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Morreu Miguel Portas

Tiago Miranda

Morreu hoje, cerca das 18h, em Antuérpia, na Bélgica, o eurodeputado Miguel Portas. O fundador do Bloco de Esquerda não resistiu ao cancro. A sua vida dividiu-se entre o jornalismo e a poltica. Fazia 54 anos na próxima semana.

Cristina Figueiredo (www.expresso.pt)

Nasceu a 1 de maio de 1958, filho da economista Helena Sacadura Cabral e do arquiteto Nuno Portas. Irmão do ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente do CDS/PP, Paulo Portas, Miguel Portas era eurodeputado pelo Bloco de Esquerda desde 2004.

Licenciou-se em Economia no ISEG, mas nunca exerceu: "Para não prejudicar o país", ironizava. Foi como político que se notabilizou, mas era jornalista que se continuava a considerar: "A minha profissão é jornalista. A minha comissão de serviço é na política", explicava ao Expresso, numa entrevista de vida que deu em julho de 2011.

Entrou no meio jornalístico nos anos 80, como editor da revista cultural "Contraste", ao mesmo tempo que era revisor de provas na Heska, a tipografia que imprimia o "Diário". Com o fim da "Contraste", ingressou no Expresso; entregou a carteira profissional para ser assessor político de Jorge Sampaio na Câmara de Lisboa. Ainda voltaria ao Expresso, mas saiu de vez em para fundar o "Já" - em 1995 -, um projeto entre revista e jornal que não dura mais do que um ano.

"Habituado a dizer não"

A política foi uma constante na sua vida desde muito jovem. Começou por integrar a União de Estudantes Comunistas, em 1973. "Sou de esquerda porque a minha mãe me proibia de deixar comida no prato, porque tinha de dar aos pobres a melhor prenda que recebia no Natal. Fui habituado à renúncia. E também sou de esquerda porque fui sempre um filho difícil, habituado a dizer não. O meu processo de afirmação foi contra".

Católico praticante enquanto adolescente, explicava: "A convicção que tinha acabou por ser transportada para o comunismo. Porque o comunismo não é mais do que uma religião laica. Quando aderi ao PC transferi de Deus para o homem a mesmíssima crença e a mesmíssima promessa". Num balanço tanto quanto possível frio desses 18 anos, dizia: "Fui um bom militante. E acho que fui quase tão complicado para o partido como fui para a minha mãe".

Saiu pouco depois da queda do Muro (1989). Com outros ex-militantes comunistas, fundou a Plataforma de Esquerda e o movimento Política XXI antes de, em 1999, se juntar a Francisco Louçã (PSR), Luís Fazenda (UDP) e Fernando Rosas (MRPP) para fundarem o Bloco de Esquerda.  O objetivo era "mudar as coisas no sentido de uma esquerda que não seja nem a do PCP nem a do PS". Desde 2004 que representava o Bloco no Parlamento Europeu. E não escondia a desilusão com o rumo da Europa: "Eu, que sempre fui convictamente europeísta, sou hoje muito mais cético do que quando entrei no PE".

Ativista até ao fim

Depois das eleições de junho de 2011, que ditaram a derrota do Governo de Sócrates e a queda do BE (dos históricos 9,8% /16 deputados obtidos dois anos antes, para 5,1% /8 deputados), anunciou a sua saída da Comissão Política do partido. Explicou por escrito o porquê: "A expressividade da derrota coloca, queira-se ou não, um problema de credibilidade à atual direção que é, embora com renovações significativas, a da fundação. Assumir que existe um problema de refresh na direção bloquista não é pecado". É sua profunda convicção que os quatro fundadores do BE têm de sair, no máximo daí a "um ano e meio, dois anos".  Porque, defende, "os velhos devem ter o cuidado de não querer titular um processo de geração".

Ativista até ao fim, um dos seus últimos posts no Facebook, na quinta-feira 19, é sobre o cerco policial à antiga escola básica da Pontinha, no Porto: "A Es.col.A da Fontinha, que tem um trabalho mais do que meritório com a população do bairro, está a ser despejada à bruta por uma cruzada de políticos idiotas. Que todas as boas vontades se juntem contra a estupidez. Já".

Desde o verão de 2010 que sabia ter um cancro no pulmão. O que, assegurava, não lhe trouxe grandes mudanças, apenas uma consciência mais aguda da "precaridade da vida". O seu objetivo de vida, "modestíssimo", continuava a ser o mesmo de antes da doença:  "Quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade".