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Morreu o fundador dos Pink Floyd

Figura-chave da história do rock no século XX, Syd Barrett fundou os Pink Floyd em 1965. Estava retirado da vida artística há 32 anos.

SYD BARRETT, o mítico fundador dos Pink Floyd, que estava há mais de três décadas retirado do mundo artístico por razões de saúde, faleceu na passada sexta-feira, dia 7, com 60 anos. A causa da morte terá sido cancro, conforme vem noticiado nos jornais ingleses, embora os primeiros relatos apontassem problemas derivados de diabetes. Barrett é uma figura-chave da história do rock no século XX, embora tenha tido uma curta carreira de nove anos (desde o aparecimento dos Pink Floyd em 1965 até à inconsequente última entrada a solo em estúdio em 1974) durante a qual gravou cerca de 60 músicas. Retirado do mundo há 32 anos, era uma lenda que o mundo se habituou a narrar no passado. 

Os Floyd de Barrett surgiram em Londres numa altura em que a chamada contra-cultura explodia em todas as direcções. Pela primeira vez os músicos de rock vinham das escolas de arte e arquitectura, misturavam-se com a comunidade artística, promoviam eventos comunitários sob o espírito hippie, nos quais a liberdade das formas era a única regra a seguir, e a excitação dos sentidos o objectivo primeiro. Os Floyd eram a encarnação perfeita do seu tempo. As canções de Barrett tinham letras surrealistas, frequentemente escritas sob o efeito de drogas. A música tendia cada vez mais para improvisações que até ali apenas eram tentadas por músicos de jazz. Os concertos eram autênticas performances, nas quais eram experimentadas as mais radicais projecções de luz e testados os mais avançados sistemas sonoros. O público encharcava-se em LSD e deixava-se levar em «viagens» como «Interstellar Overdrive». No auge da fama, e após gravar a obra máxima do psicadelismo, The Piper At The Gates Of Dawn,

Barrett torna-se uma vítima do abuso dos alucinogénios. A mistura de esquizofrenia com LSD «frita-lhe o cérebro» e transforma-o num autista, incapaz de funcionar no seio da banda. Sai do grupo em 1968, ainda grava dois álbuns a solo, ambos editados em 1970, mas recolhe-se definitivamente para a casa da mãe, em Cambridge. Nunca mais deu uma entrevista, nunca atendeu quem lhe bateu à porta, nunca mais quis saber do passado, numa mais compôs uma nota. Vivia dos rendimentos das gravações com os Pink Floyd e dedicava-se à pintura. Com a fama mundial que o grupo foi conquistando nos anos seguintes, com o nome de Barrett a ser evocado nos três mais famosos discos do grupo (The Dark Side Of the Moon, de 1973, inspira-se no seu caso de loucura; Wish You Were Here, de 1975, é-lhe dedicado; e The Wall, de 1979, vai buscar a sua história de músico rock conduzido à alienação), começou a nascer a lenda do obscuro fundador do grupo que enlouqueceu devido às drogas e que vivia em reclusão. Barrett tornou-se objecto de culto, com fãs acampados à sua porta, os jornais a repetirem a sua história e toda uma indústria a nascer: livros, colectâneas, DVDs, números especiais de revistas. Todos os anos são publicados vários produtos relacionados com Syd Barrett, todos os meses o seu nome é citado na imprensa como influência de alguém. Quando foi anunciada a sua morte, na passada terça-feira, dia 11, poucas pessoas seriam capazes de citar de cor o nome de uma canção de Barrett, contudo, a imprensa mundial dedicou-lhe muitas capas e tempo de antena. Barrett era uma lenda mais morta que viva de um período fundamental da história do século XX. A sua história há muito que estava contada. Faltava apenas acrescentar-lhe a data da morte. 2006.

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