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Julgamento do 'Angolagate': "A senhora não é o Ronaldo!"

Na última audiência do julgamento do "Angolagate", o juiz ficou impressionado com as enormes somas pagas por Pierre Falcone à sua secretária e exclamou: "A sra. Delubac não é o Ronaldo!"

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

Isabelle Delubac foi generosamente paga por Pierre Falcone, considerado pelo tribunal o cérebro da montagem de um complexo negócio de venda de armas russas a Angola, nos anos 90 do século passado.

Além do salário, a secretária de confiança do franco-brasileiro-angolano Pierre Falcone terá recebido cerca de 750 mil euros de 'luvas' - "para comprar o seu silêncio", sublinha a acusação.

Falcone assumiu ter feito os pagamentos, mas disse que lhe deu o dinheiro para a recompensar pelo seu trabalho. "Por vezes trabalhava com horários loucos", explicou em tribunal o "mandatário do Governo angolano".

Falcone é suspeito de ter distribuído centenas de milhões de euros em comissões a personalidades francesas e angolanas, para facilitar o negócio da compra de armamento por Angola.

"O senhor Falcone veio ter comigo um dia e disse-me que lhe daria prazer oferecer-me uma prenda", disse a secretária na audiência. A acusação considera que Isabelle Delubac estava a par de todos os negócios da empresa (incluindo as comissões ocultas) que Falcone dirigia com o seu sócio Arcadi Gaydamak, um israelo-russo-franco-canadiano julgado à revelia.  

Thierry Delubac, marido da secretária e igualmente arguido no processo, disse ao juiz que, no mundo das empresas, acontece por vezes este género de "situações excepcionais".

"Tudo é relativo, nos meios desportivos há pessoas que chutam nas bolas e ganham milhões", acrescentou. O juiz-presidente, Jean-Baptiste Parlos, respondeu-lhe de imediato : "Mas a senhora Delubac não é o Ronaldo!".

Pierre Falcone disse que as somas foram pagas com dinheiro angolano, depois de ter obtido luz verde dos seus "mandatários". O advogado do casal avançou com a seguinte justificação para as 'mãos largas' do franco-brasileiro: "Talvez Pierre Falcone tenha sido atingido por uma generosidade compulsiva".

O julgamento, no qual estão a ser julgadas diversas personalidades francesas e nenhuma angolana, prossegue em Paris até fins de Março.

A defesa dos diversos réus pediu entretanto, hoje, a anulação do julgamento por vício de forma durante a instrução.

Angola continua a considerar que este processo viola a sua soberania, por abordar um caso relacionado com o "segredo de defesa" do país.