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Irão pode ter organizado o ataque do Hezbollah a Israel

Um dia depois do governo iraniano dizer «não» à proposta negocial apresentada pelo «chefe» da diplomacia europeia, Javier Solana, o Hezbollah atacou Israel. A coincidência leva Shimon Peres a concluir que o Irão esteve envolvido no ataque ao seu país, para desviar a atenção da crise nuclear.

«É POSSÍVEL que o ataque do Hezbollah contra Israel tenha sido organizado pelo Irão para desviar a atenção da comunidade internacional do tema nuclear. O Irão disse que não a Javier Solana a 11 de Julho e o Hezbollah agrediu Israel a 12 de Julho. Esta coincidência de datas deixa em aberto algumas perguntas», afirmou numa entrevista exclusiva o vice-primeiro-ministro israelita Shimon Peres.

E acrescentou: «É um quarteto de terror composto por dois Estados: o Irão e a Síria, por um país em processo de criação, o Hamas, e por um estado dentro de um Estado, o Hezbollah. Se eles atacarem Israel, temos que nos defender. Não temos que pedir permissão. Mas há dois Estados que constituem um perigo para a paz mundial. O Irão é uma ameaça, não apenas pelo terrorismo mas também pela sua ambição nuclear».

Para Peres, «não é que o Irão seja um país muito forte. O Irão aumentou a sua população nos últimos 15 anos, mas o que realmente aumentou foi a pobreza, cerca de 20% estão no desemprego, há muita criminalidade e gente que sofre. Além disso, o Irão não é um país assim tão homogéneo, apenas 54 por cento são persas».

O antigo líder trabalhista considerou ainda que o o Irão não atacou Israel, mas «o futuro da paz em todo o mundo. Esperamos que enquanto lutamos contra o Hamas e o Hezbollah, o mundo se ocupe do Irão».

Quanto à Síria, Shimon Peres afirmou que ela tem «um jogo duplo: diz pertencer ao eixo que luta contra o terror, quando albergam os líderes do Hamas em Damasco e transferem armas para o Hezbollah. Bombardeámos as estradas entre a Síria e o Líbano, porque descobrimos que a Síria transfere armas para o Líbano. A Síria também não é forte, a sua economia é muito pobre, o seu governo é ditatorial. O exército não é demasiado brilhante, os generais são idosos. O Irão e a Síria são membros da ONU. Há um capítulo na ONU que apela a todos os países para que não lutem uns contra os outros. O Irão nega abertamente a existência de Israel e a Síria também».

Quais são os objectivos da operação israelita no Líbano?
Não estamos a levar a cabo esta operação porque tínhamos certos objectivos. Começámos a operação porque fomos atacados. E uma vez que atacados, o objectivo é vencer, não perder. Esse é o primeiro objectivo. Queremos devolver a segurança a Israel.

O ministro de Defesa fala de uma faixa de segurança no Sul do Líbano, o que desperta certos fantasmas da invasão de 1982...
Não é nossa intenção criar uma faixa para ocupar e ali permanecer permanentemente. O que dizemos é que a fronteira entre Israel e o Líbano do lado libanês tem que ser controlada pelo exército libanês, não pelo Hezbollah. Não podemos permitir outra vez ao Hezbollah que se desloque ao longo da fronteira e fazer desta fronteira um cenário de emboscadas para que sequestrem soldados israelitas.

Haverá presença de soldados israelitas nesta faixa de segurança até que chegue a força internacional?
Não há necessidade. Haverá em certas ocasiões: se o Hezbollah voltar, defrontar-se-á com o fogo mas não haverá soldados de forma permanente. Estamos a falar de uma força internacional.

É possível criar uma força internacional? Quais seriam as características desta força?
As características são irrelevantes, a função é o que importa. Há duas questões no que se refere ao Líbano: uma é, quem será destacado para a fronteira no lugar do Hezbollah e, se o Hezbollah tentar voltar, quem o deterá. A segunda questão é o lançamento de foguetes e mísseis, se a força internacional é capaz de os controlar e deter. Se não pode, só para serem observadores não tem muito sentido. Ser observador é como informar sobre o estado do tempo: não se pode evitar nenhuma situação, limita-se a informar sobre o frio ou o calor. Por isso a questão é saber qual é a sua função, se haverá uma força que possa deter o Hezbollah, não apenas informar.

Um projéctil israelita matou 4 observadores da ONU, Kofi Annan disse que foi intencional...
Fiquei surpreendido que Kofi Annan fizesse tal declaração. Por que haveríamos de os matar? Não queremos ferir civis inocentes e naturalmente que não queremos pôr em perigo a vida de pessoas que trabalham para as Nações Unidas. Foi um acidente. Lamentavelmente, as guerras estão cheias de acidentes.

Israel é muito criticada em todo o mundo e especialmente na Europa pela morte de civis inocentes. Foram já mortos quase 400 civis libaneses durante estas duas semanas. Qual é a sua reacção a este respeito?
Não são todos os países, há muitos que compreendem e justificam as nossas acções, os do G8 por exemplo. Mas há quem diga que as nossas acções são desproporcionadas. Eu pergunto: lançar 2000 mísseis sobre cidades, povoações e kibutzim, é proporcionado? Tentar matar mulheres e crianças de forma indiscriminada? Aqueles que nos criticam conseguem impedi-lo? Podem defender-nos? Tentamos não matar civis inocentes, mas temos um problema, porque eles escondem as armas e mísseis em casas particulares. Não podemos permitir que o façam, para depois os lançarem sobre civis israelitas. Quanto a esse número de 400, parte são militantes de Hezbollah, não daria demasiado valor a esta informação. Geralmente, no Líbano os números são mas poéticos do que matemáticos.

Assegura que parte dos civis mortos são membros de Hezbollah?
Estou certo, porque fazemos todos os possíveis para não matar civis e bombardear apenas objectivos do Hezbollah. Nós não lutamos contra civis, os libaneses não são nossos inimigos, podemos conviver com eles em paz. E o Hezbollah é uma força estrangeira que não defende nenhum interesse libanês, são libaneses que lutam contra o Líbano. A tragédia libanesa é resultado da ambição iraniana, porque o Hezbollah trabalha para o Irão. Que ninguém se deixe confundir, é o Irão que os financia, os treina, lhes envia armas, lhes dá instruções? Onde se viu um exército dentro de um exército, terroristas com mísseis? Não fizemos nenhum prisioneiro, não ficámos com a terra, queremos viver em paz. Mas por causa do Irão, que quer estabelecer a sua hegemonia no Médio Oriente em vez de uma união árabe, não é possível viver em paz.

Israel recebe o apoio - pelo menos de forma discreta - de algum país árabe?
Porquê de forma discreta? Abertamente. A Arábia Saudita apoia-nos abertamente, os egípcios fazem-no abertamente, os jordanos também. Se eu fosse libanês, perguntaria para que quero eu o Hezbollah no meu país. Estão a destruir o Líbano. Quando alguém critica, toma a posição de juiz, tem que ter provas e uma lógica nas críticas.

As críticas provêm também de um dos seus colegas, o primeiro-ministro espanhol Jose Luis Zapatero, um socialista como o senhor. Como se sente ao ouvir as críticas sobre a morte de civis libaneses?
Israel não começou da noite para o dia a matar civis. E com todo o respeito pelo primeiro-ministro, o que é que ele sugere? Devemos permitir que o Hezbollah dispare de casas particulares? É uma questão de vida ou de morte. e também para os libaneses. Fomos nós que começámos? Pela primeira vez numa reunião do G8, os países mais industrializados do mundo por unanimidade declararam-se a favor de Israel, incluindo o presidente russo e o primeiro-ministro japonês. Eles dizem que têm que devolver os soldados que foram sequestrados na nossa terra, contra a lei internacional e que é preciso tirar o Hezbollah do Sul do Líbano e desarmá-lo.

Imaginava que poderia haver um milhão de pessoas nos abrigos em Israel, e cidades como Haifa, Safed, Tiberíades bombardeadas?
O Hezbollah acreditou que com um arsenal de 12 mil mísseis e rockets, no momento em que começassem a lançá-lo, Israel ia cair rendida. Mas Israel está mais unida do que nunca. O nosso país está à prova na luta contra o terrorismo. Não digo que é fácil mas não pretendemos perder. Israel foi criado há quase 60 anos. Nestes 60 anos, tivemos pelo menos cinco guerras. Alguém nos veio salvar? Não. Pedimos a alguém que lutasse em nosso lugar? Não. Tentámos ocupar? Não. Esta guerra não é diferente. No momento em que Hezbollah parar de disparar, não haverá mais perigo para ninguém, como não houve até agora.

Como explica que uma milícia de milhares de homens possa resistir perante um exército tão forte como o israelita?
Eles resistem, mas destroem o seu país. O Líbano é um país pacífico, eles invadiram-no, utilizam pretextos religiosos para fazer qualquer coisa. Acreditam que têm o direito de fazer qualquer coisa, até de matar. É a primeira vez que alguém destrói o Líbano a partir de dentro. Trata-se de uma organização liderada por fanáticos, que fazem uso da propaganda e recebem mísseis do Irão e da Síria. Disparam indiscriminadamente e o Governo libanês é fraco e não os consegue deter. É uma situação complicada.

A Síria declarou o estado de alerta máximo. Um mal-entendido poderia levar à abertura de uma terceira frente de guerra?
Não, porque não têm um exército para atacar, quem não tem exército não deseja atacar.

Com o Hezbollah muitos esqueceram-se dos palestinianos nos últimos tempos...
É isso mesmo. Retirámos de Gaza, o que querem agora? Se não tivessem sequestrado o soldado, muitos prisioneiros já teriam sido libertados das cadeias israelitas. Não sei o que querem obter lutando e lançando mísseis contra Israel. Creio que se estão a prejudicar a eles próprios.

Quem se lembra que ainda há poucas semanas o tema era a retirada de Israel da Cisjordânia e o referendo na Autoridade Palestina para reconhecer o Estado de Israel. O que se passou?
O Hamas começou a disparar outra vez. Começou a sequestrar soldados e tentou transformar isso numa estratégia de luta. Eles são a tragédia do povo palestiniano. A ambição iraniana transferiu-se para a tragédia palestiniana.

Há exactamente um ano que Israel se retirou de Gaza, e o senhor, juntamente com o primeiro-ministro Ariel Sharon, apoiou este plano. O que mudou?
O que mudou é que o Hamas ganhou as eleições. Porquê? Houve sempre um problema na administração palestiniana. Os países ricos ajudam os ricos nas zonas pobres. O que matou a Fatah não foi a ideologia, mas sim a corrupção, por isso perderam as eleições. E o Hamas começou a governar, um grupo de pessoas fanáticas que não querem a paz nem respeitam os acordos internacionais. Os palestinianos poderiam ter centenas senão milhares de prisioneiros já libertados. Quem o impediu? O Hamas. Estávamos de acordo com a criação de um Estado palestiniano ao lado de Israel. Quem o impediu? O Hamas. Não entendo as pessoas que os apoiam.

Será possível a criação de um Estado palestiniano ao lado de Israel?
Sim. Estou muito desiludido, mas sou um homem de paz. Estou decepcionado mas não desesperado. O Egipto lutou contra nós por quatro vezes antes de assinar a paz, a Jordânia participou em três guerras contra nós e qualquer um teria pensado que não havia nenhuma hipótese. Mas há e temos de manter a esperança, temos que lutar quando devemos, temos que fazer a paz quando podemos e aproveitar cada oportunidade.