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Menores de 18 a pisar no acelerador

Quase todos os microcarros conduzidos por jovens sofrem alterações mecânicas para atingirem mais velocidade.

Helder C. Martins e Maria Barbosa (www.expresso.pt)

Saem dos stands de automóveis como manda a lei, com a velocidade limitada a 45 quilómetros/hora. Na estrada, e durante semanas, nada distingue os microcarros guiados por jovens, dos chamados 'mata-velhos' ou 'papa-reformas', veículos que se popularizaram no grupo etário dos idosos. Findo o período de rodagem, de mil quilómetros, e para alívio dos adolescentes, os carrinhos entram numa oficina para serem trabalhados por mãos experientes, e saem de lá a dar 60 ou 70 quilómetros/hora.

"Retiramos os limitadores de velocidade e abrimos os injectores de gasóleo, para o combustível chegar mais depressa ao motor", conta um dos mecânicos ao Expresso. E mais velocidade implica trocar também os travões por discos maiores. A 'operação' ronda os 300/400 euros e não há quem não a faça. Afinal, "que jovem compraria um carro limitado a 45km/h?", diz.

Os pais não só pagam como assumem o risco. Nenhuma destas alterações é feita sem a assinatura de um dos encarregados de educação numa minuta. "Em caso de acidente, não assumimos a responsabilidade". Muito menos quando a sugestão de trocar o motor de 400cm3, com que os microcarros ligeiros saem de fábrica, por um mais potente, é feita até pelos clientes. Custa mais de mil euros mas o pequeno quadriciclo de 350 quilos pode chegar aos 95 quilómetros/hora.

Nada disso surpreende Pedro Monteiro, agente oficial da Aixam (a marca mais vendida em Portugal e na Europa), na zona de Sintra, procurado pela classe alta residente em Cascais, Estoril e Restelo. "São as zonas com maior concentração de microcarros", comenta. E isso é visível à porta das escolas privadas da Linha, como os Salesianos ou os Maristas, onde o estacionamento é hoje um bem escasso.

Diogo vive a três minutos do Liceu do Restelo, tira sempre o carro da garagem

Diogo vive a três minutos do Liceu do Restelo, tira sempre o carro da garagem

Tiago Miranda

Na Escola Secundária do Restelo, Diogo Pereira Dias, 17 anos, estudante de Ciências, é um dos cinco alunos que vão de carro para as aulas. A pé, e a andar devagar, a vivenda onde mora com a mãe não fica a mais de três minutos de distância do liceu. E isto em linha recta. O que não impede o adolescente de sair com o pequeno Aixam cinzento-metalizado (pequeno de mais para os seus 1,80m), e percorrer uma rua. O pior é quando chega atrasado. "Os professores metem-se sempre comigo", conta. Também nos corredores do liceu se tornou mais conhecido, mas a popularidade extra nem sempre é positiva. "Notei que algumas pessoas começaram a falar comigo só porque tinha carro". Na expressão dele, "o melhor foram as namoradas". Com o microcarro, vai num pulinho a Cascais ou à Ericeira, onde faz surf com os amigos. Admite que circula a mais de 45km/h, mas com o pai ali ao lado, atento às suas palavras, não diz até quanto "puxou pelo carro". Mas "pode-se dizer que todos os quilómetros contam, quando estou a falar com amigos que também têm microcarros". E são muitos.

Alguns, como ele, guiam desde os 14/15 anos e nem sequer têm a carta de condução B1, obrigatória desde 2005 para guiar um quadriciclo. E que obriga a passar por uma escola de condução, fazer o exame de código e tirar 12 aulas práticas. Tal como centenas de adolescentes, Diogo aproveitou um furo na lei, em 2007, que ainda permitia adquirir microcarros registados como motociclos. E que facilitava a vida dos mais jovens: bastava uma licença de moto, tirada até num curso especial da Prevenção Rodoviária, para conduzir um microcarro.

Com a introdução do Documento Único Automóvel, este alçapão legal foi corrigido, garante Miguel Iglésias, administrador da Microcar. "Neste momento, nenhum veículo entra em Portugal com a designação motociclo", o que trouxe graves prejuízos ao negócio (ver caixa).

Segurança em causa

A segurança e fiscalização deste tipo de veículos são os aspectos críticos fundamentais para o presidente do Automóvel Clube de Portugal. "Não se conhecem teste de segurança feitos a este tipo de carros", salienta Carlos Barbosa. "A própria polícia não os conhece bem para saber se foram transformados ou não". E ao contrário do que acontece com o tuning, não há uma inspecção rigorosa.

"A directiva europeia não obriga a inspeccionar este tipo de veículos", diz uma fonte do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres (IMTT). Porém, "Portugal está a trabalhar no sentido de os motociclos, ciclomotores, triciclos e quadriciclos virem, em 2010, a ser abrangidos pelas inspecções periódicas obrigatórias", acrescentou. Quanto à fiscalização deste tipo de veículos, ela compete às autoridades policiais, no âmbito da fiscalização do Código da Estrada. Mesmo aí, a confusão, está instalada. E os próprios condutores adolescentes já perceberam isso. Numa das vezes (não tão raras quanto isso) em que Diogo deu boleia a mais três amigos, dois deles deitados no porta-bagagens, um polícia travou-lhe a marcha. Lá dentro, temeu-se o pior. "Pensei que ia ser multado. Mas disse ao agente que o carro tinha quatro lugares e ele mandou-me seguir".

"Não se conhecem testes de segurança feitos a este tipo de carros" Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal

"Não há prova de que estes veículos sejam perigosos. Em países como a França ou Itália, a sinistralidade é muito reduzida. As motos atingem mais velocidade" José Manuel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa

"A maior parte dos alunos de microcarros 'fugiram' dos motociclos. Hoje, são poucos os que aqui chegam para tirar a carta de moto" Carlos Mina, director da Escola de Condução do Restelo

"É só passar na zona de Cascais e ver os miúdos a guiar microcarros. Houve uma perversão do conceito de carro utilitário. E, claro, falta fiscalização e sanções adequadas" Manuel João Ramos,presidente da A-CAM

As vendas de microcarros acompanham a tendência geral da crise que afecta o sector automóvel, e estão longe dos anos de ouro que terminaram em 2005, com a aprovação do novo código da estrada (e que lhes trocou a designação de motociclos pela de quadriciclos) De Janeiro a Julho, foram vendidos em Portugal 468 microcarros novos, quando no mesmo período do ano passado foram 468 viaturas que saíram dos stands. Uma quebra de 37,3% revelam os dados da Associação nacional de Empresas do Comércio e Reparação Automóvel (Anecra).

Para o representante da Aixam, Pedro Monteiro, a procura é menor mas os jovens ainda representam 70% das vendas. Já o seu concorrente mais directo, Miguel Iglésias, da Microcar, defende que "não há mercado para os mais novos", desde que a lei os obriga a tirar a carta de condução B1, aos 16 anos.

"Comprar um microcarro deixou de ser rentável. Em menos de dois anos, o jovem já pode guiar um veículo ligeiro". Para o presidente da ANECRA, Ferreira Nunes, a evolução do mercado vai passar mais por um aumento "muito suave das vendas do que por uma redução". Isto porque os mais novos, ainda que gostem de andar de automóvel, "só por excepção é que andam nesse tipo de carros".

13.900

euros é o valor-base de um topo de gama cabriolet da Aixam. O modelo mais caro está avaliado em 14900 euros. As versões mais simples, Crossline e Roadline, e também as mais vendidas, rondam os dez e doze mil euros

84

microcarros foram vendidos pelas três principais marcas francesas que dominam o mercado, Aixam, Microcar e Ligier, durante o mês de Julho. No mesmo mês, em 2008, saíram dos stands 117 veículos

Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Setembro de 2008