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Lisboa adere a overdose homeopática

Sábado de manhã, no Príncipe Real, em Lisboa, ativistas dos direitos dos consumidores participam numa ação para desmistificar os medicamentos homeopáticos.

 Grupos de ativistas dos direitos dos consumidores de todo o mundo vão participar no sábado numa overdose de medicamentos homeopáticos para demonstrarem que estes não produzem qualquer efeito. Em Lisboa, a iniciativa decorre no Príncipe Real, pouco depois das 10h. 

"No dia 5 de fevereiro, um grupo de ativistas dos direitos dos consumidores em Portugal - e muitos mais em pelo menos 26 países - vão participar numa overdose maciça de produtos homeopáticos, para informar as pessoas sobre o que aquilo verdadeiramente é, apenas uns comprimidos de açúcar, sacarose e lactose, sem nenhum princípio ativo lá dentro", explica à Lusa Pedro Homero, membro do grupo 10:23 Portugal, responsável pela ação que decorrerá em Lisboa. 

Pedro Homero explica que os defensores da homeopatia "partem do princípio de que um ingrediente que provoque um sintoma vai curá-lo, mas só funciona se esse princípio ativo for diluído". "E quanto mais diluído mais potente seria. Acham ainda que para que faça efeito é preciso que nessas consecutivas diluições seja abanada a diluição. Porque ao abanar, uma espécie de energia vital, que nunca provaram que existe, sairia desse princípio ativo", refere Pedro Homero. 

Diluição e dinamização

A homeopatia é, de acordo com o médico Francisco Patrício, presidente da Sociedade Homeopática de Portugal (SHP), "uma modalidade médica criada por um médico alemão no século XIX", sendo a terapêutica o que a distingue da medicina tradicional. 

"Na homeopatia utilizam-se medicamentos homeopáticos, que se caracterizam por diluição e dinamização. Qualquer substância - não é preciso ser vegetal, mineral ou animal, pode ser sintética - pode ser homeopatizada", disse, clarificando que "homeopatizar é diluir e dinamizar é agitar, cada vez que se dilui agita-se". 

A iniciativa foi marcada para as 10h23, explica Pedro Homero, "em referência à Constante de Avogrado, que é o ponto a partir do qual já não existe probabilidade estatística de existir uma só molécula daquilo que se dilui".  

"Em termos de produtos homeopáticos, isto acontece numa diluição de 13C (uma parte da substância diluída em 100 partes de água, repetido 13 vezes), mas muitos produtos homeopáticos chegam a 30C, 100C ou até 200C", esclarece.

O presidente da SHP explica que o homeopata tenta "encontrar a semelhança entre o medicamento e o quadro clínico do doente, os sintomas e sinais que a pessoa apresenta".  

A título de exemplo, o médico refere o caso de uma pessoa que tenha insónias, "vai para a cama, mas a cabeça não desliga e está com nervoso miudinho". "Isto faz-me lembrar uma pessoa que bebe café demais. Mesmo que não seja devido ao café, vai dar-lhe café diluído. E isto resolve. Tratamos a doença com a doença", afirma. 

"Homeopatia é a semelhança"

Segundo o médico, "o que caracteriza a homeopatia é a semelhança", então recorre-se a "um medicamento que provoca numa pessoa saudável (na homeopatia fazem-se experiências em pessoas saudáveis) um quadro clínico parecido com aquele que o nosso paciente tem". "É isso que caracteriza a homeopatia por definição científica", sustentou.

Os ativistas dos direitos dos consumidores defendem, com base em testes "rigorosos", que "uma pessoa ao tomar um produto homeopático pensa que está a tomar um medicamento, quando não é, e pensa que vai funcionar e só com o poder da sugestão a pessoa acha que vai ficar melhor e fica melhor". 

"Esses testes descobriram que tomar isso ou um comprimido de açúcar dá exatamente o mesmo resultado. Isso é importante que as pessoas saibam", defende Pedro Homero.