Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Morales não é Chávez nem Fidel

Em entrevista ao EXPRESSO, o Presidente da Bolívia, Evo Morales, rejeita ter sido influenciado no processo da nacionalização do gás

O Presidente da Bolívia, Evo Morales, rejeitou ser influenciado nas suas decisões pelos Presidentes venezuelano e cubano, Hugo Chávez e Fidel castro. Em declarações ao EXPRESSO, Morales acrescentou que no que respeita ao processo de nacionalização do gás, a Bolívia «necessita de sócios e não de patrões» .

A nacionalização do gás boliviano pode prejudicar, segundo alguns economistas, o crescimento de vários países da América Latina, nomeadamente do Brasil. Como reage a este alerta?  

Gostaria que todos os povos que têm interesses na Bolívia se colocassem no lugar dos bolivianos. Não podemos perder a nossa soberania sobre as nossas reservas naturais. Temos todo o direito de dispor das nossas reservas. Não existe razões para preocupação já que nós asseguramos o abastecimento. Em segundo lugar quero sublinhar que não estamos a expulsar a Petrobras ou outra empresa do país. Afirmo sim que vão ganhar menos que antes. Mas é por uma causa. Isto é parte de um pensamento do povo boliviano, de um sentimento comum: ter lucros, mas com equilíbrio e justiça. Em terceiro lugar, afirmo que se querem ajudar a Bolívia que não seja só através de cooperação, mas também pagando o preço justo. Não se trata de impor preços acima do mercado, mas de uma renegociação. Na quarta-feira, já começaram as negociações com a Petrobras e pelo que soube existe uma certo entendimento. A Petrobras estará disposta a respeitar as nossas normas. É como sempre dizemos: quem respeita as normas bolivianas é bem-vindo na Bolívia. Temos de levar em conta também a comparação dos actuais preços com os níveis do mercado internacional. Podemos dizer, por exemplo, que o que o Brasil nos paga actualmente pode ser considerado um preço de «solidariedade».   

Os processos de nacionalização do gás e do petróleo surpreenderam tudo e todos, incluindo o Presidente Lula da Silva do Brasil...

Nós informamos não só o Presiudente Lula como dissemos publicamente que necessitamos de sócios e não de patrões. Dissemos que iríamos nacionalizar e cumprimos com a nossa promessa. Informamos o companheiro Lula, publicamente o povo brasileiro, o mundo inteiro e todas as empresas que se encontram no país. A partir de agora, tudo vai depender do comportamento de cada um. Além do mais, nós estamos muito tolerantes com algumas empresas que nem pagam impostos.

Segundo a imprensa latino-americana, os Presidente Hugo Chávez e Fidel Castro têm muita influência nas suas decisões. As nacionalizações são um exemplo disso?

Isso é falso, é uma especulação da imprensa. Chávez nacionalizou as empresas venezuelanas em sete anos e eu somente em 100 dias. Eu não tenho de ouvir os conselhos de ninguém para tomar decisões. Gosto de compartilhar experiências, trocar informações. Quando fui para Havana, no mês passado, para me encontrar com os dois Presidentes, eu já tinha a data em que decretaria a nacionalização e ninguém sabia. Somente seis pessoas do meu governo conheciam essa data. A decisão do decreto custou noites de debates e discussões, porque os vários sectores - político, económico e ideológico - deveriam estar coordenados. Eu conduzi pessoalmente todas as diferenças de opinião que existiam dentro do meu gabinete. Inclusive, houve infiltrações de informação e tivemos de reduzir ainda mais a equipe. Tive de tirar mais de dez pessoas que pareciam estar ao serviço da Petrobras e de outras petrolíferas.