objectivamente mentor desse golpe?
Não comento sobre isso.

Nem terá sido aproveitado?
Não comento.

Então interpreta o facto de, desde a primeira hora, aqueles que reclamavam a sua substituição de armas na mão, nomeadamente o major Reinado, se terem colocado à disposição do Presidente Xanana?
Melhor do que eu deverá ser eles a justificar isso. E talvez o próprio Presidente Xanana.

Mas, a si, não lhe merece uma reflexão?
Estou a reflectir, mas volto a dizer que ainda não é o momento para escrever sobre as minhas memórias.

Durante a crise, alguma vez se sentiu em risco de vida?
Sim. Mesmo agora sinto que a minha vida está a ser defendida por protecção australiana. Naturalmente que o risco vai diminuindo mas não me sinto ainda completamente livre num país que eu gostaria que fosse democrático e um Estado de direito.

Quem faz a sua escolta?
Eu tenho uma parte da escolta que é timorense e que restou da escolta inicial (eram 14, agora são 6), que continuam comigo, e tenho a escolta australiana.

Sabemos as razões oficiais pelas quais se demitiu, nomeadamente para evitar uma eventual resignação do presidente da República, contribuir para a paz e tranquilidade, assumir a sua parte de responsabilidade na crise. Mas sentiu-se forçado a demitir-se porque as manobras políticas dos seus adversários tiveram êxito? Sentiu-se derrotado?
Eu estou convencido de que, com a posse do novo Governo amanhã, poderá chegar à conclusão de que os próprios adversários se sentem frustrados, o que significa que não tiveram sucesso.

Liga esses adversários ao golpe que está em marcha, que ainda não foi totalmente consumado?
Uns adversários são os autores reais e activos deste golpe que está em marcha, e outros assistiam ao andamento do processo sempre na esperança de que fosse 100% bem sucedido.

Mas sentiu que perdeu essa «guerra»?
Perder uma batalha não significa perder a guerra. Mas eu não considero isto uma guerra. O mais importante é conseguir aquilo que se conseguiu: voltar ao clima de esperança, paz e estabilidade. Isto foi o mais importante para abrir uma nova página na nossa história.

E foram essas mesmas razões também que o levaram a desmobilizar os militantes da Fretilin que queriam entrar em Díli para o apoiar?
Foi uma contribuição que achei que devia dar para não piorar ainda mais a situação. Todos os dias passo ao lado de alguns campos de deslocados e vejo crianças, velhos e mulheres, cidadãos inocentes sofrendo, e acho que já é tempo de nós, como responsáveis, contribuirmos para fazer com que essas pessoas também ganhem esperança e confiança e voltem a suas casas.

A tomada de posse do novo primeiro-ministro Ramos-Horta abre um novo ciclo político em Timor?
Ainda não é possível falar de um novo ciclo com um Governo que só vai durar nove meses. Espero que seja uma gravidez bem sucedida e que o parto não seja tão doloroso.

Pensa que vai mudar alguma coisa nos objectivos estratégicos da política timorense?
O Governo vai implementar e executar o plano anual de acção e o orçamento que já tinham sido aprovados pelo Governo por mim chefiado.

No seu discurso de tomada de posse, Ramos-Horta apela a que a Igreja reassuma o seu papel na educação, considerando que a sociedade timorense rejeita a interpretação de modelos seculares. Não é um sinal de mudança em relação à sua política relativamente à Igreja?
Se tivesse havido alguma vez alguma tendência para retirar à Igreja o seu papel, poder-se-ia pensar que existe uma mudança. Agora, quando se tenta atribuir ao Governo por mim chefiado alguma intenção de reduzir o papel da Igreja, isso eu recuso-me a aceitar. A Igreja nunca deixou de trabalhar na área da educação, na saúde, na área social e também religiosa, atravessou as mesmas dificuldades que o povo, em termos económicos, financeiros e institucionais. A Igreja é parte da sociedade. Agora, estamos em melhores condições de podermos, todos nós, encontrar plataformas de acção mais sólidas, e isso está no plano de acção do Governo por mim chefiado para o ano de 2006/2007, onde eu defini claramente a necessidade de novas parcerias. Portanto, não é nada de novo.

Acha que é um «mal-amado» da Igreja Católica?
Eu sou mal-amado por muitos, ou porque não sou entendido, ou porque, realmente, não sou um técnico de relações públicas, reconheço-o. Sou uma pessoa fria, alguns chamam-me sisudo. São os meus defeitos, mas eu desafio quem quer que seja que me diga que, durante estes quatro anos, não dei contribuições positivas para este Governo. Recebi a governação de um país com défice orçamental. Deixo-o com um «superavit» bastante grande.

Mas, todavia, mergulhado ainda em grandes problemas internos...
Talvez por causa disso mesmo. Se continuasse um país com défice orçamental, se calhar, ninguém ambicionaria vir para o poder.

A raiz deste conflito tem a ver com a riqueza que se supõe haver, nomeadamente com o petróleo?
Não tenho dúvidas. Eu vejo até grandes analistas, que trabalham com dados que não são correctos quando dizem que eu me aproximei da China, que havia um acordo com a China sobre a área do petróleo. A China não tem uma única concessão neste país na área do petróleo. Primeiro, porque nunca participou nos concursos públicos, segundo, porque não há nenhum acordo com a China nessa área. O único acordo que se fez foi de pesquisa geológica, não de exploração.

Mas porque fala da China?
Porque todos dizem que a Austrália não veria com bons olhos o facto de eu estar a aproximar-me da China na área do desenvolvimento no sector do petróleo. Há realmente um país que nos apoiou e continua a fazê-lo, mas desinteressadamente, no sector do petróleo. Mas é a Noruega, não a China.

Há muita gente que faz a ligação destes acontecimentos a um interesse australiano de o afastar a si para melhor controlar ou conformar Timor às suas pretensões. Com Xanana ou com Ramos-Horta, será diferente?
Não sei. Eu como primeiro-ministro, procurei defender até às últimas consequências os interesses do meu povo. Liderei as negociações sobre as riquezas e os recursos do mar de Timor-Leste, que ninguém pode negar que foram negociações bem sucedidas para o meu país, e estou orgulhoso disso. Consegui fazer de Timor-Leste, tido como inviável, um país que todos sabem que é absolutamente viável, um Estado sustentável, e isto em apenas quatro anos de governação. Tenho a certeza que Timor-Leste iria arrancar, a partir do último ano do meu mandato, 2006/2007, para a fase real de desenvolvimento humano e económico, porque já há condições para o fazer. E mais ainda: no caso de vitória da Fretilin em 2007, o próximo mandato será para pôr este país num patamar ainda mais elevado. O plano era esse.

Então como encara então as declarações do primeiro-ministro australiano, John Howard, de que Timor não é um Estado viável?
Prefiro não comentar, até porque John Howard também está a enfrentar problemas no seu país. Eu não quero repetir aquilo que ele fez, dizer que eu deveria realmente demitir-me.

Pensa que a Austrália pretende fazer de Timor um protectorado?
Nunca acusei o Governo australiano de nada, nem pretendo fazê-lo. Agora, ninguém pode negar que, nos últimos dois ou três meses, toda a comunicação social australiana se esforçou por me demonizar. Parecia tudo concertado, parecia haver uma política bem definida e planificada com o objectivo único de me demonizar. É só fazer a leitura daquilo que saiu até hoje.

Fazendo essa leitura, acha que existe algum tipo de influência da Austrália sobre o Presidente Xanana ou sobre o agora primeiro-ministro Ramos-Horta?
A exigência da minha demissão por parte do Presidente Xanana teve como base um programa da televisão australiana.

Portanto, acha que a Austrália tem, na verdade, uma grande influência sobre o Presidente Xanana...
Eu só estou a apresentar os factos.

E é também um mero facto ter sido a esposa (australiana) do Presidente Xanana a tomar posição pública sobre o que devia fazer o Presidente?
Isso é uma inovação nossa, as esposas dos titulares de órgãos de soberania terem opinião (sobre aquilo que eles deveriam fazer.

Quando a crise começou, quem autorizou os australianos a entrar no país? Quer dizer, eles já estavam embarcados ao largo de Timor antes de haver essa autorização...
Quando a crise interna começou a agudizar-se, havendo já combates entre elementos da Polícia Nacional e das Forças Armadas, a única hipótese era, realmente, ter uma força ou forças estrangeiras a ajudar a estabilizar o país. E isso foi iniciativa minha, como primeiro-ministro, de propor ao Presidente da República, com a participação do Presidente do Parlamento Nacional, que solicitássemos a intervenção de quatro países, que são os mesmos países que ainda cá estão.

Mas tinha conhecimento de que havia tropas australianas que já estavam embarcadas?
Naturalmente, um mês ou dois meses antes.

Não é estranho?
A Austrália estava a acompanhar o desenvolvimento da situação em Timor-Leste, achava que era o país mais próximo, que poderia, a todo o momento, intervir no sentido de apaziguar. E sempre disse, naquela altura, que só interviria a pedido do governo de Timor-Leste. De facto, a intervenção mesmo foi feita depois do pedido, mas claro que é sempre muito estranho quando, antes do pedido do Governo, estejam forças preparadas para intervir à volta de outro país. Mas talvez isso seja também parte da experiência da Austrália. Aconteceu em 1999 também, quando a Austrália estava preparada três meses antes para poder intervir em tempo oportuno para parar as matanças e a violência em Timor.

Este novo Governo pode ter uma política com repercussões nas relações com Portugal e na participação timorense na CPLP? A posição do português como língua oficial em Timor pode estar em risco?
Este Governo terá nove meses de vida. Não é em nove meses que se fazem mudanças estruturais em qualquer país, portanto não creio que isso seja possível em termos práticos. Também não creio que as pessoas que estão no Governo, incluindo o Presidente da República, sejam antiportuguesas. Naturalmente que, quando se quer avançar com um projecto de reintrodução da língua portuguesa, de generalização do seu uso, de afirmação de uma língua oficial, não chega dizermos que somos favoráveis; é preciso ter a coragem de enfrentar todos os obstáculos e de, a cada momento, afirmarmos isso mesmo.

Está a preparar o seu regresso ou a preparar-se para as próximas eleições?
Já o disse, a minha função agora é reforçar o partido, reorganizá-lo e prepará-lo para 2007.

Vai candidatar-se de novo?
Nunca me candidatei, portanto não tenho de me recandidatar. O mais importante é o partido voltar a ganhar, e o partido depois decidirá como governar. Alguém já levantou a hipótese de eu vir a candidatar-me à Presidência da República. Posso dizer: «tirem o cavalo da chuva», porque eu não serei nunca candidato a Presidente.