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Atualidade / Arquivo

José Álvaro Moisés, Director do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo

Como avaliar a mudança do cenário eleitoral de última hora?
As mudanças já vinham ocorrendo, mas acentuaram-se por duas razões: pela ausência do candidato Lula no último debate e pela divulgação de fotos com o dinheiro que, em condições supostamente ilegais, foi mobilizado para pagar um dossiê destinado a prejudicar a candidatura dos opositores de Lula e do PT. No Brasil, cada vez mais, os governantes têm de prestar contas. O eleitorado cobrou isso, através da negação de votos ao presidente Lula.

Que consequências podem advir da ida de Lula à segunda volta?
A principal será propiciar um aprofundamento do debate entre os candidatos. Ambos terão de definir melhor as suas propostas de Governo e vinculá-las ao projeto de país e de sociedade que defendem. Agora, não será mais possível os partidos esconderem-se atrás de “truques” de marketing – que continuará a ter o seu peso –, mas terão de ser mais precisos ao explicar as suas diferenças ao eleitor.

Quem ganha e quem perde com uma eventual saída de Lula?
Lula cumpriu um papel e, talvez, tenha agora de dar a oportunidade a outro. A sua política de crescimento económico foi insignificante, mas a política de juros, de câmbio artificial e de cumprimento do superávit fiscal – de forma bastante ortodoxa, diga-se – agradaram bastante ao capital financeiro e, apenas em parte, aos industriais e ao sector agrário.

A sua política de transferência de renda, contudo, beneficiou os mais pobres, sem que isso tenha significado, ao mesmo tempo, a introdução de políticas complementares capazes de retirá-los da dependência do Estado. Sendo assim, a sua eventual saída desagradará, contraditoriamente, aos banqueiros, ao mercado financeiro e aos mais pobres.

A classe média e parte do empresariado ficarão aliviados. Mas, sobretudo, será a democracia brasileira a beneficiar: Lula, nos últimos 18 meses, governou de modo a desprezar e a desmoralizar as instituições de representação, particularmente, o Congresso Nacional e os partidos. Isso, definitivamente, não é bom para a democracia numa perspectiva de longo prazo.

Por último, a sua eventual derrota será também um sinal de que a corrupção pode ser enfrentada e que ninguém precisa de “sujar as mãos” para fazer política.