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Manhã atribulada na Portela

No dia em que entraram em vigor as novas regras de segurança nos aeroportos europeus, centenas de passageiros foram surpreendidos pela impossibilidade de transportar simples garrafas de água.

Sónia Aragão chegou esta manhã bem cedo ao aeroporto de Lisboa, com a filha e o marido, para apanhar o voo que a levaria rumo a Cancun e a umas férias de sonho na Riviera Maya. Esta seria mais uma entre tantas outras viagens que realiza com frequência, não fosse ter tomado conhecimento apenas no dia anterior, das novas regras de segurança impostas nos aeroportos da União Europeia.

A família Aragão mora no Porto, mas foi em Leiria, onde passaram a noite para evitar atrasos na partida do dia seguinte, que tomaram conhecimento das novas medidas de segurança, quando ligaram a televisão. “Não sei se a agência de viagens me deveria ter informado ou se também eles tomaram conhecimento pelos meios de comunicação”, referiu. Na bagagem de mão levava cinco pequenos sacos de plástico fornecidos no «check-in», com dezenas de medicamentos líquidos para a filha, que sofre de problemas respiratórios. “Tenho receio que os medicamentos não passem no ponto de controlo”, dizia antes de se aventurar na fila para a triagem que, por volta das 11h, estava bem mais pequena do que algumas horas antes. Apesar de não possuir qualquer documento de prescrição médica, que teria de apresentar se solicitado pelos seguranças nos postos de controlo, Sónia pôde levar para a cabina tudo o que a filha iria precisar durante o voo: medicamentos, leite e umas sopas instantâneas. “Quando uma pessoa viaja com uma criança, tudo se torna mais complicado”, desabafou.

Uma opinião também partilhada por Manuel Silva, que leva na bagagem sopas, iogurtes e fruta para os três filhos. “Isto em princípio será para a nossa segurança, embora transtorne um bocadinho”, referiu.

Um garrafão de água na bagagem

Menos sorte teve Irene Rodrigues, uma cabo-verdiana a viver em Lisboa, que se preparava para embarcar com um garrafão de água de cinco litros na mão. “Quero levar água que fui buscar a Fátima para o meu filho que vive em França. Foi ele que me pediu. É para o coração”, rematou. Um caso insólito que não comoveu os funcionários da ANA. Irene levava mais quatro litros que o permitido e foi alertada por um agente da autoridade. Disse que quando passou no «check-in», ninguém a informou.

Em declarações ao EXPRESSO, o director da ANA, Francisco Severino (ver caixa), garantiu que as companhias aéreas estão preparadas para sensibilizar os passageiros logo à chegada ao «check-in». “É necessário que façam a triagem logo no 'check-in', para que os produtos líquidos superiores a 100 mililitros sejam colocados dentro da bagagem que segue para o porão. Quem insistir em levá-los consigo tem que se sujeitar às medidas impostas”, explicou. O mesmo é dizer que, cada um dos produtos transportados – sejam champôs, cremes, ou pastas dentífricas – não pode ultrapassar os 100 ml e deve ser acondicionado em sacos de plástico com fecho, com as medidas padrão de 19 por 20 centímetros. Em suma, cada passageiro só pode levar um litro de líquidos na bagagem de cabina.

Caos aliviou ao final da manhã

Uma vez despachadas as malas para o porão, os passageiros dirigiam-se para o ponto de controlo de segurança. Alguns bebiam o resto do conteúdo das garrafas de água, à pressa, impedidos de as levar consigo para dentro do avião. Outros lamentavam a sorte de alguns produtos íntimos, cremes e perfumes em recipientes de capacidade superior a 100 ml, barrados nos pontos de triagem. “Uma inglesa tinha uma mochila com um champô de 250 ml e um creme de rosto, com 500. Eu pedi-lhe desculpa, mas tive de deitar fora as duas embalagens”, afirmou Francisco Severino, que fez questão de acompanhar de perto as operações. Desde manhã cedo que os altifalantes alertavam os passageiros para as novas medidas em vigor, mas mesmo isso parece não ter sido suficiente para evitar confusões. “As pessoas deixam tudo para a última da hora, quando estão em cima do acontecimento”, desabafou.

Ao final da manhã a situação estava já regularizada. Por várias vezes os trabalhadores do aeroporto de Lisboa movimentaram as baias orientadoras das filas, adaptando-as às necessidades do tráfego, para facilitar o escoamento dos passageiros. O caos vivido nas primeiras horas do dia deu origem a alguns atrasos nos voos e a filas compactas que chegaram até às passadeiras rolantes junto ao balcão da TAP. Durante a tarde, a zona das partidas regressou à normalidade, embora nos próximos dias possa ainda ocorrer alguma demora. “É natural que isto leve mais dois ou três dias a normalizar”, avisou o director da ANA.

O saldo do primeiro dia de entrada em vigor das novas medidas de segurança não foi animador. O EXPRESSO soube que só durante o período da manhã, registaram-se atrasos em 25 voos (uma média de 35 minutos de atraso) no aeroporto de Lisboa. A maioria tinha como destino ou provinha de aeroportos europeus.

TRÊS PERGUNTAS A FRANCISCO SEVERINO 

A ANA fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir o normal funcionamento do Aeroporto de Lisboa?

Sim, reunimos com as companhias aéreas na passada sexta-feira. Numa primeira fase decidimos que se fizesse a triagem antes do «check-in». Mas dado o volume de tráfego que existe no Aeroporto de Lisboa, verificou-se ainda durante a manhã que era preferível haver dois pontos de triagem – um junto ao «check-in» e outro antes do «boarding control» – para que não houvesse grandes filas na zona do raio-x.

Estas regras também se aplicam a compras efectuadas pelos passageiros nas lojas francas?

Nas lojas francas as pessoas podem efectivamente levar as embalagens normais (sem limite de quantidade). Têm é que ter cuidado quando vão em transferência. Aí é que é exigido o saco transparente selado. Por exemplo, uma pessoa que venha do Aeroporto de Faro, onde comprou umas garrafas no «free shop», chega aqui ao Aeroporto de Lisboa e fica na zona de transferência, à espera do voo seguinte. Se por acaso esse voo se atrasa, ou se o embarque demora mais de quatro ou cinco horas e a pessoa decide sair do aeroporto, vai descer pela alfândega e entra na zona pública. Quando regressa novamente, se vier com um saco do «free shop», não passa.

O que é que aconselha a quem vai viajar nos próximos tempos?

Que as pessoas procurem esclarecer-se para que não tenham dúvidas relativamente ao que podem levar consigo para a cabina, dentro do saco de plástico.