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Miguel Portas: "Quem não se arrepende de nada, ou é parvo ou santo"

Leia a última grande entrevista que Miguel Portas deu ao Expresso, a 23 de julho do ano passado.

Luísa Meireles e Rosa Pedroso Lima (www.expresso.pt)

Foi um dia inteiro de conversa.

Pela primeira vez Miguel Portas - o Portas de esquerda - aceitou falar da sua vida. Horas depois da entrevista, seguiu para Bruxelas e recomeçou os tratamentos contra o cancro do pulmão, detetado há um ano. Numa conversa entre velhos amigos, falou da doença, da família, da política e do seu legado. Miguel Portas confessou-se em casa dos padrastos, Afonso Howell e Margarida Lobo, respetivamente segundo marido da mãe e segunda mulher do pai, com quem mantém uma relação chegada.

Foi na Arrábida, entre imagens de anjos e santos, que o antigo militante comunista assumiu ser um missionário e que já acreditou em milagres.

Jornalista, político, deputado. Profissionalmente, és o quê? De formação, sou economista. Não exerci para não prejudicar o país (risos). Depois veio a crise e eu estava no Parlamento Europeu e voltei seriamente à macroeconomia. A minha profissão é jornalista. A minha comissão de serviço é na política.

Estás a brincar... Só faço política a tempo inteiro há sete, oito anos! O que não significa que ao longo da vida inteira não tenha feito política na condição de cidadão.

Tiveste quantos anos no jornalismo? À vontade 15 anos. Comecei nos anos 80 a fazer a "Contraste", uma revista de movida cultural, distribuída diretamente por nós.

E acabou por falta de fundos... Sim, mas com uma conexão política. O golpe fatal foi dado num número sobre 'Festas'. Creio que foi o Rui Zink a ter a grande ideia de fazer uma capa cujo título era 'Ai Álvaro, faz-me festas mais Avante'. Tirei o 'Ai, Álvaro', que era muito provocante e a revista avançou. Mas ficou condenada.

Parece divertido, mas não paga as contas. Vivias como? Comecei como revisor de provas na Heska, a tipografia onde se fazia o "Diário". Um ano daquilo e só conseguia ver gralhas nos jornais! Nessa altura, o "Diário" pediu-me para inventar cartas de leitor, foi a minha primeira tarefa como jornalista, escrever cartas sobre o PS. Depois, fui funcionário público. Trabalho desde os 17 anos. Um dia, atirei isso à cara da minha mãe. Ela respondeu: "Tu não sabes o que é trabalhar. Trabalhas porque queres, não porque precisas."

E quando chegas ao Expresso? Convidaram-me depois de a "Contraste" acabar. Entro em 1986, até que Sampaio resolve candidatar-se à Câmara de Lisboa e eu vou com ele.

Fazer o quê? Faço a campanha, sou um dos escritores de discursos. Fiquei dois anos como assessor na Câmara, nas relações entre a Cultura e o Urbanismo.

Ainda eras militante comunista? Sim. As coisas que ouvi! Sampaio conhecia-me desde miúdo e convidou-me para assessor. Fui perguntar ao partido, falei com o camarada Octávio Pato. Ele respondeu-me que não: "És crítico e isso pode prejudicar as relações entre o Partido e o Sampaio." Eu disse-lhe: "Como sou amigo pessoal dele, até julgava que isso podia facilitar. Mas há um pequeno problema: eu disse ao Sampaio que só iria se o PC aprovasse." Acabou a conversa. O Pato foi para cima discutir e eu fiquei assessor.

E porque não saíste do PC? Queria um projeto de esquerda para a cidade de Lisboa e tinha uma ligação afetiva. Nos últimos tempos havia uma espécie de acordo não escrito: eu fazia basicamente aquilo que queria e, em troca, também não os chateava muito. Tinha o que um camarada da direção disse: "O teu problema é que tens traços de personalidade". No comunismo é um risco de defeito.

Tiveste um estatuto especial? Sempre fui uma pessoa razoavelmente heterodoxa dentro do PC, mas sempre respeitei a disciplina.

Houve alturas em que preferi não ter responsabilidades políticas por não concordar com a orientação. O partido habituou-se a lidar comigo, sempre um pouco desconfiado. Foi uma espécie de família e de casa. Até que ao fim de 18 anos acabou.

E ficaste assessor do Sampaio e militante comunista? Sim. A minha principal tarefa foi a reconceção das festas da cidade. A ideia ainda dura. Essa e a dos megaconcertos.

O extraordinário é continuares a considerar-te jornalista. Porque a minha profissão foi essa. Depois da Câmara, saí do Expresso para criar o "Já". Era um híbrido entre revista e jornal. Durou um ano.

Era mais um projeto de intervenção cultural! Sim. A razão por que me torno jornalista é porque aprendi a fazer comunicados. A lógica argumentativa é 'o que, porque, quando'. Um comunicado é a primeira peça jornalística da história de muitos diretores de jornais.

Estás a dizer que tudo o que sabes, aprendeste no PC... Não tenho dúvida nenhuma de que aminha formação foi muito marcada pelo PCP. Foi metade da minha vida ativa! Entrei com 15 anos!

E porque é que entras? Quem cresce num meio burguês como o teu... Ser burguês não é defeito, é condição!

Mudaste de família, foi isso? Foi mesmo uma grande família. Vou parar ao PC com um trajeto que muita gente fez: do catolicismo ao cristianismo e daí ao comunismo. Fiz uma adesão ao PC pelo lado intelectual. A maioria das pessoas fê-la decorrente das condições de vida, do ambiente familiar. No Alentejo, nascia-se comunista.

Não no teu lado alentejano da família... Por isso a minha adesão é pela via intelectual. Quando eu nasci, a minha mãe era funcionária pública e o meu pai tinha acabado Arquitetura e estava a preparar o doutoramento. Era uma família sem problemas de dinheiro, mas de pequena, média burguesia urbana.

Tens uma formação católica? Forte. O meu pai era um católico progressista. A minha mãe à época era bastante menos crente. Lembro-me da família toda à frente do televisor a assistir à vinda do Papa Paulo VI. Quando havia problemas em casa, eu rezava a uma cruz modernista que havia na parede. Quando os problemas se resolviam ou as discussões acabavam, associava isso a um milagre. Sou um homem de convicções firmes.

E ias à missa? A razão por que saí de casa da minha mãe, aos 12 anos, foi porque queria ir a uma missa.

Uma missa progressista, claro. Tinha um padre progressista e guitarradas. Eu gostava. A minha mãe proibiu e eu deixei-lhe um bilhete: "Entre a mãe e Deus, escolho Deus."

Ainda é verdade? Já escrevi coisas melhores. A minha mãe queria, legitimamente, ir à praia e achou que eu podia ir à missa ao fim da tarde. Fechou-me à chave na sala e eu fiz o que vi nos filmes policiais: meti um papel entre o chão e a porta, a chave caiu e puxei-a. Fugi para ir ter com o meu pai. Quando voltei, não era Deus que estava à minha espera, mas a minha mãe...

E a saída de casa tornou-se definitiva? Porque a minha mãe ficou um bocado chateada. Discutimos e fui para casa do meu pai.

A ida à missa não era apenas uma questão de fé. Era uma forma de afirmação. Se calhar não foi mais do que isso. Mas a convicção que tinha acabou por ser transportada para o comunismo. Porque o comunismo não é mais do que uma religião laica.

O que queres dizer? Tem tudo o que tem uma religião: santos (Marx, Engels e Lenine), Papas, bispos e festas religiosas populares. A Festa do "Avante!" não é outra coisa senão uma grande reconstrução laica de uma cerimónia de grande tradição popular.

Estás aqui, estás a dizer que o PC é uma grande seita... Não. Mas quando vês o discurso do secretário-geral, às seis da tarde, no grande palco da Festa do "Avante!", aquela construção, as filas dos dirigentes, toda aquela representação de espetáculo tem que ver com a tradição das grandes encenações religiosas.

Sentias ou vês isso agora? Quando aderi ao PC transferi de Deus para o homem a mesmíssima crença e a mesmíssima promessa.

Não é contraditório com dizeres que foste para o comunismo pela via intelectual? Em que é que a fé contesta a racionalidade?

Não era assim que o comunismo a via... Mas eu não estou a falar segundo a "Vulgata"! O que a tradição judaico-cristã transmitiu a toda a cultura europeia vai até ao comunismo: a promessa da felicidade na terra!

É uma releitura da tua vida. Oque parecia ser um corte é uma continuação? Tenho muito cuidado para não fazer reescritas. Estou a fazer uma reinterpretação. Procuro racionalizar essa passagem feita por uma via de humanismo radical. Tanto quanto é possível aos 12 anos. Quando se lê "Por Que Não Sou Cristão" do Bertrand Russel com essa idade...

Quem te deu esses livros? Estavam na biblioteca do Afonso. Depois, li "O Que é a Propriedade", do Proudhon. É a bíblia do anarquismo e o primeiro livro de economia que li.

Com 12 anos? Esse ainda é fácil! Mesmo os "Princípios da Filosofia" ou "Processo Histórico", de Juan Clemente Zamora, ainda foram. O problema começa com a "Introdução ao Capital" e a "Contribuição para a Crítica da Economia Política", ou um muito pior do Lenine, o "Materialismo e o Empiriocriticismo". Não passei da pág. 18. Ainda bem.

Mas isso não é... ...normal? Não, não é. Nem é a regra!

Os teus pais separam-se quando tinhas que idade? Talvez uns nove anos. E o meu irmão teria uns quatro.

Isso marcou-te? Seguramente. Somos uma família um pouco estranha. Em termos públicos, até parece que não há pai, só os irmãos e a mãe. O pai desapareceu.

Depois da separação, ficas a viver com a tua mãe até que foges... Sim. E decido que quero ir para um liceu de pobres e deixar o São João de Brito. Vou para o Passos Manuel e entro no mundo do associativismo estudantil. Faço a puberdade e entro na adolescência de forma vertiginosa.

Estás a dizer que queres ir para um liceu de pobres porque és muito católico? Eu sou de esquerda porque a minha mãe me proibia de deixar comida no prato, porque tinha de dar aos pobres a melhor prenda que recebia no Natal. Fui habituado à renúncia. E também sou de esquerda porque fui sempre um filho difícil, habituado a dizer não. O meu processo de afirmação foi contra. Desde muito novo que tinha uma relação dura com a família. Não fui um filho fácil com a minha mãe.

E com o teu pai? O pai é sempre o tipo porreiro e pouco presente em comparação com a mãe. O porreiro da casa é o pai. E quem manda é a mãe.

Ainda discutes muito com a tua mãe? Não, evito. Desaprendi de discutir. Talvez por termos maneiras de ser bastante próximas, a relação foi sempre dolorosa. A primeira vez que cortei relações com a minha mãe estava no 4º ano do liceu. Mas ela cortou muito mais vezes do que eu. Diz que lhe prometei um tribunal revolucionário para a julgar, mas parece-me excessivo. Não foi ao meu casamento porque achava que eu não estava preparado e tinha razão. Embora tenha oferecido a casa para o beberete.

Em adulto ainda se mantém essa tensão? A última vez que a vi zanguei-me. É melhor vermo-nos em doses homeopáticas. Fora isso, gostamos muito um do outro.

Foste duro com a tua mãe? Reconheço que fui, mas ela nunca foi leve. Tinha uma interpretação muito própria do seu papel e creio que eu também do que era o meu! Não deve ter sido simples para nenhuma das partes.

E o teu pai? Aprendi coisas diferentes: a gostar de jazz, de urbanismo. E aprendi muito a pensar, a pôr perguntas. O meu pai dava espaço a tudo, desde que eu passasse de ano.

E passaste? Nunca chumbei. Na faculdade é que interrompi e demorei dez anos (dois planos quinquenais!) a fazer um curso de cinco. Mas porque fui trabalhar, fiz tropa, outras coisas. O meu pai, um dia disse-me: "Já viste que estás a falar como o Cunhal?" E tinha razão. Todos os comunistas, a certa altura, falavam num tom às curvinhas e baixinho. Era uma música de igreja. Como os padres, que falam todos da mesma maneira.

Estás sempre a comparar o PC com a Igreja. Tu eras o quê, acólito? Fui um bom militante. E acho que fui quase tão complicado para o partido como fui para a minha mãe! Num dos momentos de crise, fui protestar com o Ângelo Veloso e ele disse-me: "O teu problema é que és um católico não praticante!" Respondi: "Quando os padres fecham as portas da igreja o que queres tu que eu seja?"

Hoje, és ateu? Sou ateu não militante. Tenho um enorme respeito pela racionalidade que há no fenómeno religioso. Umas semanas antes da Maria de Lourdes Pintasilgo morrer, tivemos uma longa conversa. Ela dizia-se crente, não tanto por acreditar em Deus, mas porque precisava de falar com ela própria, através de outra figura. A brincar disse-lhe: "Se calhar é de um psicólogo que tu precisas." Eu não tenho essa necessidade. Devo ter tido quando era muito novo, porque acreditava que Ele fazia milagres. E acreditei no homem como o redentor.

Agora estás em que ponto? O meu único objetivo de vida é modestíssimo: não faço a menor ideia se aquilo que eu defendo vai fazer caminho, ou não. O socialismo ou o comunismo não são nenhum destino. Pelo que a gente vê, até é pouco provável que aconteça... Acho que a Humanidade está mais próxima de se destruir do que de construir um amanhã que canta. Não está nada escrito. Mas há uma coisa que sei: ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade.

Tens 53 anos. Estás a pensar assim porque tiveste uma doença grave?

Já pensava assim muito antes. Acho que fiz coisas de que genericamente não me arrependo. Até posso levar alguns pequenos orgulhos. Mas a minha vida valeu a pena, no sentido em que foi interessante para outros. Isto não foi uma missão, é só um ato de derradeiro egoísmo. É da pessoa querer saber como parte: de cara lavada ou de cara pintada. Prefiro de cara lavada.

Os teus dois filhos mudaram a tua vida? Nunca fui um bom pai. Apesar disso, os meus filhos gostam de mim.

Em que sentido? Nunca fui presente, atento. Fui fundamentalmente um pai ausente.

Porque não querias, não tinhas paciência, não podias? Há uma primeira parte complicada, quando eles são muito pequenos. Quando começaram a interagir, ambos acabaram por ter um pai ausente, por razões políticas, profissionais, porque sempre tive uma vida muito ocupada.

Mas também conseguiste articular muitas coisas ao mesmo tempo. Significa que devia ter posto muito mais vezes a vida privada como prioridade e nunca o fiz. Ou melhor, estou agora, com atraso, a tentar recuperar.

Achas que tem a ver com o modelo que tiveste? Tem mais a ver com essa segunda família, o comunismo. As 'grandes causas' são um espantoso conforto para não se olhar para dentro e para se fugir de si próprio. Isto não é fácil de dizer, mas é inteiramente assim. Ou seja, a dedicação completa a uma causa é muitas vezes a contraparte de uma enorme dificuldade em conseguir viver os detalhes.

Nomeadamente a vida afetiva? Sim. Eu queria ser um soldado da 'grande causa'. Quando era novo o meu objetivo era ganhar o suficiente para poder ser revolucionário todos os minutos da minha vida.

Arrependes-te dos sacrifícios que isso implicou para os teus filhos? Quem diz que não se arrepende de nada é parvo, ou santo, logo se vê. Também é bem feito porque nunca saberão (risos). É obvio que me arrependo de coisas. Acho que nunca soube equilibrar algumas coisas. Os meus filhos são a principal.

O André, o mais velho, já vive contigo em Bruxelas? E a partir de setembro virá o segundo, o Frederico.

Que tipo de pai és? Imponho alguns limites.

Castigas? Fico chateado. E ele não sai dali enquanto não lavar a loiça, por exemplo. Não é um castigo, é fazer o que tem de fazer.

Alguma vez bateste nos teus filhos? Duas ou três vezes, no máximo. Sou tolerante, mas exijo responsabilidade. Outro dia, em plena campanha eleitoral, descobri que o meu filho mais novo fumava.

Tu que fumavas desde... Os 12! Não tinha argumentos. Mas tenho cancro no pulmão e o meu filho podia ter pensado um pouco. Ele andou anos a azucrinar-me a cabeça para eu não fumar! O problema é que eu falhei algumas promessas. Comportei-me como um político e ele atirou-me isso à cara. Fizemos um acordo: eu furo a orelha se ele deixar de fumar. Ele pediu para esperar até final de julho. Vamos ver...

Como é que reagirias se um dos teus filhos não gostasse de política? O mais velho interessou-se agora. O mais novo começou a perguntar-me quais eram as diferenças entre o comunismo e o capitalismo...

E nunca te perguntaram o que era isso de ser de esquerda? Digo-lhes que o que distingue a esquerda da direita não é uns serem pelos pobres e os outros contra. Não posso dizer que o tio Paulo é um malandro! Está é firmemente convencido de que é preciso que haja ricos suficientes para que depois possa haver menos pobres. Eu, pelo contrário, acho que é preciso tirar algum dinheiro aos ricos para acabar com a pobreza.

Tu e o teu irmão são um bom exemplo das diferenças entre esquerda e direita? Pertencemos a espectros políticos opostos, mas com a grande virtude de terem propostas claras. Não é um debate de batota, são partidos de pendor ideológico. O CDS, PSD e PS acham que a sociedade precisa de ser melhorada, o Bloco e o PC acham que ela precisa de ser transformada. A partir daqui, tudo é mais subtil. Quando o Bloco nasceu, eu dizia que nos tempos que correm ser social-democrata já é ser um grande revolucionário.

O Bloco é muito diferente do que era no seu início. Foi sempre construído sobre duas pernas: combinar um tema de ambição maioritária imediata (a reforma fiscal foi o primeiro) e concertar com outros ditos fraturantes, em que o primeiro foram as drogas. Até fiquei conhecido como o 'Miguelinho dos charros' por ter ido distribuir 'mortalhas' para o Bairro Alto. Fizemos o mesmo com o aborto, depois com o casamento gay e faremos com a eutanásia: transformar um tema minoritário num tema social suscetível de mudar a sociedade.

As questões fraturantes não tornaram o Bloco refém? Não, a crise relegou para um lugar tão terciário os chamados temas de comportamento que deixámos praticamente de falar deles. Os anos de maior consolidação do Bloco são os da crise, 2007/2008.

Aí a perceção da crise ainda não existia. É quando ela estala e quem a pagou foram os desempregados. Nessa fase, o culpado era tão óbvio, que as pessoas estavam recetivas ao discurso do Bloco de que a banca devia ser penalizada. Pela primeira vez conseguimos ganhar a batalha ideológica de que os inimigos da classe média não eram os imigrantes, os pretos, ou lá quem seja, mas os banqueiros. É a resposta à crise que nos dá o resultado dos 10%. O que é que isto tem de fraturante? Há uma ideia feita sobre o BE. De quem nos vaticinou um fim à vista e que nos viu não só ter sucesso como ter ambição de Governo.

Dizes tu agora! Dissemos desde o princípio.

Mas quando vos propuseram, recusaram. Também se te oferecem veneno tens o direito de recusar, não? Não é uma ambição de Governo em abstrato é uma ambição para aplicar uma política!

Para quando forem maioritários? Não tem de ser! Tal como as coisas estão, não temos condições de ter um Governo influenciado pela esquerda. Seria sempre fortemente limitado pela teoria da 'soberania limitada' do Brejnev aplicada à União Europeia. É preciso encontrar outra solução de Governo.

Com o PS? Isto não passa pelo PS que temos, porque está sequestrado pelo memorando. Mas passa por uma tentativa de tirar o mais depressa possível o PS dessa lógica.

O BE dá uma imagem de partido de Governo? Nunca foi verdadeiramente confrontado com essa situação. É um problema de quadratura do círculo: um Governo de esquerda precisa de uma maioria, e ou isto se faz sobre os escombros do PS, ou é o PS que pressionado pelas circunstâncias faz essa viragem. Nós temos de ser uma parte da solução de Governo, o que implica alianças ou um quadro recomposto da esquerda portuguesa, que é a nossa aposta de sempre. O Bloco é um instrumento, não único, dessa recomposição.

Nestas eleições, parte dos descontentes de esquerda voltaram ao PS... Nem nós nem o PS somos donos desses eleitores. O problema destas eleições não teve a ver com a qualidade da proposta política do BE - foi a mais sólida em 13 anos e, paradoxalmente, a mais moderada. A dificuldade não foi explicar porquê votar no Bloco, mas sim 'para quê'.

Se nem sequer reuniram com a troika. O Bloco não reuniu porque não quis! Foi um clamoroso erro. O nosso programa eleitoral era bom, mas não tinha como ser transformada em realidade. O resgate financeiro criou um contexto que transformou os temores das pessoas em inevitabilidades: ele era necessário para ter salários em junho, ou subsídio de férias.

Estás a desculpar o Bloco. Isso não aconteceu ao PC. Não é agradável a resposta: é a diferença entre um partido com 90 anos e outro com 13. O PC depende de um voto que é familiar, que tem gerações, regiões, Câmaras e sindicatos. E já perdeu muito, já teve mais de um milhão de votos! A certa altura está de tal maneira no osso.

E os 5% não são o vosso osso? Há essa hipótese. Mas o Bloco não tem eleitorado consolidado. Diria que os 5% não são o nosso núcleo duro, ele é ainda mais baixo.

Faz sentido um partido tão pequeno querer ser o pilar da recomposição da esquerda? E onde estava o CDS há dez anos? Não era o partido do táxi? Não está hoje como o mais respeitável parceiro do Governo? Não há nada escrito.

E quanto ao Bloco? Quando se tem uma grande derrota, como foi o caso, a tendência mais imediata é para o enconchamento. É uma tendência inevitável que decorre da lei da perda. Outro ponto de vista, mais difícil, é dizer que perdemos num caminho, mas ele tem de continuar a ser tentado. Para mim, o caminho continua a ser o da reconstrução da esquerda, popular, que valha 20% para cima.

O Bloco pode crescer com os mesmos fundadores? Um partido de esquerda a sério é um coletivo. Os quatro fundadores têm uma enorme autoridade, mas temos de fazer uma análise sem vacas sagradas, nem tabus. Eu quero que todos nós quatro saiamos, mantendo-nos úteis a um projecto político.

Qual é o horizonte da saída? Um ano e meio, dois anos.

Há gente para vos substituir? Há, o Bloco tem rostos e outras soluções de direção. Não há só o rei morto, rei posto. Podem jogar-se soluções funcionando com vários rostos. O que não é reproduzível no futuro é o modo como nós os quatro dirigimos o Bloco, nem o tipo de legitimidade que tínhamos e que nos permitiu fazer uma espécie de democracia iluminada. Os velhos devem ter o cuidado de não querer tutelar um processo de geração.

E como se faz? A questão-chave é saber se fica um partido que vive de correntes ou, pelo contrário, se se constrói pela base como um projeto unitário de descorrentização. A situação exige um Bloco com assinaláveis diferenças relativamente ao que era, a política de alianças tem de ser reconsiderada.

Com o PC, PS? E com independentes. Até agora o Bloco procurou sempre crescer à custa do PS. Essa competição não desapareceu, mas interessa-lhe que o PS continue sequestrado pelo Governo de direita no Parlamento? A tática do BE tem de ser a de confrontar permanentemente o elo fraco desse campo, entre os compromissos que o PS assumiu com o memorando e as expectativas da sua base de apoio. O BE tem de ter a inteligência de o fazer bem feito. Vamos precisar de muito povo na rua e de lhe dar esperança.

O vosso alvo vai ser o PS? O nosso alvo é o Governo! O meu problema é saber como debilito a sua política tão rápido quanto possível. O elo fraco do sistema de poder é o PS.

Saíste da Comissão Política do Bloco, acabou o teu sonho da recomposição da esquerda? Não desisti de nada. Não me demiti de pensar, nem de escrever, nem de ajudar. De qualquer modo serei deputado.

A doença mudou alguma coisa? A noção da precariedade da vida.

Não estavas à espera... Foi mero acaso. Aí percebi que muita gente tinha cancro, que isto é uma enorme cooperativa. A segunda coisa que aprendi foi que quando se tem cancro uma vez, tem-se para sempre. Entre as coisas que podemos fazer para o fintar é tornar o nosso modo de vida menos stressante.

Mudou o que tinhas estabelecido? Para ser inteiramente franco, não. Mas como a vida se torna mais curta na nossa cabeça, mesmo que se possa viver com cancro a vida inteira, acelera algum tipo de balanço de vida.

Tens a preocupação de deixar um legado? Só para mim: gostar de cá ter estado, porque procurei ser um tipo decente, com algumas asneiras até, mas que fiz algo com que me posso sentir bem. O legado político, de algum modo, é o Bloco.

Sentes necessidade de reparar erros? Admito que tenha algo disso com os meus filhos.

Mas na prática ninguém se reaproxima dos filhos para compensar o tempo que não esteve com eles. Reaproxima-se para ver se está algum tempo com eles.

A possibilidade da morte aproximou-te do teu passado religioso? Nem um bocadinho.

Mas tens um sentido de missão muito grande... Tenho, não é preciso ser religioso para isso. Ficou-me, obviamente, do cristianismo e do comunismo. E não é defeito, é feitio, quer dizer, depende das vítimas.

A doença aproximou-te da tua família? A minha mãe disse que tinha percebido que, afinal, não tinha uma família, mas duas. A gente do Bloco que me ia ver, e a família, os amigos. E entre as pessoas que sentiram muito o meu cancro estiveram, obviamente, o meu irmão e a minha irmã.

Também te ensinou a perceber quais são as pessoas fundamentais da tua vida? O meu irmão já era. Mas fiquei mais próximo e, se calhar, ele até ficou muito mais próximo de mim. Foi um apoio forte.

Houve situações de conflito de interesse com o teu irmão? Quando o Bloco fez dos submarinos arma de ataque, ou quando Louçã usou contra o teu irmão o argumento de que ele não tinha filhos... Louçã sabe que não esteve bem e acabou por o dizer. Não foi um momento cómodo para mim. É diferente a questão dos submarinos: a minha posição política é a do Bloco, mas evitei sempre ser eu a levantar essa bandeira.

No caso dos submarinos entram questões do foro da honestidade. Num mercado como esse, a disputa das empresas pela venda do seu material envolve sempre luvas. Não tenho dúvidas sobre isso, mas nada me indica que o meu irmão tenha sido recetor. Tem de ser tudo investigado e tiradas todas as conclusões, esteja, ou não, envolvido o meu irmão.

E se estiver? Incomodar-me-á. Acho que o conheço o suficiente. Nunca lhe perguntei se recebeu luvas, como é evidente. Era o que mais faltava!

Telefonaste-lhe a dar os parabéns nas eleições? Claro! Ele fez uma grande campanha, não cometeu erros e só aumentou 1%! A direita tem um grau de ingratidão absolutamente extraordinário!

Está a falar o Bloco ou o irmão? Está a falar o irmão. E o jornalista objetivo.

Vocês conversam? Como é evidente! Trocamos impressões e às vezes temos conivências surpreendentes sobre matérias de que ninguém suspeitaria!

Ficaste contente por ele chegar a ministro? Não acho que chegar a ministro seja prémio para ninguém. Se alguém pensa que sim, acho que pode ter ideias sobre a sua vida um pouco mais interessantes.

Mas há quem ache. É uma das razões pelas quais não temos tido governos brilhantes.

Era uma coisa pela qual o teu irmão lutou. Não fico contente por o meu irmão ir para um Governo que eu vou combater. Mas ele tem um nível de obsessão pela política muito superior ao meu. A razão pela qual tenho de escrever livros é exactamente para evitar a carga de droga dura que a política traz.

Estás a 'desintoxicar'? Sempre o fiz. Não se está na política ao nível da representação sem se gostar do palco. Eu tenho mais medo dele do que gosto do palco. Transfigura as pessoas e raramente para melhor.

Mas a política não é a mais nobre das profissões? E é também um enorme exercício de poder. Para quem não tem consciência disso, transforma-se numa tragédia.

Achas que o teu irmão não tem? Penso que tem a lucidez de saber que a política não é um mundo de virtudes.

Achas que ele vai ser um bom ministro? Os ministros dos Negócios Estrangeiros são sempre os mais poupados.

E já mudou de tom na conversa contigo? Não quero comentar. Vamos trabalhar nas mesmas áreas. Ele vem do euroceticismo para um europeísmo condenado e eu, que sempre fui convictamente europeísta, sou hoje muito mais cético do que quando entrei no Parlamento Europeu há sete anos. Os valores proclamados contam tão pouco que é muito difícil não se ter uma enorme deceção.

Com 27, é sempre complicado... Estamos no fim de um ciclo em que os ultraconservadores do Norte decidiam a política e os socialistas do Sul executavam-na. Isto só acaba com o esmagamento do Sul e dos partidos socialistas no Sul.

Ainda não chegámos ao fundo? A Europa tem larguíssima responsabilidade no tipo de soluções encontradas, invariavelmente tardias. E quando toma a decisão, já está desajustada das necessidades. É uma permanente corrida atrás das realidades.

A Europa pode acabar? Pode, basta que a crise que se abata sobre ela seja superior às suas forças. Temos uma enorme crise de qualidade de lideranças e do ponto de vista económico a Europa é mais ultraliberal do que os EUA. Percebe-se no Parlamento Europeu a violência do conflito ideológico, ao mesmo tempo que cresce a olhos vistos o ceticismo e mecanismos de egoísmo social brutais.

Como eurodeputado sentes-te a falar para o boneco? Coloquei-me muitas vezes essa pergunta. Há alturas em que me sinto absolutamente inútil, mas noutras sinto que conto.

 

 

 

"A primeira vez, andava eu no 4.º ano do liceu, no Pedro Nunes. Eu e um amigo organizámos uma greve de silêncio de uma semana a dois professores, uma coisa terrível, que exige um grau de consciência e obediência absolutas. O professor diz "Bom dia!" E a turma nada. "Que foi, perdeste a língua?" Nada. A turma cumpriu, nem um furou. No fim, o meu amigo foi expulso e eu não, porque a minha mãe foi lá pedir. Não lhe falei durante quase meio ano. Achei intolerável que eu tivesse sido beneficiado por uma cunha miserável!"

"Foi na sede antiga, na António Serpa, estava eu à espera de um camarada e vejo-o vir, com o Octávio Pato, que eu já conhecia. O Cunhal cumprimenta-me e eu trato-o por você: "Muito prazer em conhecê-lo." E responde ele: "Entre camaradas tratamo-nos por tu!" Estive para não lavar as mãos durante três semanas! Era uma das formas do Cunhal para dominar a mente da rapaziada; era de uma arrogância psicológica!"

"Foi em 1999, já ele estava doente e semirretirado do partido. Fiz um trabalho sobre o Melo Antunes, revelando que ele e o Cunhal se tinham encontrado os dois antes do 25 de novembro. Precisava da confirmação dele. Eu não estava à espera, mas ele recebeu-me. Esta malta que trabalha para a História gosta sempre de deixar as coisas em pratos limpos. Não desconfirmou e pude publicar."

"Teve a ver com a minha saída da organização, quando fui para a tropa. Era costume nessas condições o camarada presidir a uma sessão - a minha foi de um Congresso do Ensino Superior. A malta combinou apresentar uma moção a favor da legalização do aborto e assim foi. O Cunhal, ali presente, 'piurso', aquilo afetava a Igreja e não podia ser. No fim, foi aprovada esmagadoramente a favor com apenas quatro votos contra: o do Pina Moura e os que eram do Comité Central. Foi de tal modo que quando o Pina se aproximou do Guterres até me telefonou a confirmar a história. Mas o Cunhal, que no final da conferência se fartou de zurzir na malta, três meses depois lançou a Zita Seabra na Assembleia com a legislação sobre o aborto. Ele percebeu que a mudança era tão evidente que mais valia surfar a onda. Foi a primeira vez que o PC abordou um tema fraturante."

"O processo da Casa Pia é complicado, resulta de uma aliança de interesses. Não foi só o Ferro Rodrigues que esteve entre as fotos, o Louçã também. Esteve um ano em todas as fotografias e inquéritos, até ao momento em que decidiram que o alvo seria só um, o PS. O Louçã revelou-nos isso (à direção do Bloco) quase no fim: a alternativa era ou ele saía ou eles desistiam. Desistiram."

"Fizemos um debate público na televisão, éramos ambos candidatos à Câmara de Lisboa. Tínhamos de fazer uma discussão séria e não simulada, sem tentar esmagar o outro, embora o que toda a gente quisesse era ver sangue na família, Falámos antes e combinámos que os temas centrais seriam a polícia e a droga. Às tantas estava ele a defender que queria mais polícias e eu a sustentar que eram precisos menos ladrões!"

Texto publicado na revista Única de 23 de julho de 2011