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Mundo perde luta contra a fome

O número de pessoas desnutridas no mundo passou de 923 milhões em 2007 para 963 milhões em 2008, segundo um relatório das Nações Unidas.

Maria Luiza Rolim

O relatório 'O Estado de Insegurança Alimentar no Mundo', da FAO - organismo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação não podia ser mais realista. Só este ano, a recente crise global dos alimentos pôs mais de 40 milhões de pessoas abaixo do limiar da fome.

De acordo com este documento - o nono editado pela FAO desde a Cimeira Mundial sobre Alimentos de 1996 - a actual crise económica e financeira poderá levar muito mais pessoas à pobreza e à fome em 2009.

Fome aumenta na RDC

O relatório da FAO divulgado esta semana revela que a maioria dos desnutridos, ou seja, 907 milhões de pessoas, vive em países em desenvolvimento. Desses, 65% estão na Índia, China, República Democrática do Congo, Bangladesh, Indonésia, Paquistão e Etiópia.

O aumento da fome verificou-se sobretudo na República Democrática do Congo, devido aos conflitos internos. Os subnutridos congoleses passaram de 11 milhões em 2003 para 43 milhões em 2005.

O documento diz, ainda, que a alta dos alimentos fez reverter todo o trabalho desenvolvido nos últimos dez anos para a redução da fome na América Latina e no Caribe. Para se ter uma ideia, se em 2007 pelo menos 51 milhões de pessoas passavam fome na América Latina e no Caribe - quase o mesmo número de 1997 - a situação voltou a piorar no ano em curso. Ou seja, o exército de famintos passou a 51,8 milhões.

O director-geral adjunto da FAO, Hafez Ghanem, diz a queda dos preços dos alimentos, verificados desde o início de 2008, não contribuiu para acabar com a crise de alimentos em muitos países pobres.

Segundo esse dirigente da FAO, "para milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, comer diariamente a quantidade mínima indispensável para se ter uma vida saudável e activa" é ainda uma miragem". "A fome, a falta de acesso à terra, ao crédito e ao emprego, junto com o elevado preço dos alimentos, continuam a ser uma terrível realidade".

Pobres pagam a crise

Hafez Ghanem diz, ainda, que a crise tem afectado em especial os mais pobres, os sem-terra e as famílias chefiadas por mulheres. Cerca de dois terços (583 milhões em 2007) das pessoas que passam fome moram na Ásia. Na África subsaariana, uma em cada três pessoas (236 milhões em 2007) é considerada cronicamente faminta.

Os dirigentes da FAO acreditam que vai ser preciso um grande esforço global para combater o espectro da fome. Mesmo assim, vai ser mesmo muito difícil alcançar nos próximos sete anos a meta fixada (na Cimeira de 1996) de alterar para menos 500 milhões o número de pessoas famintas.

Uma nota positiva do relatório refere-se ao caso do Brasil onde, apesar de tudo, o número de pessoas a passar fome caiu entre 1990 e 2005, tendo passado de 15,8 milhões para 11,7 milhões (a FAO não apresenta dados da fome naquele país referentes a 2007).