Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Inocências perdidas

Num barracão em Rio de Mouro, três meninas agarravam-se às ilusões do sexo pago. No Parque Eduardo VII ou no anonimato dos centros comerciais, há miúdos a venderem o corpo por um punhado de euros.

AS FESTAS de sexo, cerveja e «kuduro» vão voltar a agitar as noites na vila de Santo António, bairro degradado de Rio de Mouro, amarrado ao IC-19. A «discoteca» de dona Fátima está encerrada a cadeado, mas mesmo ali ao lado há outros barracões para foliões suburbanos de Queluz, Damaia ou Cacém. É só mudar a aparelhagem de lugar e comprar as bebidas geladas. «Talvez já este fim-de-semana haja música e meninas outra vez», afirma uma vizinha, no anonimato.

Uma tentação para Ana, de 12 anos, Esmeralda e Maria, ambas de 14 anos (nomes fictícios) que, mais dia menos dia, podem voltar a fintar a vigilância apertada e saltar os muros altos na Casa da Luz, em Benfica, em busca dos prazeres escondidos - o ciclo vicioso de miséria não acabou com uma simples rusga policial. «Elas são miúdas duras, tiveram uma vida dura e procuram avidamente aquilo que a instituição onde estão internadas não permite», comenta uma fonte policial ao EXPRESSO.

Ana, Esmeralda e Maria, três menores provenientes de famílias problemáticas, foram resgatadas esta semana por agentes da GNR e da Polícia Judiciária (PJ), no bairro esquecido de Rio de Mouro, depois do alerta dos responsáveis da Casa da Luz, por suspeitarem que elas fugiam da instituição para se prostituírem.

Na madrugada de sábado, 29 de Julho, dezenas de operacionais invadiram a «discoteca» de dona Fátima, o refúgio das raparigas, mas só encontraram duas delas (Ana e Esmeralda), a gerente africana e a sua filha de 16 anos, grávida de poucos meses. Em vez dos 60 clientes que todas as noites enchiam o espaço andrajoso, só lá estava uma dezena de pessoas a dançar. O «timing» não tinha sido o ideal. «Nunca tinha visto nada tão miserável», revela uma fonte policial. «Havia uma aparelhagem, um frigorífico para as bebidas, um espaço central que servia de pista de dança e vários corredores labirínticos, com subidas e descidas, que davam para os dez quartos de cheiro nauseabundo».


Meninas ou chamarizes?

Depois das inquirições da PJ e GNR, as duas menores foram reencaminhadas para a Casa da Luz e dona Fátima posta em liberdade - embora tenha sido constituída arguida, indiciada pelo crime de lenocínio. «Nesta fase do inquérito não se confirmam as suspeitas de que as menores se prostituíam», diz com cautela Isabel Polónia, subdirectora da Judiciária.

No entanto, o EXPRESSO sabe que elas recebiam todas as noites vários convites dos homens com quem dançavam para terem relações sexuais fora da «discoteca» de dona Fátima. «Como eram jovens, e uma delas de pele branca, serviam de chamariz à clientela predominantemente africana. As verdadeiras prostitutas tinham mais de 18 anos», garante outra fonte policial.

Maria, a terceira menor foragida da Casa da Luz, não estava nessa noite com dona Fátima. Só deu sinal de vida dois dias mais tarde, quando telefonou para o posto da GNR de Rio de Mouro, a pedir ajuda. «Ela entrou-me pelo café adentro, desorientada, a dizer que queria falar com a polícia», conta o senhor Alípio, dono do único café do bairro, local abafado onde os boatos circulam à velocidade dos copos de imperiais. «Ainda duvidei se o devia fazer, porque sabia que ela era uma das ‘meninas’ da Fátima. Mas acabei por ajudá-la».

Quando os soldados da GNR chegaram ao café, cedo perceberam que o pânico da menor não se devia a nenhum tipo de abuso sexual, como se chegou a suspeitar. A rapariga de 14 anos padece de problemas psiquiátricos e tem de ingerir diariamente a sua dose de medicamentos. Mas como estava foragida da instituição há algum tempo, não os podia tomar. «Ela teve um rebate de consciência», conclui uma agente da PJ. Maria entrou no jipe da GNR, contrafeita, em direcção ao centro de reeducação, para junto das amigas e das outras 60 menores internas da Casa da Luz. «Temos suspeitas de que há mais raparigas da instituição que visitam com frequência a ‘discoteca’. Elas exercem má influência umas sobre as outras», disserta a mesma fonte da polícia. «São as inadaptadas. Regras rígidas não é nada com elas...».


Prostituição em família

O caso das três menores da Casa da Luz é o mais recente mas não o único de prostituição infantil que a Judiciária tem em mãos. Neste momento, os agentes investigam outros cinco. «Não se pode falar em redes. São situações que acontecem no seio das próprias famílias», refere Isabel Polónia.

Todos os casos em investigação têm a miséria e o consentimento velado como pano de fundo: um dos mais intrincados é o dos dois primos maiores de idade, e homossexuais, que obrigaram a sua sobrinha de 14 anos a vender o corpo, à noite, no mesmo local onde eles se prostituíam há muitos anos. Mais vulgares, mas não menos graves, são as estórias de duas mães, ambas prostitutas, que levavam consigo as filhas de 10 e 12 anos para fazerem sexo pago.

A PJ investiga também o caso de uma miúda de onze anos que era forçada pela tia a ter sexo com homens mais velhos. E ainda o de dois rapazes toxicodependentes, que obrigavam a namorada de um deles, de 15 anos, a prostituir-se na rua, para conseguirem comprar mais umas doses de heroína. Os investigadores recusam identificar as vítimas ou os locais onde eram cometidos os crimes sexuais, mas o EXPRESSO sabe que alguns inquéritos já se encontram na fase final. «O nosso trabalho sobre a prostituição infantil é muito dificultado por na maior parte das vezes nem as supostas vítimas quererem colaborar connosco. Vêem-nos como inimigos», teoriza uma fonte da PJ.


Os rapazes do parque

Durante duas noites, o EXPRESSO percorreu a rota da prostituição infantil, em Lisboa, seguindo o mapa traçado pelo Serviço de Informações e Segurança (SIS) e PJ (ver texto «Quatro zonas negras»). Depois do clarão mediático do processo Casa Pia, os pedófilos passaram a operar de dia, a coberto do anonimato das grandes superfícies. Colombo, Vasco da Gama ou El Corte Inglés são três dos seus locais de eleição. Mas até hoje, a polícia nunca conseguiu apanhar alguém em flagrante. «Até parece que eles nos pressentem», desabafa um agente da PJ, que já esteve diversas vezes, à paisana, no FunCenter do Centro Comercial Colombo. De qualquer forma a lei ainda não prevê castigo para os clientes da prostituição infantil (ver texto «Crimes e castigos»).

Se durante o dia não é fácil perceber as movimentações, à noite é tudo feito às claras. Até à meia-noite vêem-se mais polícias fardados e à paisana do que jovens prostitutos no Parque Eduardo VII. A partir dessa hora, começam a aparecer os carros de alta cilindrada, que sobem e descem a av. Sidónio Pais, junto ao estacionamento do Pavilhão Carlos Lopes, a baixa velocidade e com o pisca ligado. «Toda a gente sabe que depois da meia-noite deixa de haver policiamento, tornando-se tudo mais fácil», revela um agente da polícia, que conhece bem as rotinas do local. Não é fácil perceber a idade dos prostitutos, mas devem andar entre 13 e 20 anos. «Se logo depois do escândalo Casa Pia até parecia que a procura e a oferta tinha diminuído, hoje voltou tudo ao ‘normal’. Até há para aí casapianos, como dantes», acrescenta o mesmo agente.