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Morreu Luiz Pacheco

O escritor e crítico literário Luiz Pacheco, nascido a 7 de Maio de 1925, em Lisboa, chegou já sem vida ao Hospital do Montijo no sábado à noite. Tinha 82 anos. O funeral realiza-se na terça-feira no cemitério Alto de São João. (Veja vídeo no final do texto)

Luiz Pacheco, vai ser cremado terça-feira, pelas 19:00, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, disse hoje à Lusa fonte próxima da família. Segundo a mesma fonte, o corpo do escritor de 82 anos, que deu entrada sábado à noite, já sem vida, no Hospital do Montijo, que registou o óbito às 22h17, só deverá ser entregue à família na segunda-feira à tarde, não estando ainda definido o local onde deverá ocorrer o velório, durante a noite de segunda para terça-feira.

Nascido em Lisboa a 7 de Maio de 1925, Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco desde cedo manifestou talento para a escrita, tendo frequentado o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, mas acabou por desistir devido a dificuldades financeiras.

Em 1946 foi admitido como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos, de onde um dia se demitiu dizendo que estava farto do emprego.

Luiz Pacheco publicou dezenas de artigos em vários jornais e revistas, incluindo o antigo Diário Popular e a Seara Nova, e acabou por fundar a editora Contraponto em 1950, onde publicou obras de escritores como Raul Leal, Mário Cesariny, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder e Vergílio Ferreira.

Dedicou-se também à crítica literária e cultural, ganhando fama como crítico irreverente, que denunciava a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime do Estado Novo.

Com uma vida atribulada, por vezes sem meios de subsistência para sustentar a família, Luiz Pacheco chegou a viver situações de miséria que ia ultrapassando à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues.

Foi nesse período difícil da sua vida que se terá inspirado para escrever o conto "Comunidade" (1964), que muitos consideram ser a obra-prima de Luiz Pacheco.

A "Carta-Sincera a José Gomes Ferreira" (1958), "O Teodolito" (1962), "Crítica de Circunstância" (1966), "Textos Locais" (1967), Exercícios de Estilo (1971), Literatura Comestível (1972) e "Pacheco versus Cesariny (1974), são apenas algumas das muitas obras publicadas por Luiz Pacheco.

Nos últimos anos Luiz Pacheco viveu num lar em Lisboa, de onde se tinha mudado há alguns meses para casa de um filho e, posteriormente, para um lar no Montijo.

"Luiz Pacheco é um dos escritores mais importantes do século XX português, um dos grandes estilistas da literatura portuguesa. Ele é o nosso Jorge Luís Borges, porque, não tendo nada a ver, à partida, com o escritor argentino, escrevendo também sempre textos curtos, escrevendo prosa normalmente com não mais de cinco páginas, dez páginas, marcou as nossas letras."Rui Zink, escritor

"Luiz Pacheco era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país. Ele nunca construiu obra organicamente arquitectada talvez pela maneira mental dele próprio, também talvez pelos acidentes da vida - ele tinha de ganhar dinheiro aqui e ali - , e, porventura, porque a censura não lhe permitiria escrever essa grande obra satírica. Ele é, no fundo, um grande satirista. Por tudo isto - resumiu - a obra dele ficou em fragmentos, alguns de grande qualidade, como 'Comunidade" e 'O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor."Vítor Aguiar e Silva, investigador de literatura

"Era um escritor relativamente escasso, mas bastante interessante que combinava uma matriz surrealista e uma certa tendência quase paradoxalmente realista. Praticou "uma fusão entre a literatura e a vida, o que significa uma espécie de projecto de linhagem romântica, mas de cariz surrealista."Manuel Gusmão, professor universitário e ensaísta

"Luiz Pacheco é autor de uma obra extremamente fragmentada mas com um fulgor anímico, estilístico e estético que marcam nele o grande escritor que é. "Fez uma simbiose muito forte entre os seu percurso de vida e a sua literatura", de certo modo "desdobrou-se na personagem que ele próprio criou, a personagem de vadio e pedinte, de libertino, de libertário, de iconoclasta. Receio que essa imagem de marca muito recortada tenha abafado o escritor que fez da sua escrita um admirável exercício de estilo. De certo modo o que lamento - observou ainda - é que, hoje em dia, as pessoas que admiram Luiz Pacheco, mais o admirem pelo lado faceto, pela imagem de marca, do que pelo recorte da sua obra, pelas incidências que essa obra pôde ter na longa noite do fascismo."Vítor Silva Tavares, editor da &ETC, o primeiro a editar em livro textos de Pacheco

"Sinto a morte de Luiz Pacheco de uma forma muito profunda, já que o considerava um amigo pessoal e é quase como se o conhecesse intimamente. Perde-se um escritor como não voltará a existir outro. Era uma personalidade que poderíamos considerar excêntrica, que sempre que abria a boca nunca se sabia o que ia dizer, mas era um ser humano único."João Pedro George, professor universitário, está a fazer a tese de doutoramento sobre a biografia de Luiz Pacheco