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Investigação e desenvolvimento com «bugs»

O país está longe de atingir os 2.5% do PIB para investigação científica e nas áreas tecnológicas as maiores empregadoras são as multinacionais.

MAIS de 51 milhões de pessoas na UE25 estão empregadas na área de ciência e tecnologia, que ocupa cerca de 30 por cento dos trabalhadores entre 25 e 64 anos. A proporção por país varia entre 16% e 37% do total, com o Luxemburgo e a Suécia, ambos acima dos 36%, no topo do ranking do Eurostat. Portugal, no entanto, apresenta a mais baixa cifra da Europa, ou seja, 16 por cento. Muito abaixo de Malta (20%), o segundo pior  classificado pelo organismo da Comissão Europeia responsável pelas estatísticas. 

A confirmação do atraso científico e tecnológico do país não surpreende o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, que em declarações ao EXPRESSO desdramatiza a situação: «a informação do Eurostat diz respeito a dados com referência a 2003 e 2004, vindo justificar mais uma vez a prioridade dada por este Governo ao reforço da capacidade científica e tecnológica de Portugal. De facto, o «Compromisso com a Ciência » do Governo veio reforçar a necessidade de Portugal atingir 5,5 investigadores (ETI) por mil activos para o período da legislatura (eram 3,5 oem 2003 em Portugal e 5,5 na UE25)». 

Duplicar o investimento público 

Segundo o ministro da Ciência, garantir o cumprimento das metas internacionais em matéria de recursos humanos e financeiros expressos no programa do Governo exige «duplicar o investimento público em investigação científica, passando de 0.5% para 1.0% do PIB. A nossa aposta é que esse reforço pública em ciência e tecnologia vai possibilitar triplicar o investimento privado em I&D (investigação e desenvolvimento), que em 2003 era apenas de 0.24% do PIB».

Questionado pelo EXPRESSO, Mariano Gago diz existirem políticas de incentivo para que também o sector privado invista na componente de I&D. «Pode estimar-se, a partir da análise da evolução dos sectores público e privado de investigação de outros países,  e também da lição dos períodos de maior crescimento do orçamento de ciência e tecnologia em Portugal, que o aumento de fundos públicos de I&D considerado tenderá a induzir um esforço privado da mesma ordem de grandeza nos próximos anos, triplicando-se os índices iniciais de acordo com as metas fixadas», afirma.

Entre as medidas anunciadas, o ministro chama aponta a adopção de orientações de reforço obrigatório de actividade de I&D em Portugal associada a grandes investimentos (consagrando 1% do respectivo volume financeiro a I&D a executar em Portugal). Assim como para a explicitação de orçamentos e programas de I&D nas empresas do sector empresarial do Estado, tendo como valor de referência a afectação de 3% da sua facturação a actividades de I&D próprias ou a contratar em Portugal.

Sobre as medidas que o Governo está preparar para Portugal tirar maior partido do 7º Quadro de Investigação e Desenvolvimento, Mariano Gago diz que o reforço da capacidade científica e tecnológica nacional inclui a dinamização de Redes Temáticas de investigação, visando a integração de capacidades, a formação avançada, a demonstração e difusão e a cooperação internacional, designadamente em suporte às parcerias internacionais para a ciência e tecnologia e o ensino superior constituídas. «Chamo também a atenção para a recente abertura de um novo programa visando o financiamento de contratos individuais de trabalho de investigação, para doutorados, através de competição aberta, e avaliação internacional de mérito», acrescenta. De acordo com o ministro, os contratos-programa a estabelecer «cobrirão a contratação nova de pelo menos 1000 doutorados até 2009, orientados com vista ao reforço de massas críticas ou a criação de novas equipas, facilitando o reforço da participação de Portugal nos Programas comunitários, incluindo a participação acrescida de empresas».

Plano Tecnológico devia ser discutido

Segundo ainda o Eurostat, 57% dos profissionais europeus empregados em ciência e tecnologia completaram os estudos nas áreas específicas, sendo que é na  Dinamarca onde se encontra a mais elevada taxa de recursos humanos qualificados. São os homens, sobretudo, quem mais trabalha como cientistas ou como engenheiros. O número de profissionais do sexo masculinos, nesses sectores, chega a ser 2,5 mais elevado do que o de mulheres. Portugal não foge à regra.

O EXPRESSO quis saber a opinião de uma portuguesa recém- licenciada em engenheira electrotécnica, sobre questões como o emprego na área de ciência e tecnologia e o desenvolvimento da investigação em Portugal. Apesar de não concordar «na totalidade» com o Plano Tecnológico, Ana Cruz, 28 anos, acha que «se o Governo conseguisse implementá-lo eficazmente seria sem dúvida uma mais valia para o país». Todavia, defende, «o Governo devia promover mais debate sobre o assunto, envolvendo não só empresários e engenheiros, mas a totalidade da sociedade. Não me parece possível que se possa implementar um plano que visa tantas mudanças no país sem a participação real dos cidadãos em geral».

Ana Cruz - que integra o Pólo de Investigação da Siemens onde coordena um projecto na área de «upgrade» de centrais de redes móveis - acha também que se faz muito pouca investigação em Portugal. Em declarações ao EXPRESSO, esta jovem engenheira diz ter ideia «que as políticas  têm sido mais no sentido de apoiar a investigação de portugueses no estrangeiro, mas muitos acabam por não regressar. Acho que seria importante neste momento apostar na criação de condições de pesquisa em  Portugal, para os novos investigadores começarem uma carreira no país e não terem necessidade de procurar oportunidades lá fora». 

Segundo Ana Cruz, tendo em conta o «escasso» o investimento em investigação a nível empresarial em Portugal  - o Pólo de Investigação da Siemens é um dos poucos casos - o apoio é maioritariamente do Estado.«Mas o apoio por parte do Estado é insuficiente para promover a criação de centros de investigação em solo nacional. E se este problema existe na ciência e tecnologia, é ainda mais notório noutras áreas de investigação», afirma.

Esta jovem engenheira chama também a atenção para a elevada taxa de desemprego em muitos ramos da Ciência, como as áreas da Biologia, Psicologia ou Ambiente. No entanto, diz ela, «no campo das tecnologias esse problema não é tão manifesto, havendo alguma facilidade em arranjar emprego. Todos os meus colegas engenheiros electrotécnicos estão empregados, embora, em muitos casos, fora da sua especializção. A maior parte encontra-se a trabalhar em empresas de comunicações, outros em consultoras, em empresas de energia ou de desenvolvimento de SW».

Segundo Ana Cruz, as maiores empregadoras na área tecnológica em Portugal são sem dúvida as multinacionais, apesar de haver também alguma investigação em Institutos ligados às Universiades estatais. «Infelizmente noutros campos da Ciência  penso que há pouco investimento por parte das empresas, sendo o Estado um dos grandes empregadores, nomeamente na disponibilização de bolsas para investigação, na via de ensino e em instituições estatais. É nessas áreas onde a dificuldade de arranjar emprego é mais notória». 

Considera-se uma pessoa com sorte: «apesar de nunca ter sentido até agora qualquer tipo de descriminação, nem pela idade nem pelo sexo, tenho plena noção de que, infelizmente, esta não é a realidade predominante no mercado laboral em Portugal». Recorda, no entanto, que assim que terminou a licenciatura, começou à procura de trabalho na área de estudos onde se especializou: Controlo e Robótica: «nenhum dos CV que enviei obteve resposta, mas penso que a principal razão é o diminuto mercado existente nessa área em Portugal»,afirma.

Depois de passar um ano no Centro de Interacção Senso-Motor na Universidade de Aalborg, na Dinamarca (ao abrigo do Programa Erasmus/Sócrates) a desenvolver o seu trabalho final de curso, e de  agarrado a oportunidade de se juntar ao Pólo de Investigação da Siemens, Ana Cruz  foi seleccionada recentemente para o Programa de Doutoramento em Biologia Computacional da Gulbenkian, que conta com o apoio da Siemens Medical Solutions. No primeiro ano curricular, os 12 doutorandos seleccionados que compõem um grupo multidisciplinar frequentarão aulas e «workshops» no Instituto Gulbenkian de Ciência.Os outros três anos serão de aprendizagem de investigação num laboratório em Portugal ou no estrangeiro.