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Irão por detrás do véu

Dois médicos, uma estilista, um «rocker», uma activista política, uma fotógrafa e um «ayatollah» revelam-nos um país desconhecido.  

Shila nasceu homem há 24 anos e cedo se incompatibilizou com o seu sexo. Esse desconforto, depositou-o recentemente nas mãos do cirurgião Bahman Mir-Djalali, fez uma operação de mudança de sexo e tornou-se protagonista de um dos aspectos mais surpreendentes da República Islâmica do Irão.

«Shila, podes entrar», diz Bahman Mir-Djalali a partir do interior do seu consultório. Shila abre a porta, encara com desconhecidos sentados junto à secretária do seu médico e encosta-se, envergonhada, a uma parede do consultório. «Shila, podes preparar-te. Vou já ver-te», continua o médico. Shila dirige-se para trás de um biombo, posiciona-o de modo a que ninguém ouse espreitar do outro lado e começa a despir-se. «Estão a ver? Tem os mesmos cuidados que uma mulher...», comenta Mir-Djalali.

A mudança de sexo foi legalizada após o advento da revolução islâmica de 1979, através de um decreto («fatwa») do «ayatollah» Ruhollah Khomeini, para quem estas operações eram aceitáveis, em último recurso, em pessoas cuja imagem não era compatível com o seu sexo. Pura hipocrisia, alertam os críticos ao regime religioso. A mudança de sexo não visa o bem-estar de ninguém, antes combater aquilo que no Irão é considerado um crime maior - a homossexualidade, punível com pena de morte. Formado pela Universidade de Paris, Mir-Djalali é o precursor das cirurgias a transexuais no Irão. Operou pela primeira vez há 18 anos e, nos últimos 12 anos, abriu processos a 560 pacientes, operando 420 deles. Antes de Shila, o médico tratou de um inválido de guerra na casa dos 40 anos, «com barba e bigode», recorda.

Para o cirurgião, a aceitação da mudança de sexo por parte da teocracia iraniana mostra quão «tolerante» é o Islão. «Actualmente, o governo islâmico já começa a ajudar quem quer fazer estas operações, sobretudo quem não tem nada e é alvo de discriminação social». Rejeitada pela família, Shila vive com uma família adoptiva. Também no Irão, a diferença leva tempo a ser socialmente aceite. As estatísticas dizem que os iranianos recorrem à cirurgia oito vezes mais do que as iranianas. «Os transexuais homens vivem muito pior, sobretudo nas sociedades orientais», diz o médico. «Um rapaz com comportamentos femininos, que se maquilha, etc. é mal aceite pela sociedade. Já uma mulher com aparência e comportamentos masculinos, sobretudo nas aldeias, é bem vista. No Irão, até se costuma dizer: ‘Essa mulher, que Deus a guarde, é um verdadeiro homem!’»

Um outro fenómeno social que lança dúvidas sobre a moralidade do regime é a figura do casamento temporário («sighe»). Um iraniano pode celebrar um contrato de casamento por um ano, um mês, um dia ou uma hora... Findo o período contratualizado, o marido paga à esposa uma verba acordada previamente e segue-se o processo de divórcio.

A revolução islâmica ilegalizou os prostíbulos, mas engendrou esta forma camuflada de prostituição. Os seus partidários dizem que para ser decretado o divórcio há que esperar algum tempo para ver se a mulher está grávida. Se for o caso, o homem é obrigado a assumir as responsabilidades, o que nunca aconteceria em caso de prostituição. Mas, no Irão como em qualquer parte do mundo, uma mulher que aceita casar-se nestes moldes não deixa de ser «uma mulher fácil».

A câmara indiscreta de Zohreh

Ainda não foi desta que Zohreh Soleimani repetiu a façanha de fotografar iranianas dentro de um estádio de futebol. Em Abril, o Presidente Mahmud Ahmadinejad propôs ao Parlamento a delimitação de zonas especiais para mulheres nos recintos desportivos, na crença de que a presença de mulheres e de famílias nos lugares públicos imporia «uma moralidade e um decoro saudáveis». O regime considerou anti-islâmica a possibilidade das mulheres fixarem o olhar nas pernas dos atletas e Ali Khamenei, o líder espiritual, vetou a proposta.

Assim sendo, as fotos disparadas por Zohreh no dia em que, pela primeira vez desde 1979, as iranianas entraram num estádio de futebol continuam a ter um carácter histórico no «portfolio» desta fotojornalista de 36 anos. O Irão acabara de se qualificar para o Mundial de 1998 e as autoridades organizaram uma recepção de boas-vindas aos atletas, interdita às mulheres. Centenas de iranianas forçaram com sucesso os portões de entrada do Estádio Azadi e Zohreh furou no meio delas. Com a objectiva, captou não só a paixão das iranianas pelo futebol mas sobretudo a sua determinação em lutar pela igualdade de direitos. «Depois aproveitei a chegada dos jogadores para me escapar. Tinha medo que me tirassem os negativos. E foi assim que consegui publicar o meu primeiro trabalho fora do Irão», recorda Zohreh.

Nove anos depois deste episódio, esta reivindicação das iranianas continua entregue a formas criativas de luta. Aquando do último jogo de preparação da selecção iraniana antes do Mundial da Alemanha, dezenas de mulheres, com bilhete na mão, tentaram entrar no estádio. Foram impedidas, mas não se deram por vencidas. Colocaram um aparelho de televisão no exterior do estádio e ali ficaram a ver o jogo, até à polícia chegar.

Desta vez, Zohreh não estava lá, logo ela que também está habituada a contornar imprevistos. Na juventude, fintou o destino que a projectava como engenheira civil e inscreveu-se na Universidade de Arte de Teerão, onde estudou fotografia durante quatro anos e se apaixonou por Sebastião Salgado. Entrou no mercado de trabalho com facilidade, mas rapidamente se confrontou com os limites à liberdade de expressão. O regime era implacável com quem o criticava e os jornais reformistas onde Zohreh trabalhava fechavam uns atrás dos outros.

«Há sete anos decidi não trabalhar mais para jornais iranianos. Desisti e comecei a trabalhar como ‘free-lancer’ para a imprensa ocidental». Evita assim chatices diárias, mas não se livra de riscos. Se publicar numa revista estrangeira fotos de iranianas a maquilharem-se, por exemplo, pode ter sérios problemas. Acresce que há certos acontecimentos, sobretudo de cariz religioso, que, por ser mulher, Zohreh não está autorizada a fotografar, «nem mesmo de chador», diz. Só muito raramente fotografias do líder espiritual Ali Khamenei são tiradas por mulheres.

Cansada destas limitações, a fotógrafa começou a apostar na reportagem. Há cinco anos, rumou até ao Afeganistão, palco da guerra pós-11 de Setembro. Queria fotografar os campos de refugiados junto à fronteira com o Irão para um projecto da UNICEF. «Durante uma semana travei uma luta para entrar no Afeganistão. Diziam-me que as leis tinham mudado e que eu tinha de regressar a Teerão para obter uma autorização nova. Eu era mulher, estava sozinha e eles não queriam deixar-me passar. O comandante do posto militar estava chocado por me ver ali sozinha. Então eu disse-lhes: ‘Se vocês não me autorizarem a passar a fronteira, eu entro ilegalmente. Suborno alguém e entro. Não tenho outra opção. Preciso de trabalhar’. Eles olhavam para mim e pareciam pensar: ‘Mas quem é esta mulher?’». A fibra de Zohreh deu frutos e lá acabou por atravessar a fronteira.

Se fores, apanhas!

Quando recebeu o EXPRESSO no apartamento onde funciona a organização Iranian Civil Society Organizations Training & Research Center, à qual se dedica de corpo e alma em defesa dos direitos das mulheres, Fariba Davoudi ainda tinha o corpo dorido das bastonadas que recebera na última manifestação em que participou. O regime iraniano teme as concentrações públicas e não enjeita a linguagem da força para as dispersar. «Tenho medo, mas ponho o meu medo de lado», diz Fariba.

Por isso, na agenda ela tinha já apontado a data da próxima manifestação - e recebido das autoridades cinco ou seis telefonemas ameaçadores: «Se fores, vais apanhar como da última vez». A última vez não fora a pior. Há três anos, Fariba esteve presa durante 40 dias numa cela solitária por ter escrito um artigo em defesa dos direitos das mulheres.

Face à lei iraniana, as mulheres têm metade do valor dos homens. «O homem é o chefe de família, é ele quem, em última instância, toma sempre a decisão final. As mulheres necessitam de uma autorização do marido para obterem um passaporte e para trabalharem fora de casa, por exemplo. Se o marido não concorda com o emprego que a mulher arranjou, um juiz pode escrever uma carta especial ao patrão dela para despedi-la. E em casos de divórcio, a lei protege os homens, não as mulheres», exemplifica Fariba.

Detentora de um mestrado em Ciências Políticas pela Universidade de Teerão, Fariba é uma mulher profundamente religiosa o que confere às suas reivindicações uma legitimidade acrescida. «Acredito em Deus, mas os outros não têm de acreditar em Deus da mesma maneira que eu», diz. Por ter uma relação lúcida com o Islão, revolta-se contra quem invoca cegamente a sua religião, sobretudo quando são mulheres a fazê-lo. Recentemente, Fatimeh Aliya, uma das doze deputadas iranianas, afirmou que a poligamia é uma forma de melhorar a sina de muitas mulheres pobres. No Irão há mulheres no Parlamento, mas escolhidas a dedo...

Em maioria nas universidades, as mulheres - metade dos 68 milhões de habitantes do Irão - são hoje o principal motor do movimento reivindicativo de direitos e liberdades. Há iranianas na política e na polícia, há advogadas, médicas, bombeiras, motoristas e até pilotos de «rally». Cantoras é que não. No Irão, a voz das mulheres é um instrumento musical proibido. Mas Fariba Davoudi não se calará, nem mesmo que a voz lhe doa.

A ovelha negra do regime

Se Hossein-Ali Montazeri fosse o líder espiritual do Irão, o regime não teria perdido a sua natureza islâmica, mas seria com toda a certeza muito diferente do que é hoje. Nascido em 1922, Montazeri foi um dos líderes da revolução islâmica de 1979 e, durante muitos anos, o sucessor natural de Khomeini, que dizia ser Montazeri «o fruto da sua vida».

Três meses antes de morrer Khomeini retirou-lhe esse estatuto. Montazeri caíra em desgraça quando começou a criticar o rumo que a revolução levava, denunciando a falta de liberdade, a repressão em nome do Islão, a interferência em eleições, o encerramento de jornais, as execuções sumárias e a perseguição aos dissidentes.

Em Outubro de 1997, foi colocado em prisão domiciliária, após questionar a infalibilidade do líder espiritual, Ali Khamenei. Montazeri continuava a acreditar nas virtudes da doutrina «velayat-e-faqih» (o governo do jurisconsulto), a pedra angular da república islâmica teorizada por Khomeini, mas considerava que a responsabilidade do Líder Supremo («faqih»), enquanto «representante de Deus na Terra», era grande de mais para uma só pessoa pelo que era de todo aconselhável que o líder não dispensasse o aconselhamento com peritos e estudiosos.

Na sua casa, o nº 328 da Haram Boulevard, na cidade santa de Qom, o «Grande Ayatollah» Montazeri recebe diariamente estudantes de Teologia, «mullahs» ou cidadãos a quem dá conselhos e tira dúvidas. Num dos topos da rua está montado um posto de vigia, com jovens guardas atentos a quem entra e sai da casa. Mal se passa o portão entra-se numa espécie de garagem onde se tira os sapatos, na presença de dois guardas de poucas falas. Depois, atravessa-se um pátio interior, que funciona como uma espécie de «terra-de-ninguém» e chega-se ao espaço de Montazeri.

O clérigo recebe o EXPRESSO numa sala simples, despojada de decorações e de novas tecnologias. Oficialmente, já não está em prisão domiciliária desde 2003, mas tem com o regime uma espécie de acordo de cavalheiros: ele doseia as palavras - pediu desculpa por não dar a entrevista solicitada pelo EXPRESSO - e o regime permite-lhe uma vida aparentemente normal.

Sentado à secretária, Montazeri não se inibe de dar conselhos: «Com a graça de Deus, espero que vocês, como jornalistas, descrevam as coisas que vêem neste país de forma independente. E não tenham medo se alguém vos questionar sobre aquilo que escreverem. Sejam vocês próprios». Ao fundo da sala, um jovem guarda assiste em silêncio a toda a conversa, para depois reportar. São os olhos e os ouvidos do regime nos aposentos do principal dissidente da revolução iraniana. Seguindo o conselho de Montazeri, em qualquer rua iraniana salta à vista a omnipresença de Khomeini em «posters», retratos, «outdoors» ou murais. O pai da revolução morreu em 1989, mas os iranianos continuam a recordá-lo como um homem bom, ainda que o regime que inspirou lhes continue a amordaçar a língua. A língua, mas não o sentido de humor... Nos telemóveis dos iranianos circulam dezenas de SMS com piadas, muitas delas injuriosas, sobre os «mullahs» e o Presidente. Uma delas diz que no dia seguinte à eleição de Mahmud Ahmadinejad para a presidência do Irão, a população de Teerão foi avisada que não haveria água nas 24 horas seguintes. Ahmadinejad ia tomar o primeiro banho da sua vida...

Hiroshima, minha irmã

Hamid Salehi é um iraniano querido em Hiroshima. Carinhosamente, os japoneses chamam-lhe «Salehi-san». Tinha apenas 16 anos quando tomou uma decisão que lhe mudou o curso da vida, alistando-se como voluntário na guerra Irão-Iraque (1980-1988). «Senti que tinha de defender o meu país», recorda. Em Março de 1982, foi surpreendido no meio de um ataque iraquiano com gás mostarda, junto à fronteira a sul. A máscara que tinha era maior do que a sua cara, pelo que só a colocou quando começou a sentir os primeiros efeitos do gás. Demasiado tarde.

Ficou 22 dias com os olhos fechados devido às inflamações e com a vida condicionada para sempre. Hoje, casado, com três filhos e um mestrado em Ciências Políticas, Salehi é um dos membros mais activos da Sociedade de Apoio às Vítimas de Armas Químicas. Quase duas décadas após o fim do conflito, mais de 50 mil sobreviventes dos ataques químicos continuam, com ele, a padecer de problemas crónicos ao nível dos pulmões, dos olhos e da pele.

Na sede desta organização não-governamental, em Teerão, uma exposição fotográfica revela como a tragédia iraniana é em tudo semelhante à de Hiroshima. «O que aconteceu no Irão é comparável a uma bomba atómica», diz Shahriar Khateri, um médico de 36 anos que assegura as relações internacionais da organização, que tem naquela cidade japonesa um parceiro de intercâmbios por força dessa geminação sentimental.

Anualmente, morrem cerca de 200 doentes. Mas o médico informa que a mortalidade decorrente da exposição ao gás mostarda, por exemplo, só atinge o pico 25 anos após o contacto com o químico. Shahriar Khateri indigna-se que a tragédia iraniana não tenha o mediatismo do gaseamento dos curdos iraquianos em Halabja (1988) e sobretudo que o isolamento do Irão na cena internacional dificulte a partilha de conhecimentos médico-científicos. «Quando os terroristas libertaram uma pequena quantidade de gás sarin no metro de Tóquio, em 1995, houve muitas contribuições por parte de médicos de todo o mundo no sentido de estudar os efeitos e ajudar as vítimas. Posso provar que foram usadas 400 toneladas de gás sarin contra os iranianos e 800 toneladas de gás mostarda, mas não houve qualquer tipo de colaboração», acusa.

O isolamento internacional do Irão tem na sua base a inimizade política com os Estados Unidos, quase tão antiga quanto a própria revolução. Nas pinturas e «slogans» anti-americanos que decoram os muros da antiga embaixada norte-americana em Teerão promete-se à América «uma pesada derrota», mas os transeuntes já não param para apreciar.

Porém, à revelia do discurso oficial, o Irão não vive de costas voltadas para a América. Nos hotéis, torcem o nariz quando o cliente tenta pagar em moeda local. «Dólar, dólar...», preferem. Os «jeans» e a Coca-Cola - ainda que os iranianos produzam a Zam-Zam, uma «Cola» nascida com a revolução, menos doce e menos gaseificada - são consumo obrigatório dos mais jovens. E a CNN está apenas à distância de uma parabólica.

Nas ruas, os iranianos expressam o seu ódio a Bush e ao seu regime e a sua admiração pelo povo americano e pela sua cultura - ou pelo que conhecem dela... No seu cartão profissional, o taxista Ebrahim Mahmmoodi, de 51 anos, orgulha-se de 25 anos ao serviço da imprensa estrangeira. Já trabalhou para jornalistas dos quatro cantos do mundo, incluindo Christiane Amanpour (CNN). É uma espécie de motorista privativo da CBS e estrela do livro Lifting the Veil: Life in Revolutionary Iran, de John Simpson, o jornalista da BBC que acompanhou Khomeini no regresso do exílio. Uma tarde, perante a curiosidade que desperta, na montra de uma livraria nos arredores da Universidade de Teerão, um livro com uma foto de Marilyn Monroe na capa, Mahmmoodi interroga: «Quem é ela? Uma jornalista?»

Anathema, só no mercado negro

Como é que se diverte um país onde 70% dos habitantes têm menos de 30 anos e os bares e as discotecas são proibidos? «Divirto-me a comer com os amigos, nos cafés e nos restaurantes», diz Rana, uma contabilista de 25 anos, que acaba de lanchar num café de Teerão na companhia da amiga Parisa, uma empregada comercial de 27 anos.

Entre os mais abonados há quem opte por andar às voltas de carro, sem planos definidos, em artérias bem-frequentadas como a Avenida Valiasr ou a Rua Jordan. Eles aproveitam para mostrar carros potentes e elas as maquilhagens. Parisa e Rana falam dessas exibições com distanciamento. Preferem realçar a frustração que sentem por não poderem escolher o seu próprio estilo de vida. «Quero poder escolher se uso ou não o lenço (‘hijab’)», diz Parisa, enquanto apaga um cigarro no cinzeiro.

Namorar no Irão é também um exercício que requer alguma criatividade. Ao fim-de-semana, o Parque Melad enche-se de jovens casais apaixonados. Sentados nos bancos dos jardins ou nos relvados do parque, conversam contidamente e privam-se de carícias, não vá um agente da autoridade estar à espreita por trás de um arbusto para punir comportamentos «decadentes». Neste contexto, tentar testemunhar um beijo ou um segredar ao ouvido é pura perda de tempo.

Na impossibilidade de se divertirem publicamente, é em casa que os jovens iranianos mais procuram a diversão, organizando festas com os amigos. Se a família tiver mentalidade para tal, os pais abandonam a casa para os filhos estarem mais à vontade; se o meio é conservador, os pais também marcam presença e tudo é mais controlado.

É também dentro de portas que a Internet veio ajudar a passar o tempo - e abrir algumas janelas proibidas sobre o mundo exterior. O anonimato dos «chats» permite a abordagem de assuntos que são tabu na sociedade iraniana, como o poder ditatorial dos «mullahs» ou a partilha de experiências sexuais. E a liberdade de expressão ilimitada associada aos blogues tornou-os meios de subversão temidos pelo regime que, de tempos a tempos, doseia essa «invasão cultural» e promove rusgas de moralidade, bloqueando sítios no ciberespaço e apreendendo equipamentos malditos, como as antenas parabólicas.

Para não arranjar problemas com as autoridades, Abolfazl, de 23 anos, cumpre as regras quando tem tempo livre. Formou uma banda com os amigos e, sob o nome artístico de Mendieta, desdobra-se nas guitarras eléctrica, clássica e espanhola. Adora «heavy-metal», mas não pratica o estilo, que é proibido no Irão. Se um dia quiser comprar CD da sua banda favorita, Anathema, terá de se aventurar no mercado negro, onde tudo se vende, da música interdita aos sucessos de Hollywood, do álcool à pornografia. Para não se ser surpreendido, a técnica é ir sempre acompanhado: enquanto um trata das compras o outro fica à coca, não vá a polícia aparecer.

Abolfazl trabalha numa loja do Capital Computer Building, uma espécie de sede da revolução digital em Teerão, muito procurada pelos jovens. Lá podem encontrar-se as últimas novidades em matéria tecnológica, de PC a telescópios, de máquinas fotográficas a mp3. Marsa, de 21 anos, namora demoradamente uma montra de telemóveis. Mana, de 15 anos, procura «headphones» para o seu «ipod». Numa montra com jogos para computador anuncia-se que os campeões de vendas são O Cógico Da Vinci e o Alemanha 2006. Na loja da Akai, o funcionário Amir, de 21 anos, diz que «o negócio está bom por causa do futebol». No Mundial da Alemanha, a selecção iraniana não conseguiu vencer nenhum jogo, mas à sua custa os iranianos travaram uma corrida aos LCD.

Com o advento da revolução islâmica, uma das máximas que tomou de assalto o quotidiano dos iranianos foi «Manter as aparências do Islão». A maneira de vestir dos iranianos passou então a ser uma montra desse desígnio. As mulheres passaram a cobrir o cabelo e a usar vestes largas e longas para disfarçar os contornos do corpo e os homens a evitar mangas curtas e calções.

27 anos depois, as regras mantêm-se, mas a revolução tornou-se mais irreverente. Pelas ruas de Teerão e em locais como o Jaam-e-jam «food-hall» ou o Ghandi Shopping Center passeiam-se cada vez mais mulheres maquilhadas, com lenços coloridos a descaírem da cabeça e calças curtas a ameaçar deixar à mostra a barriga da perna. No Ghandi Shopping Center, uma dessas «passerelles» de modernidade, as lojas têm coladas no vidro autocolantes com o perfil de uma mulher velada: «Não é permitida a entrada a mulheres sem a cabeça coberta», é a leitura que se impõe.

O regime está atento aos abusos e, sobretudo no Verão, promove campanhas contra as mulheres «mal vestidas». Nas ruas, os «basiji» - uma milícia voluntária de jovens (homens e mulheres) devotos da revolução - comportam-se como uma espécie de chicote do regime e confrontam as mulheres com vestes mais atrevidas, os homens com penteados «estranhos» ou qualquer pessoa que se atreva a passear um cão (considerado um animal impuro). Ao estilo de uma polícia de costumes, multam ou detêm os prevaricadores para os repreenderem.

É por isso que pessoas como a estilista Mahla Zamani têm de medir a criatividade que investem no seu trabalho para não terem problemas com as autoridades. A imposição do lenço após a revolução limitou-lhe a liberdade de criar, mas aguçou-lhe o apetite por desenhar roupas modernas. Em cima de um balcão no seu ateliê, na bem-frequentada zona norte de Teerão, Mahla tem expostas pequenas estátuas vestidas com trajes tradicionais iranianos que lhe servem de inspiração. Ao lado, dentro de um armário, guarda o que não pode mostrar a qualquer um: catálogos de vestidos justos e decotados usados por manequins de cabelo solto e em poses provocantes, susceptíveis de escandalizar o mais moderado dos «mullahs». Mahla trabalha sobretudo para cidadãos estrangeiros e para a alta sociedade de Teerão, habituada a festas faustosas ao estilo ocidental. «Dentro de casa, ninguém pode impor nada», precisa a estilista.

Ela veste as suas próprias criações e delas não abdica, mesmo quando tem de se deslocar a um organismo público. «Eles não gostam muito, mas eu vou assim na mesma», diz. Afinal de contas, foi ela que, em 2004, vestiu Catherine Zeta-Jones para a cerimónia dos Óscares. E uma estilista que é procurada por uma estrela de Hollywood pode dar-se ao luxo de sair à rua como quer - ou, tratando-se do Irão, quase como quer.