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Na estrada com os Blind Zero

A banda do Porto celebrou treze anos com o lançamento do 'best of' "Time Machine (memories undone)" e um programa inédito: treze concertos em cima de um camião, num só dia, com partida do Porto, passagem por Coimbra e chegada a Lisboa. O Expresso acompanhou a mais rápida digressão nacional.

Um aniversário de treze anos é coisa estranha de se comemorar. As regras são claras. O que se celebra são números redondos. Tipo 5, 10 anos… 15, se estivermos a falar de bandas rock portuguesas, já é mais difícil. São poucas as que lá chegam. "Nada disso!", dizem os Blind Zero. O que está a dar é festejar os treze. "É rock!", diz Vasco Espinheira (guitarra acústica e eléctrica), um bocado a puxar ao "espírito sexta-feira 13".

A ideia desta iniciativa foi precisamente de Vasco. Decidiram pôr-se ares de banda internacional, assim a lembrar os U2 ou os Beatles em cima do terraço de um edifício, com o céu como cenário, ou uma Banda Eva ou Netinho em desfile de trio eléctrico pelas ruas, a abrir caminho pela multidão ao som de muita música e dança.

Os Blind Zero alugaram um camião potente, armadilhado com um tejadilho que se transforma em palco, e lançaram-se na celebração invulgar: treze concertos num só dia, alguns estacionados, outros em movimento.

É muito "pouco rock" um concerto às 8 horas da manhã. A cidade ainda nem despertara. O camião tem um ar imponente, com a cabine negra, como a cabeça feroz de um animal selvagem, estacionado à porta da Universidade Católica, no Porto, do lado oposto a uma estação de serviço.

Os músicos estão a postos no topo daquele monstro sobre rodas, que mede dezoito metros de comprimento por quatro de largura, com 120 mil watts de som. Lá em cima, há um tapete vermelho que delimita a zona que podemos considerar palco, por onde estão os instrumentos e os microfones alinhados e o emaranhado de fios eléctricos.

No caso dos espectáculos de trio eléctrico, o tejadilho pode expandir-se, como uma daquelas mesas de sala que se abrem no meio para alargar a sua superfície. Se eles quisessem, se a música que fazem servisse para o corpo ondular eufórico – como no caso das bandas brasileiras que fazem corso musical – podiam ter uma área de palco maior. Mas não é este o caso. É de música rock que se trata. Ambientes sonoros que nos fazem viajar por tormentos da alma, paisagens mais luminosas ou mais negras. Ou, nas palavras de Miguel Guedes (vocalista), algures entre "Cristo e Freud". Ou, numa explicação mais desenvolvida, "o amor, a depressão, o ódio, o sentimento de culpa, a redenção, a expiação dos pecados".

Os temas que habitam o imaginário dos Blind Zero estão desde logo presentes na música que abriu a digressão, "Tree", canção de 1997, do álbum "Redcoast". Este é o tema escolhido como single do CD que agora editam, "Time Machine (memories undone)", um 'best of' que revisita algumas das canções mais emblemáticas dos grupo, de 1995 a 2005, escolhidas de entre os concertos da digressão acústica "Confidências", que aconteceu entre Março e Setembro de 2006.

Miguel Guedes canta: "It's too late to say goodbye/ now I'm drowning in your eyes/ I'm drowning/ back to you". É uma primeira declaração de amor, sofrido, para uma cidade que ainda acorda. Ali, pela manhãzinha, tocam para os transeuntes apanhados desprevenidos, para os automobilistas, para os estudantes a caminho das aulas, para as televisões e rádios que se acotovelam para entrar em directo nos primeiros noticiários da manhã. Enquanto Miguel Guedes fala para a SIC, passa o autocarro 204 para a Foz, logo seguido de um que vai para o Bolhão. É a cidade que desperta para um dia diferente. Fãs propriamente ditos, que ali se tenham deslocado de propósito, ainda se vêem poucos. Mas a grande aposta já estava ganha: surpreender.

O historial da banda é composto por estas celebrações invulgares. Há sete anos decidiram fazer uma grande festa, uma semana antes da data, sem concerto. E foi isso mesmo que divulgaram na comunicação social. Aniversário dos Blind Zero, venham festejar connosco, sem concerto, mas com bolo. E foi o que bastou para encher o que dizem ser "o bar mítico do Porto", O Meu Mercedes É Maior Que o Teu, onde tinham tocado pela primeira vez. Antes disso, no terceiro aniversário, já tinham experimentado a aventura de tocar em cima de um camião. Só que aquele era pequenino. Não havia o aparato que há desta vez, como lembra Vasco. "Fomos para Santa Catarina fazer um concerto à tarde, para as pessoas que gostavam de nós. Parámos o trânsito e passaram por ali mais de mil pessoas. E os polícias desesperados, sem saber o que fazer." Isso era o rock de antigamente. Sem autorizações.

Agora, pedem licença às câmaras, a polícia está avisada, e nos casos em que não conseguiram permissão não tocaram. Essa foi a parte mais dura, nisso os irmãos Espinheira estão de acordo. Para além das autorizações que não tiveram, em alguns sítios não puderam tocar porque o camião era demasiado grande e não passava. O destaque, no entanto, vai para o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Lisboa, que os apoiou desde o início. "Pode ser pouco rock" – diz Nuxo Espinheira (baixo, contrabaixo, guitarra acústica e voz) – "mas nós gostamos porque Portugal precisa de legalidade".

O bom comportamento é uma coisa mais recente. Afinal, a banda já está entradota. Sempre respeitaram a máxima de que "a nossa liberdade nunca pode colidir com a liberdade dos outros", diz Vasco, mas eram meninos para, nos hotéis onde ficavam, "tentar entrar na piscina à noite ou tentar meter o maior número de pessoas lá dentro para fazer uma festa".

Às 8h30, o camião estava na estrada. Por entre um típico trânsito de pára e arranca matinal, a banda continuou a tocar em movimento. Subiam a Avenida da Boavista, em direcção à Casa da Música. Era ver as caras, estremunhadas mas sorridentes, que vinham espreitar às janelas, por detrás das cortinas brancas de renda, ou os rostos ensonados que se esgueiravam para fora das portas, a deixar ver um roupão de um corpo arrancado da cama há pouco tempo. Era ver o ar de espanto, mas a boa disposição com que recebiam a barulheira.

O Carnaval já passou. Mas ninguém levou a mal. Não é corso, nem desfile de trio eléctrico, não há bailarinas semi-nuas a abanar a anca. São os Blind Zero, com guitarras eléctricas, bateria, piano, baixo… e a cantar em inglês. Era impossível continuar a dormir naquela zona do Porto. E se ainda houvesse resistentes, Miguel Guedes aproveitava o microfone para, entre duas músicas, com o camião parado no trânsito, animar a malta. Neste caso, moradores e transeuntes: "Zona nobre, toca a acordar!"

Logo a seguir, é vê-los a interromper o espectáculo, enquanto o camião rola lentamente por entre o trânsito. Músicos e técnicos têm de se agachar. Põe-se de joelhos. Os microfones são deitados no chão. Polícia à vista? É a questão que se coloca para quem os vê de fora. Mas não. Está tudo legal. São os postes dos semáforos que são muito baixos e ameaçam derrubar pessoas e material em circulação na estrada. Mas se passam à primeira, entalam-se à segunda. Literalmente. Há um poste que encrava num dos ferros laterais do cimo do veículo, que protege os músicos e instrumentos de cair borda fora. Por alguns instantes o camião não passa. Mais tarde, já em Lisboa, nos Restauradores, Nuxo diria que um dos momentos que não esquecerá é precisamente este: "Subir a Avenida da Boavista e ter de baixar os tripés dos microfones para podermos cruzar um semáforo que estava a passar pelo meio de nós."

Juliana (de 28 anos), Ivone (24) e Joana (20) foram três fãs que acompanharam a digressão desde o início. Às 8 já lá estavam, frente à Universidade Católica. Às 8h30, quando o camião arrancou, desataram a correr atrás dele. Havia um autocarro de 51 lugares preparado para transportar os fãs, juntamente com os músicos, entre um concerto e outro. Mas fãs e autocarro andaram desencontrados ao início e elas começaram o dia a fazer ginástica. Para não perder a comitiva.

As três são amigas, mas conheceram-se primeiro através dos Blind Zero, nos fóruns da Internet. Juliana é a responsável pelo site do grupo. Há mais de dez anos que os segue. Dizem que gostam da música, mas o que as liga à banda é o facto de serem «simpáticos e acessíveis». É isso mesmo que destaca Ivone: "Para além da música, eles são espectaculares, preocupam-se em perceber o que as fãs gostam, conversam connosco". Uma proximidade que as faz destacar os irmãos Espinheira, por serem os mais conversadores, "os mais dados".

Um pouco mais à frente, quando circula na rotunda da Boavista, o camião cruza o Mercado do Bom Sucesso. Essa é uma das imagens que Miguel Guedes guardará na memória, como dirá mais tarde: "as vendedeiras a saírem à rua e a começarem a dançar ao som da nossa música".

O camião parava, a seguir, em frente à Casa da Música. Eram 9h20. "Tree" já repetia pela terceira vez. Havia dois rapazes, vestidos de sapo, de um verde fluorescente da cabeça aos pés, que eram tão requisitados para as fotografias como os músicos. Um patrocínio que rivalizava nas atenções com a banda e que os ia acompanhar até Lisboa. Por ali, o público ia-se concentrando entre as pessoas que estacavam o passo, curiosas por ver o concerto inesperado, que se lhes atravessava no caminho.

As opiniões eram positivas. Fernanda, de 63 anos, estava contente. Tem um café por detrás da Casa da Música e tinha saído para fazer compras. Ouviu a música e decidiu ficar a ver. Não a incomoda as guitarras, nem a bateria, nem a língua estrangeira. "Não faz mal ser em inglês. O que interessa é a música. É muito bom acontecer assim, de surpresa, no meio da cidade. Veja que há mais gente aqui à volta. Eu ia a andar com pressa, mas parei um bocadinho para ver."

Ao lado, Rita Andrade, da SIC Radical, entrevistava um homem, particularmente animado, que lhe perguntava se ela era brasileira e dizia que também cantava. O microfone da televisão deu-lhe gás e ele inventava uns novos Beatles, num tom desengonçado e com a memória um pouco turva quanto aos versos. Alguém passava e comentava: "É uma personagem do Porto, o Porto tem muitas personagens".

Ali, frente à Casa da Música, mais um grupo de senhoras, que também ia a passar, com uma média de idade nos 40 anos, estacou o passo. Não conheciam a banda, mas isso pouco importava. "Hoje é Dia da Mulher. Merecemos tudo!" Diziam a rir. Rosa Santos, Adelaide Sousa e Conceição estavam de acordo. «Devia haver mais iniciativas destas, mesmo para pessoas com mais idade, para podermos ficar a conhecer estas bandas. Isto é novidade para nós. Nunca vimos nada assim. Não é do nosso tempo. Havia de haver mais iniciativas destas, como fazem os brasileiros, como houve no Dragão. Havia de haver por toda a cidade.» Ficaram com pena de não poder acompanhar. Mas tinham de ir trabalhar.

Passavam poucos minutos das 9h30 quando a comitiva abandonou a Casa da Musica, para o camião recolher o palco e se preparar para entrar na auto-estrada, em direcção a Coimbra. A caravana, para além do camião, incluía quatro carrinhas (que transportavam jornalistas e produção), mais uma de material, e um autocarro onde seguiam os fãs, os músicos (nos trajectos em que não iam a tocar) e mais pessoal da produção. Para além dos elementos da banda – Miguel Guedes, Miguel Ferreira, Nuxo Espinheira, Pedro Vidal, Vasco Espinheira e Pedro Guedes – a equipa, que incluía os técnicos, somava 26 pessoas.

Por volta das 11h, a caravana parava na estação de serviço de Antuã. Dez minutos para comer ou beber qualquer coisa. O camião ficava para trás, retido pela polícia, para averiguar se a documentação estava em ordem. Pouco depois estava na estrada. A banda não tinha descanso, nem mesmo quando estava no autocarro. Ou eram as conversas com as fãs, ou eram as entrevistas que não paravam. Havia quase tantas máquinas de filmar e de fotografar quantas as pessoas presentes. Fosse para mais tarde recordar, para a rádio, para a televisão, ou para a Internet…

Às 13 horas, o camião está parado em plena Praça da República, em Coimbra. O dia aqueceu, o sol brilha intenso. A princípio há pouca gente por ali, tirando os que estão sentados na esplanada. Miguel Guedes sente-se em casa. Foi naquela cidade que tirou o curso de Direito. Enquanto os técnicos montam o palco no camião, aproveita para matar saudades e beber um café na Associação Académica.

"Time Machine (memories undone)", o disco que agora editam, faz uma viagem a essas memórias também, ao recuperar, mas reinterpretados, alguns dos singles mais emblemáticos da carreira da banda. Do primeiro álbum, "Trigger" (de 1995), há quatro temas: "Recognize", "Woman", "Big Brother" e "No Soul". Nessa altura, Miguel teria 23 anos. Lembra-o como um "álbum de juventude", que tem como aspectos positivos "uma naturalidade e espontaneidade incríveis", mas no qual já não se revê musicalmente. Diz que rejeita o facto de ser um disco mais simples. "Não gosto da simplificação porque dizer algo bonito ou terrível de uma forma simples requer um enorme sentimento de dádiva ou de entrega, que não tenho, porque me considero uma pessoa mais para dentro do que para fora. O primeiro disco é um disco muito directo e urgente que nem sempre diz as coisas da melhor maneira."

Hoje, Miguel tem 34 anos. "Há diferenças mas as bases mantêm-se. Continuo a achar que faz sentido fazer. No dia em que me sentir a fazer teatro, se calhar vou para um palco, mas não vou estar a cantar."

Miguel Guedes tornou-se um rosto conhecido não apenas por ser o vocalista dos Blind Zero. O país habituou-se a ouvi-lo pronunciar-se sobre os assuntos mais diversos. Seja como comentador de futebol – "a coisa mais irracional da minha vida, adoro o futebol, adoro o Porto" – seja como mandatário para a juventude de Francisco Louça, do Bloco de Esquerda, nas últimas presidenciais, ou seja ainda como director da GDA (Cooperativa de Gestão dos Direitos dos Artistas Independentes ou Executantes), com sede no Porto. Ele brinca quando queremos saber o que mudou com a idade. "O Palma tem essa frase, 'diz-me quem és tu agora?' Eu sou isto: uma pessoa que não consegue fazer apenas uma coisa, correndo o risco de não fazer nada bem. Sou um pouco claustrofóbico em relação ao unidimensionalismo que, às vezes, a vida toma, e ao carreirismo, à visão única e à especialização. Caramba, nós temos uma média de vida de setenta e tal anos, vamos especializar-nos em quê?"

Num desses dias em que as presidenciais se discutiam, em que participou no programa "Expresso da Meia-Noite", da SIC Notícias, colocaram-lhe a pergunta se não arrisca perder fãs ao partilhar opiniões sobre assuntos tão fracturantes, como o futebol ou a política. A resposta continua a ser a mesma. "Não tenho medo de perder fãs pelo facto de tomar uma posição porque não tenho os meus amigos, os meus conhecidos, as pessoas que nos têm deixado entrar na vida delas, em tão baixa estima." É simples. 
Quando se ouvem as primeiras notas - "Tree" pela quinta vez! – as pessoas começam a concentrar-se. No palco, lá em cima, para além da banda, contam-se cinco câmaras de televisão, dois jornalistas com microfones em punho e dois fotógrafos.

Na Praça da República dão o maior concerto do dia. Tocam quatro temas, com a banda aquecida e entusiasmada. "Drive", uma versão dos Cars, e "Shine On" (tema do álbum "The Night Before and a New Day" de 2005) são duas das canções mais tocadas. Para além de "Tree", claro. Por ali vêem-se estudantes de capa e batina, que se misturam na multidão. Mas são poucos. É dia de praxe, explica Paula, de 19 anos, estudante de Medicina.

Paula não sabia que eles iam passar por ali, foi surpreendida quando desceu para almoçar. "Acho muito bom, mais ainda numa cidade de estudantes, porque nós aderimos sempre. Em dias de queima ou de praxe, o pessoal anda alegre. Se soubéssemos que eles vinham cá, havia muitos mais estudantes aqui."

António José e Isabel Ferreira, ambos estudantes de Biologia, também foram ali parar por acaso. Não sabiam de nada. O que "é uma pena", segundo eles, "porque os Blind Zero fazem lembrar a queima", onde já tocaram.

Por entre as pessoas que se juntam para os ouvir, um grupo de mulheres, mais animado, grita: "Queremos o Tony Carreira!" Cândida tem 34 anos e Mónica 24. É Cândida que se lembra do músico popular. Mas até está a aderir ao concerto. "Íamos a passar e vimos que estavam aqui a tocar. Deviam vir mais vezes. Não os conhecia, mas é música boa. Acho lindo. É uma ideia gira, é bom para o Dia Mundial da Mulher, mas quem devia cá estar era o Tony Carreira, ou o filho, o Mickael". Mónica ri-se. "Lá estás tu» - diz, a meter-se com a outra.  Mas quando Cândida remata ao dizer que "o Tony em cima de um camião, a cantar assim, é que era lindo", Mónica não resiste a completar: "O filho era melhor." É uma questão geracional.

Pouco depois das 14h, já o camião está estacionado em Santa Clara, na zona de Coimbra A. O rio Mondego está escondido por detrás do veículo. Entre os músicos e as pessoas, poucas, que se concentram para os ouvir, fica a estrada. Estão todos encravados numa paisagem urbana, com os carros a passar entre eles. Mas é um dos melhores momentos do dia, em termos musicais. A banda está com energia, está confortável, e nem as interrupções de som causadas pelos autocarros que se cruzam entre o público e os músicos diminui a alegria daquele concerto que dura cerca de vinte minutos onde, mais uma vez, se ouve "Tree". Pela sexta vez!

São quase 15h quando a excursão regressa à auto-estrada para seguir para Lisboa, com paragem na estação de serviço de Pombal onde, finalmente, todos almoçam. É assim o rock no início do novo milénio.

Em Lisboa vive-se a contagem decrescente para o início do jogo de futebol. Às 20 horas, o Benfica defrontava o Paris Saint-Germain, no Parque dos Príncipes (em Paris). Miguel Guedes até podia não estar muito interessado no jogo, uma vez que não era o seu Porto que jogava, mas havia certamente menos gente na rua, que se preparava para assistir à transmissão pela televisão quando, pouco depois das 19h, o camião estacionava no centro dos Restauradores. Não havia público à espera. A noite caía gélida. Estavam os mesmos rostos das outras paragens. Sapos incluídos. Mas com mais frio.

João, de 34 anos, estava de passagem. Parou quando viu o aparato musical a ser montado. Disse que ia ficar para ouvir, mas estava com a ideia no futebol. Com o começo da música, a concentração aumentou. Mas pouco. Ao segundo tema, o palco entra em movimento, faz-se à estrada. O trânsito pára para a música passar. É a única cidade onde isso acontece. Há batedores de polícia a gerir o tráfego. A marcha faz-se com honras de aparato policial. As pessoas são surpreendidas na berma, à beira de uma passadeira, à espera que o semáforo passe para o verde.

O grupo que os acompanha, com pessoas da produção e os fãs, segue a pé, atrás do veículo em movimento. A música enche o céu nocturno de Lisboa, a rolar lentamente na estrada. Atravessa o Rossio e entra na Rua Áurea, em direcção ao Terreiro do Paço. Quando cruza o elevador de Santa Justa, é ver as pessoas acumuladas dos dois lados do passeio, vindas em correria das diversas artérias da Baixa Pombalina. Tudo para ver a banda passar.

Do cimo do camião, que fica ao nível do segundo andar dos edifícios, a ruína e o abandono dos prédios é ainda mais evidente. As janelas estão escancaradas, como cadáveres a apodrecer em solidão e esquecimento. Há edifícios, aparentemente de escritórios, completamente fechados ao exterior, cerrados, que se fecham num mundo vazio e aparentemente sem vida. Mas há uma poética e enternecedora proximidade.

A imensidão do veículo faz com que ocupe toda a estrada. Fica encravado entre os prédios dos dois lados da rua. Se esticarmos as mãos para o lado, temos a ilusão de poder entrar na intimidade de uma casa. Se esticarmos um braço para o ar, podemos acreditar que tocamos o céu. Nas casas onde há gente, de escritórios ou habitação, parece que quase entramos nelas, tão próximos estamos. A perspectiva da cidade é magnífica.

E no Terreiro do Paço, já a chegar às 20h, a banda prepara-se para o último conjunto de músicas. Já perdemos a conta às vezes que ouvimos "Tree". O corpo estremece de frio. A aragem gelada que vem do rio entranha-se na pele. A despedida faz todo o sentido. Dizem adeus ao som de "Drive". A pergunta, fica a ecoar na mente: "Who's gonna drive you home, tonight?". Depois de tudo aquilo, quem nos guia até casa? E, no entanto, ironia das ironias, não foi o fim.

A multidão dispersou. Umas horas antes, no autocarro, a caminho de Coimbra, Miguel Guedes dizia que há uma música que gostaria de gravar um dia, em português. "E depois do adeus" de Paulo de Carvalho. A conversa girava em redor da escolha do inglês, como língua oficial da banda desde o início. Mas ele não sabia como aquele desejo era premonitório. Nesta maratona de concertos, do Porto a Lisboa, a questão colocava-se. E depois do adeus? Às 20h15, depois de se despedir, das pessoas se irem embora, a banda soube que tinha de dar ainda mais um concerto. É certo que havia mais dois previstos que já não iam acontecer, no Cais do Sodré e no Camões. Os fios dos eléctricos eram demasiado baixos, o camião não conseguia passar. Já a entrada no Terreiro do Paço tinha sido feita de gatas e com os tripés deitados no chão. Mas não era destes concertos que se tratava. Era um directo para o noticiário da SIC, às 21 horas, que estava combinado. E, assim, a banda ficou 45 minutos à espera do directo da SIC – quase sozinha, com o camião, e uns poucos fãs resistentes – para voltar a tocar. E, finalmente, dar por encerrada a digressão. É assim o rock'n'roll no início do novo milénio. "Tree" pela nona vez?