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Mário Soares alerta para "falsas religiões" em Portugal

"Testemunhas de Jeová são coisas do tipo comercial", disse o antigo Presidente no 5º Fórum Interdisciplinar de Professores, em Braga.

Joaquim Gomes (www.expresso.pt)

Mário Soares, presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, alertou para a existência em Portugal de "religiões que não são religiões, mas sim seitas", referindo "as Testemunhas de Jeová, que me afligem muito, porque são coisas do tipo comercial, mais do que religioso".

Falando em Braga a título pessoal e nunca enquanto presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, o antigo Presidente da República salientou que "as pobres das pessoas não percebem, mas está é que é a verdade, as pessoas perdem muito dinheiro com essas seitas".

Mário Soares falava sobre a religião nas sociedades contemporâneas durante o 5º Fórum Interdisciplinar de Professores, na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Católica, a convite da Pastoral Universitária da Arquidiocese de Braga.

Invasão de 'religiões'

"A invasão de 'religiões' verifica-se sobretudo através da imigração brasileira vêm essas 'confissões' e muitas outras coisas", afirmou o antigo secretário-geral do Partido Socialista, acrescentando que "os protestantes evangélicos são muito fanatizados".

Mário Soares considera "mau" e "de mau gosto" a colocação de minaretes em templos religiosos islâmicos, "como em Portugal parece que vai acontecer", porque "é uma questão de bom senso".

Soares afirmou que "em hospitais e sobretudo em escolas, que são laicas, não é correcto que estejam símbolos religiosos, mas nas escolas e hospitais privados, ninguém tem nada a ver com isso e põem os símbolos que quiserem".

"D. António Ribeiro concedeu-me audiências secretas"

Mário Soares revelou em Braga que durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso) que se seguiu ao 25 de Abril e 1974, o então cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, concedeu-lhe audiências secretas, nunca na sede do Patriarcado de Lisboa, mas num convento próximo do Chiado".

"No momento mais difícil do PREC, o senhor patriarca ajudou-nos, eu pedi-lhe várias audiências e tive algumas, parte delas secretas", disse Soares, destacando que "ele prestou-nos grandes serviços" a nível da estabilização do país. Uma das ajudas foi "ter dado ordem aos católicos para naquela célebre manifestação [a da Alameda, em Lisboa] comparecerem em força e isso foi de extrema importância".

Amizade intensificada em assalto

"A nossa amizade começou quando por insistência minha eu o então primeiro-ministro, Adelino da Palma Carlos, apresentamos cumprimentos ao cardeal-patriarca, mas "a amizade intensificou quando tentaram assaltar o Patriarcado de Lisboa e além de alertar os mais altos representantes do Estado promovi uma manifestação a favor do Patriarcado, contra essa ideia do assalto, que era a pior coisa que nos poderia acontecer, seria uma coisa trágica e de uma inconsciência incompleta, que se conseguiu evitar".

D. António Ribeiro teve depois "um amuo comigo", aquando de um congresso do PS, em que eu me distraí meia hora quando fui fumar um cigarro e foi aprovada a ideia de avançar para a lei do aborto", disse Mário Soares, explicando que "ainda tentei evitar a aprovação da moção, mas já não consegui apaziguar tal confusão e votaram a favor da liberalização do aborto".

A zanga de D. António Ribeiro com Mário Soares durou até que o secretário de Estado do Vaticano, Agostinho Casaroli, numa visita a Portugal, apertou as mãos de ambos no final de um jantar oferecido pelo então primeiro-ministro.