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Morreu o homem que colocou Manchester no mapa

Wilson foi o fundador da mítica editora Factory Records e da discoteca Hacienda que nos anos 70 e 80 transformou a cinzenta cidade inglesa na trepidante “Madchester”.

Anthony Wilson morreu na noite de sexta-feira vítima de um ataque cardíaco, depois de ter lutado contra um cancro no rim durante mais de um ano.

Wilson nascido há 57 anos na cidade de Salford perto de Manchester foi desde sempre um irreverente, apesar de ter frequentado os melhores colégios e de se ter licenciado na prestigiada e conservadora Universidade de Cambridge. Nos finais dos anos 70 o jornalista inglês na casa dos 20 anos começou a dar os primeiros passos num mundo que iria ser o seu ao apresentar o programa “So it Goes”, por onde passaram bandas proeminentes do movimento punk que então inundava os quatro cantos do Reino Unido. Sex Pistols e Siouxsie and The Banshees foram alguns deles, contudo o programa só esteve um ano no ar e Tony teve de procurar outras paragens.

Em 1978 deu o passo que sem saber o iria transportar um lugar na história, ao fundar a Factory Records, uma editora musical que lhe garantiu o prestígio que gozou até à sua morte, contudo muito pouco ou nenhum dinheiro, como o próprio assumiu sem pudor: “Sou a única pessoa famosa desta indústria que nunca ganhou dinheiro”.

Peter Saville, designer gráfico e antigo colega de Wilson na Factory recorda o legado do amigo: “Normalmente os jovens sonham em ir para outro lado de forma a alcançarem os seus objectivos. O Tony fez com que os rapazes e raparigas de Manchester pudessem cumprir os seus sonhos sem terem de sair da cidade”.

Wilson foi o responsável pelo lançamento de bandas emergentes da cena musical de Manchester, como a Joy Division, depois New Order, Happy Mondays ou James. Aparentemente este facto poderia ter lançado o empresário inglês para uma vitalidade monetária que nunca veio a conhecer, principalmente porque não haviam contratos assinados entre a Factory e os artistas.

Assim sendo a bancarrota era inevitável e acabou por chegar sem surpresas em 1992. Mas antes disso Wilson pode-se gabar por ter iluminado a cinzenta Manchester não só com a Factory, mas também com discoteca que o próprio fundou e que o nome ainda ecoa nas memórias de muitos ingleses: Hacienda. Uma exclusiva discoteca sempre na vanguarda musical.

Entre a História e o dinheiro

Por aqui passaram as bandas que Wilson apadrinhava e no final dos anos 80 foi um dos ninhos do “Acid Music”, um movimento musical que fez história na última década do século XX e que ofereceu à depressiva Manchester o epíteto de “Madchester”.

Depois do aparecimento da doença Wilson pôde perceber que embora não tivesse feito qualquer fortuna com o contributo que deu à música mundial, ganhou sim amigos importantes, que no final da vida o ajudaram a minorar o sofrimento.

Sem dinheiro para pagar os tratamentos que se seguiram à quimioterapia, foram os membros dos Happy Mondays que, com algumas ajudas, se juntaram para arranjar os 5000 euros mensais que atenuariam o sofrimento do antigo mentor.

Tony, dono de um humor tipicamente britânico, ainda lançou um lamento agridoce quando se apercebeu que na prática o seu legado de poucas libras valia: “Eu costumava dizer que algumas pessoas fazem dinheiro e outras fazem História – o que até tem alguma graça até nos apercebermos que não temos possibilidades económicas para nos mantermos vivos”.

Como lembrou Paul Ryder, guitarrista dos Happy Mondays e irmão do vocalista, Shaun: “Se não fosse o Tony eu ainda estava a trabalhar nos correios. Foi ele que deu uma oportunidade a rapazes da classe operária como eu e o meu irmão”.

Parte da carreira de Wilson pode ser vista, de uma forma algo ficcionada, no filme “24 Hour Party People”.