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Mamma mia! De Bizet aos ABBA

Na véspera do lançamento do seu novo disco com canções dos ABBA, o EXPRESSO falou com a meio-soprano sueca.

A conversa começou com uma grande gargalhada, quando revelei a Anne Sofie von Otter que a Rainha Isabel II, conhecida por não apreciar música clássica, prefere dançar – presume-se que com o Príncipe Filipe – ao som das canções dos ABBA. A grande cantora sueca tem a reputação de ser difícil de entrevistar, de falar por monossílabos e de não esconder o seu enfado por ter de responder pela enésima vez às mesmas perguntas. Gosta de ser admirada, mas não gosta de ser amada. Fui falar com ela a Santa Fé, no Estado do Novo México, onde se encontrava a cantar a Carmen (em estreia, na América). O pretexto era o seu novo disco com canções dos ABBA – o grupo pop sueco lançado nos anos 1970 para concorrer ao Festival da Eurovisão (que ganhou com «Waterloo», em 1974). O acrónimo foi construído com as iniciais dos nomes dos quatro membros do grupo - Agnetha, Anni-Frid, Benny e Björn. (Note-se a paridade dos sexos; até nisto os suecos são pioneiros.) O CD leva o título duma das canções mais famosas, I Let the Music Speak, e é uma espécie de «Benny Andersson Songbook». Será também com este programa que a cantora abrirá a temporada da Gulbenkian, a 4 de Outubro próximo. Em Santa Fé, Anne Sofie von Otter apareceu-me tostada pelo sol, resplendendo saúde, aberta e franca, como se me conhecesse de há muito. Até cantarolou para mim uma canção dos ABBA! Mais atraente e simpática do que as fotografias deixam antever, é, como todos os escandinavos, uma mulher consciente e orgulhosa da sua idade (embora pareça uma década mais nova).

Tem dito que a música dos ABBA é eminentemente sueca. No entanto, a maior parte das canções é cantada em inglês. Será que os suecos se sentem mais livres quando se exprimem numa língua estrangeira?
É mais fácil aos compositores de canções suecos escrever em inglês, para não parecerem ridículos. Tradicionalmente, a canção sueca ou é de raiz folclórica ou é uma piroseira. Por isso, os melhores compositores foram criando gradualmente uma biblioteca de canções em inglês. Mas não se esqueça de que os ABBA começaram em sueco. E que muitas das suas canções têm aquela melancolia suave, muito própria do meu país. Björn Ulvaeus escrevia canções em sueco, mas como é um bom linguista começou também a escrever em inglês. A princípio, as letras eram um pouco coxas, mas com a prática foi melhorando.

«The Day Before You Came», que conta a rotina de um dia da vida duma mulher antes de descobrir o amor, tem uma letra excelente, ao nível do melhor Sondheim...
Sim, mas creio que essa foi a última canção gravada pelos ABBA. Havia toda uma experiência acumulada. Era inevitável que fossem melhorando.

O que admiro neste novo disco é o uso instrumental – mas muito variado – da sua voz. A simplicidade com que canta «I Walk with You, Mama» está a milhas da malandrice de «I Am Just a Girl» ou do tratamento mais operático que empresta a «Ut Mott Ett Hav», do musical «Kristina...».
Comprei o último álbum dos ABBA, The Visitors, por volta de 1984, no princípio da minha carreira, quando estava em Basileia. Sentia saudades do meu país. Está cheio de pequenas histórias diferentes, cada uma com os seus sentimentos e atmosfera: a menina que vai para a escola e a mãe que a vê crescer e o tempo a passar («Slipping Through My Fingers»), o rapaz que responde a um anúncio para encontrar uma namorada («Two for the Price of One»), a mulher que corta com o amante e se sente depois sozinha («One of Us»). É isto que me atrai nas canções dos ABBA. Histórias comuns, cheias de verdade, contadas com simplicidade e frescura através de melodias que vão direitas ao coração. Gosto de as cantar com a minha voz natural. Kristina fran Duvemala é um musical mais elaborado, sobre os emigrantes suecos que vão para a América, a pedir outro estilo.

E o que pensa o seu amigo e colaborador, o pianista Bengt Forsberg, deste disco?
No mínimo, encarou este projecto com sentimentos contraditórios. A princípio, não concordava mesmo nada. Musicalmente, não aprecia as canções, acha as harmonias demasiado simplórias. Mas o que o choca verdadeiramente é o lado financeiro que está por detrás do «crossover», ou o que quer que se chame a este fenómeno – o contraste entre os milhões que há para a música pop e os tostões para a clássica. Mas este disco não vai fazer a fortuna de ninguém. Ultimamente, o Bengt começa a dar-me razão, a perceber porque é que eu gosto destas canções e a sentir que o Benny Andersson é um melodista inspirado.

É conhecida pelo seu interesse num repertório fora do comum, demonstrado, por exemplo, nos surpreendentes extras que costuma cantar no fim dos recitais – às vezes, uma canção dos ABBA...
Ah, isso devo-o ao Bengt. É ele que anda pelos livreiros antiquários e «bouquinistes» à procura de melodias esquecidas, em folhas de música esfarrapadas. Muita coisa é para deitar para o lixo, mas às vezes encontra algumas jóias. Foi ele que me deu a conhecer Korngold e Cécile Chaminade. No entanto, o lado mais pop sou eu que escolho. Cresci a ouvir música pop, a apreciar os Beatles o pai era diplomata em Londres, os Crosby, Stills & Nash e outros grupos. Todos nós passámos por isso e temos os nossos preferidos. E os ABBA são suecos.

Para mim, estas versões são superiores às originais, também graças aos arranjos.
Quando compõe, Benny sabe muito bem o que quer em termos sonoros, de timbres – cordas, percussão, guitarra eléctrica, onde entra o vibrafone ou o clarinete, etc. Ele não sabe música, mas tem um universo sonoro dentro da cabeça e é muito específico quanto àquilo que pretende do orquestrador. No caso do musical Kristina... colaborou com Anders Eljas, que fez a orquestração. Anders é também responsável por alguns dos arranjos deste disco; outros são de Georg Wadenius, amigo e colaborador de longa data. Experimentámos muito, usámos várias formações instrumentais e penso que o resultado é bastante sofisticado.

A sua preocupação com este tipo de repertório também quererá dizer que Schubert está «morto» de tanto ter sido cantado?
Oh, não, de modo algum! Bem, agora é Mozart, Mozart, Mozart, e estou farta até aos olhos! Não quero ouvir mais. Mas depois de estar algum tempo de dieta, o gosto volta e sinto a necessidade de cantar Mozart, mas aos poucos. O segredo, para manter o interesse, é não abusar. O problema de Schubert é a sua aparente simplicidade. Precisa de um intérprete dedicado que imprima a sua personalidade naquela música, um intérprete capaz de digerir as notas e de as transmitir duma forma nova – e isso é difícil. É mais fácil fazer Mahler ou Brahms, ou mesmo Schumann, onde o drama e a tormenta estão à superfície, bem audíveis.

Talvez o «I Let the Music Speak» – a canção-título do seu novo álbum – seja um «An die Musik» de Schubert para os nossos tempos...
[Começa a cantarolá-lo para recordar a letra; é uma canção que mostra a música a tomar conta do corpo] Porque não?

Aqui estamos no meio desta paisagem admirável, com a cordilheira do Sangre de Cristo à nossa frente, e a razão é a sua segunda «Carmen», depois da de Glyndebourne, em 2002. O que me chocou foi o contraste entre as suas duas interpretações, sendo esta muito mais sombria e pessimista. O céu de trovoada parecia concordar. Como compara as duas produções?
Não gosto de fazer as coisas uma única vez. Gosto de as melhorar e aprofundar. Ansiava cantar novamente a Carmen, mas desejava um encenador menos controlador do que o que tive em Glyndebourne David McVicar. Por isso, recomendei Lars Rudolfsson, com quem já tinha trabalhado em Estocolmo. Fora também o encenador de Kristina... O conceito dele é honesto. Quis desbastar todo o folclore de postal e concentrar-se no essencial – contar a história duma maneira linear e directa. Também me sentia agora muito mais segura do papel, mais capaz de arriscar. Li a novela de Mérimée – não a tinha lido da outra vez – e percebi que a Carmen é uma cigana, que dispara em todas as direcções. Tem sentido de humor, gosta de se divertir, mas se algo corre mal explode e há uma mudança dramática.

Que é o que acontece no II acto, quando percebe que o José não está disposto a abandonar tudo para a seguir...
Exactamente.

Surpreendeu-me aquele seu aparecimento durante o prelúdio...
Essa aparição simboliza a seriedade com que a história vai ser narrada. Desmistifica todo o folclore e o blá-blá-blá espanhol acerca da Carmencita, todo aquele crescendo de interesse que é muito difícil de justificar. Ao verem-me, todos ficam a saber quem eu sou e como sou. E a ópera é a história daquela mulher.

Acha que a Carmen está apaixonada pelo José?
Não está muito. A Carmen tem uma grande dificuldade em se apaixonar. Gosta de homens, tem relações, mas são passageiras. Reconhece no José um lado brutal que a fascina. Mas depois conhece Escamillo, um toureiro famoso, um homem de posição, e especula que talvez seja altura de mudar de vida, de abandonar a faina do contrabando, sempre dum lado para o outro, e assentar com um só homem. Talvez... Não tenho a certeza.

A Carmen é um daqueles personagens, como o Don Giovanni, o Peer Gynt ou a Hedda Gabler, inesgotáveis - um poço sem fundo. Sabe que Göran Gentele [o famoso encenador sueco que morreu em 1972 num desastre de automóvel, poucos meses após assumir a direcção do Met] queria que Birgit Nilsson fizesse a Carmen...
Não estou a vê-la...

E que Karita Mattila está tentada a cantar a «Carmen»...
Essa já percebo porquê!

Quais foram as grandes Carmens que viu?
Agnes Baltsa, absolutamente extraordinária. Vi mais umas duas ou três produções, mas em nenhuma delas a protagonista parecia confortável no I acto. A grande dificuldade é o I acto. Depois das coisas se complicarem, quando a história começa a sério e a Carmen se zanga, etc., torna-se mais fácil.

No I acto escolheu fazer uma Carmen quieta, sem arrebiques, como Christa Ludwig.
O I acto é impossível. Há tanta antecipação que não há maneira de corresponder à expectativa. Quanto menos se fizer, melhor é.

Que eu saiba, nunca cantou música espanhola (Falla, Granados, etc.), mas canta a Carmen e a Concepción (em «L’heure espagnole», de Ravel). Acha que a Carmen é mais francesa do que espanhola?
Bem, no princípio da minha carreira cheguei a cantar Falla; Granados, nunca. É preciso dominar a língua. Mas para responder à sua pergunta: com certeza! A Carmen é muito mais francesa do que espanhola. Os espanhóis são mais violentos. Basta ouvi-los falar – os sons da língua, disparados como uma metralhadora – para perceber isso. Mesmo o flamenco – sim, eu sei que o flamenco não é originalmente espanhol – é fracturado, marcial, agressivo. Os franceses são mais suaves. Oiça o dueto com Escamillo, no último acto. Não há nada de espanhol ali.

Percebo agora a sua opção por uma Habanera lânguida e ciciada, como se fosse uma «mélodie» francesa. Já agora, de todos os papéis que tem interpretado, qual o personagem mais parecido consigo?
[parando para meditar] Julgo que nenhum! Não é o Cherubino, nem o Sesto [de La Clemenza di Tito], nem Oktavian. Bem, esses talvez tenham em comum comigo um ou outro aspecto menor, sem grande interesse. Olhe, talvez seja a Carmen! Nunca tinha pensado nisto. Não digo a Carmen sedutora, mas sim a mulher de temperamento cortante, grande preocupação de honestidade e grande sentido de altivez. Quanto à Mélisande, não faço a mínima ideia de quem ela é. É esse o fascínio: representar convincentemente um «não sei o que estou a dizer». Tenho pena de não a ter feito mais cedo, mas vou cantá-la outra vez no próximo ano, em Copenhaga. Mas preciso de ter cuidado. Uma Mélisande com 55 anos? Será credível? [Na realidade, Anne Sofie tem apenas 51 anos.]

Experiências boas e más com encenadores?
[ela prefere mencionar as más] Como sabe, faço pouca ópera – umas três produções por ano –, e a maior parte não são produções novas, mas reposições. Foi o caso do Met com o Pelléas et Mélisande [originalmente encenado por Jonathan Miller]. As produções mais desagradáveis são aquelas em que o encenador não tem ideias, não sabe o que está a fazer. Foi o que aconteceu em Paris, com uma ópera de Handel.

O «Serse» dirigido por Gilbert Deflo?
Esse mesmo. Foi um fiasco. Durante os ensaios, senti logo que não íamos a lado nenhum. Ugghh!!! Não me importo nada, se o encenador quiser, de fazer o pino, etc., desde que haja verdade no conceito. Mas Deflo não sabia nada, não dava nenhumas orientações. As coisas não encaixavam umas nas outras. Ainda tentei modelar o personagem num actor sueco que conheço, mas não resultou. A verdade é que quando o encenador não sabe, o melhor é esquecer e passar adiante! A Ariodante em Paris, pelo argentino Jorge Lavelli, também não prestou. Ultimamente, não tenho tido sorte com Handel.

Mas a gravação (com Minkowski?) é soberba!
Ah, sim, isso foi outra coisa.

Considerações vocais à parte, quais os papéis que gostaria de ter cantado?
[sem hesitar] Nada de bel canto! Olhe, gostava de poder cantar as heroínas de Janácek e Chostakovitch. Mulheres maltratadas, com problemas graves – mulheres agredidas pelos homens, com sogras velhacas; raparigas solteiras que engravidam. Marie, em Wozzeck, seria outro dos meus papéis.

Precisamente o seu oposto. Como Carmen, que gosta de ser sempre o centro de todas as atenções, ao contrário do que acontece consigo.
É esse o desafio; de outro modo, não vale a pena.

Há ainda outros papéis que gostaria de ter feito mais cedo e que só agora vai fazer, como Didon em «Les Troyens», de Berlioz [em Genebra, em 2007].
Sim, fiquei muito desapontada, para não dizer pior quando John Eliot Gardiner preferiu outra cantora. Mas vou experimentar Wagner: Brangäne em Los Angeles, em 2007, com Esa-Pekka Salonen, e Waltraute em Aix-en-Provence, com Simon Rattle, em 2009.

Verifico que tem mais sorte com os maestros... Há uma dúzia de anos exprimiu o desejo de se reformar aos 40 anos de idade...
Não, nunca disse isso! Sei que há muitos cantores que fazem planos para se retirar e depois continuam, sem saber quando parar. Gösta Winbergh (1943-2002), por exemplo, dizia que queria deixar de cantar aos 50, mas como estava em excelente forma continuou. O que eu disse é que se a voz começasse a falhar parava logo, mesmo que fosse aos 40. Mas gosto imenso de cantar. Se escolhi esta carreira foi porque queria cantar até aos 100!

Parecia-me um bom fecho para a conversa, mas Anne Sofie estava disposta a continuar. Sabendo que eu a tinha visto em Estocolmo, em «L’heure espagnole», perguntou-me se conhecia outras produções dessa ópera e como as comparava com a da Ópera Real sueca? Infelizmente, a minha experiência era antiga e limitava-se ao São Carlos – as famosas récitas de 1964, com Denise Duval e Gabriel Bacquier. Digo-lhe que tinha achado piada à produção da Kungliga Operan, com palco giratório e personagens a moverem-se mecanicamente – um artifício que Von Otter, ao contrário dos outros artistas, desempenhava na perfeição.
Era essa a ideia do encenador. Quis transformar-nos em autómatos, no meio daquela relojoaria. A música de Ravel, muito mecânica, pede isso. Clic, clic. Mas os meus colegas tinham dificuldade em manter esse tipo de movimentação, o que muito frustrou o encenador. E as pessoas perguntavam: onde estão as árias, as melodias? Não há...

Podia ter feito também a Criança, na outra ópera do duplo programa Ravel, «L’enfant et les sortilèges»...
Pois podia, e bem gostava. Mas aos 50 anos? Já não estou em idade de fazer de criança. Há limites, mesmo para uma actriz... Viu aqui The Tempest [a nova ópera do jovem Thomas Adès, em estreia americana pela Santa Fe Opera]?

Sim, vi e gostei bastante.
Também eu. Acho que é uma obra que vale a pena. Toda a gente fala de Adès, Adès, Adès. Estava curiosa. Claro que há coisas na partitura de que gosto menos, que acho que não resultam, mas a impressão global é excelente. Curiosa a influência de Britten, não acha? Principalmente o Britten do Midsummer Night’s Dream – com aquela alternância entre os dois níveis sonoros: sons surdos, bastante terrenos e arabescos aéreos verdadeiramente estonteantes.

Tinha ido a Santa Fé para falar com Anne Sofie von Otter e acabava a ser entrevistado por ela. Falámos sobre a beleza da paisagem que nos rodeava, a altitude (2500 metros), a pureza do ar, a luz do sudoeste americano. Mas isso já não interessa aos melómanos. Mesmo assim, recomendo a viagem.