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Irritação total no «calcio»

Todos os clubes envolvidos no megaprocesso de corrupção no futebol italiano recorreram da dura sentença proferida pelo tribunal desportivo. Até os bispos lamentam a «decadência» do sistema desportivo.

A ITÁLIA do «calcio» está irritada. Também o estão as sociedades desportivas, os presidentes dos clubes, os jogadores, os adeptos, os políticos e até o jornal dos bispos católicos e os consumidores-accionistas, que prepararam recursos para que lhes seja devolvido o dinheiro investido. Todos estão contra todos porque a maioria deles considera que a sentença da primeira instância do tribunal desportivo foi demasiado «exagerada» e «terrível». Porque foi «um golpe pesado» e «uma injustiça».

O povo italiano é curioso: agrada-lhe fugir às regras, goza imenso quando as autoridades apanham o vizinho que vivia na ilegalidade, mas levanta-se em armas quando  tocam nos seus interesses pessoais. Nesse contexto e para surpresa de toda a gente, o ministro da Justiça, Clemente Mastella, propôs uma amnistia para todos os implicados, quando o Parlamento há seis anos que discute sem conseguir chegar a acordo uma amnistia para os presos comuns das prisões italianas, apesar desta ter sido solicitada expressamente pelo Papa Karol Wojtyla.

O ministro da Justiça e com ele dezenas de deputados e senadores desejariam amnistiar umas cinquenta pessoas, que durante anos organizaram uma «cúpula» - como as máfias - para manipular as partidas através das arbitragens. Ganhavam ou perdiam aqueles que eles decidiam. Não o faziam apenas pelo gosto de dirigir a Liga, como deuses omnipotentes, mas sim porque, por detrás do futebol, dos jogos e dos adeptos estão os direitos de transmissão televisiva, que constituem a chave por detrás de todo o enredo

O Juventus e o Milan facturam sozinhos tanto como 15 clubes da primeira Liga. A Juve fez uma limpeza no seu interior, expulsando os dirigentes corruptos, mas o Milan não. Por isso, os condenados pela justiça desportiva estão contra a equipa de Silvio Berlusconi, que foi mantida na primeira Liga, tendo-lhe sido «apenas» retirados 15 pontos. Mesmo assim, o ex-presidente do governo manifestou toda a sua ira pela sentença: «É um veredicto político». E o seu secretário pessoal, Paolo Bonaiuti, apresentou protesto em tribunal porque a sentença «dá um golpe em quase 20 milhões de adeptos e impede a Itália, campeã mundial, de estar representada nas taças europeias».

«É uma injustiça contra o Milan», declarou Fedele Confalonieri, presidente de Mediaset, o grupo televisivo de Berlusconi. O realizador Franco Zeffirelli, amigo do ex-primeiro-ministro, convidou os adeptos «a cortar auto-estradas», «a cortar Itália a meio» e a que «não se discuta a sentença, mas sim que se anule».

«Não olhem para a Juve - a mais castigada pelo tribunal, mas sim as pequenas equipas que continuam com dificuldades e necessitam do dinheiro da televisão, dinheiro que eu não distribuía mas sim o meu competidor», ou seja o Milan. Palavras de Luciano Moggi, dos órgãos directivos da Juve, que passou à história do assunto como o «deus ex-machina» de todo o imbróglio do «futebol». Mas o interessado não o aceita.

«É preciso que saibam que, após a minha expulsão, nada mudou», gritou numa entrevista, assegurando que voltará «ao mundo do futebol como rebenta bolas», indicando «com nomes e apelidos os falsos moralizadores». Dito e feito. Uma a seguir à outra soltou todos as trapaças, jogos sujos, corrupções e chantagens de cada um dos «falsos moralizadores», começando - sem o nomear - pelo patrão do Milan.

Diego Della Valle, patrão da Florentina, afirmou que não entende porque se fala em «dar ao futebol novas regras, mas ainda não se fala dos direitos televisivos, que talvez constituam a parte principal da questão».

O político Antonio Di Pietro, ex-promotor público do processo Mãos Limpas, disse: «Como adepto da Juve, sinto-me ofendido e um pouco atraiçoado, não por quem emitiu a sentença, mas por aqueles que cometeram essas actos».

O «Avenire», jornal diário dos bispos de Itália, escreveu: «Não estamos no ano zero do futebol, mas pior». «Ninguém ri, ninguém ganhou, todos perdemos», acrescenta, lamentando as lágrimas de todos aqueles que tinham pedido «penas leves e que falavam de justiça aproximativa, de direitos não tutelados, transferindo assim para um plano político ou ideológico o que era e continua a ser apenas um processo contra a corrupção na arbitragem e contra um sistema desportivo decadente».

Cinco dias após a sentença, todos os clubes apresentaram recurso no tribunal de apelação, que deverá pronunciar a sentença definitiva antes do dia 25 deste mês, data em que a Liga italiana tem que entregar à UEFA os nomes das equipas que participarão nas competições europeias.

Também a Codacons, uma das principais associações de consumidores, fez uma chamada aos accionistas dos clubes para que utilizem os seus gabinetes para apresentar denúncias.

Uma denúncia contra Moggi também está a ser preparada pela nova direcção da Juve. Entretanto, os adeptos continuam a apoiar na Bolsa de Valores de Milão os seus clubes preferidos. Ninguém sabe quanto dinheiro perderão.

Tradução de AIDA MACEDO