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Identificado património de origem portuguesa no mundo

América do Sul abre o inventário do património de origem portuguesa no mundo, lançado esta semana na Fundação Calouste Gulbenkian. Historiador José Mattoso diz que recordar o património construído pelos portugueses "serve de estímulo" para enfrentar a crise.  

Maria Luiza Rolim (www.expresso.pt)

Mais de 2300 edifícios e cerca de 530 sítios distribuídos um pouco por toda a parte, desde Los Palos, em Timor, até à Colónia do Sacramento no Uruguai, assinalam a presença portuguesa no mundo. Quase três anos depois de iniciada a sistematização do património, a primeira parte  do inventário foi apresentada esta semana na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, pelo historiador José Mattoso.

O primeiro de uma série de três volumes sobre o "Património de Origem Portuguesa no Mundo. Arquitectura e Urbanismo" é dedicado à América do Sul. Coordenadora da obra, arquitecta Renata Araújo, é professora na Universidade do Algarve. O trabalho é da autoria de 22 arquitectos e historiadores da arte, na sua maioria professores universitários das mais prestigiadas universidades portuguesas e brasileiras. 

América do Sul, África e Ásia 

Até aqui, as informações sobre o património de origem portuguesa no mundo eram escassas e dispersas. O projecto de reunir num só corpus a informação sobre o maior número possível de todos esses vestígios arquitectónicos e urbanísticos vem preencher essa lacuna. O trabalho, elaborado sob a direcção do historiador José Mattoso por encomenda do presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Rui Vilar, foi iniciado em 2007.

O primeiro volume, com o levantamento dos monumentos mais célebres aos mais modestos na América do Sul, em especial no Brasil, foi coordenado pela arquitecta Renata Malcher de Araújo, professora da Universidade do Algarve e investigadora da história do urbanismo sobretudo na América Portuguesa.

No Outono, será publicado o volume consagrado a África, Golfo Pérsico e Mar Vermelho, coordenado pelos professores Felipe Themudo Barata e José Manuel Fernandes. Até ao final do ano, a Fundação Gulbenkian publicará o trabalho relativo à Ásia, sob a coordenação do professor Walter Rossa.

Além de ser editada uma versão em inglês, no final do projecto serão lançados uma publicação e um CD-ROM com índices - remissivo, antroponímico e toponímico - de todos os volumes.

"Autores da primeira globalização"

Para o presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, trata-se (o património histórico) de "um imenso legado que é um dos testemunhos perenes da passagem dos portugueses pelos quatro cantos do mundo, a impressão digital dos autores da primeira globalização, expressaem milhares de exemplos de arquitectura civil, religiosa e militar e em intervenções urbanísticas de carácter único".

"Deste extenso  património edificado, a Unesco, ao integrar na Lista do Património Mundial 22 sítios e monumentos em três continentes, reconhece o seu valor universal", disse Emílio Rui Vilar.    

"Estímulo para superar a crise"

"São  construções ou urbanizações de todos os géneros, desde igrejas conventuais grandiosas como o mosteiro de S.Bento no Rio de Janeiro, até modestos padrões, como o deixado por Vasco da Gama em Melinde (...). Encontram-se nos lugares mais inesperados. Datam desde o princípio do séc.XV até aos nossos dias. Algumas reproduzem sem alterações os modelos trazidos da matrópole, como acontece com o edifício do Banco de Angola, em Luanda, imagem perfeita da arquitectura do Estado Novo; outras inovam ousadamente, como o surpreendente prédio chamado "Leão que si" projectado pelo arquitecto Pancho Guedes em Maputo", afirmou José Mattoso,na apresentação do primeiro volume consagrado à América do Sul.  

"O valor cultural deste vasto património são insofismáveis. Deixámos já de atribuir a uma missão divina as dimensões da obra realizada, mas temos de reconhecer que o conjunto representa a inegável capacidade de realização de um povo com poucos recursos", disse o historiador.

Numa comunicação que arrancou aplausos calorosos das pessoas que lotaram o auditório 3 da Fundação Gulbenkian, José Mattoso enfatizou que "o realismo do pensamento contemporâneo rejeita fantasias e ilusões; por isso dá-nos a exacta dimensão de um património que é testemunho das capacidades do povo português demonstradas durante mais de 500 anos".  

"Recordá-lo hoje, em plena conjuntura de uma crise financeira e económica que preocupa todos os portugueses pode, e creio que deve, servir de estímulo para congregar os esforços necessários à superação de mais este passo difícil da nossa história. Não devemos, porém, esquecer uma diferença fundamental: outrora, a superação da crise europeia fez-se, em boa parte, à custa da vida e do trabalho de milhares e milhares de escravos: hoje, só poderá conseguir-se com o esforço, a solidariedade e a inteligência de cidadãos livres e conscientes dos direitos humanos".   

Descobrir o Brasil e o mundo

O volume dedicado à América do Sul inclui o conjunto de núcleos urbanos e respectivos edifícios construídos no Brasil e na Colónia do Sacramento no Uruguai.

Segundo Renata Araújo, coordenadora do trabalho, das tipologias tratadas é a arquitectura religiosa a que tem o maior número de entradas. "Há igrejas no Brasil em quase toda a parte. Nas cidades, naturalmente, mas também nos engenhos e fazendas e algumas quase no meio do nada, em pleno campo, construídas como elementos votivos, como capelas de peregrinação ou como remanescentes de aldeamentos eventualmente desaparecidos".

"A arquitectura militar pontua com exemplos significativos o empenho de defesa que a manutenção do território exigiu. Mas fez-se de maneira de facto territorial procurando garantir as baías e encoradouros ou os grandes eixos fluviais e os núcleos urbanos que lhe são adjacentes e também são lidos como agentes desta mesma defesa do território. É especialmente interessante observar estes fortes, fortalezas e fortins, distribuídos ao longo da costa e dos rios da fronteira interna e ler nas suas localizações o desenho efectivo do mapa que se construiu na América", acrescentou.

Quase todas as cidades e edifícios construídas no Brasil - sobre os quais já existiam pesquisas e um importante  trabalho dispendido na sua preservação, em boa parte realizado pelo Serviço do Património Histórico e Artístico do Brasil - estão classificados, alguns a escala mundial. "E os que não estão, arrisco-me a dizer que deveriam".

"O continente que abre a colecção, a América, é o continente do novo mundo, da descoberta literal do espaço. O mote que elegi para o texto de apresentação do volume foi um conhecido verso do poeta Carlos Drummond de Andrade que diz: "precisamos descobrir o Brasil". É uma exortação pertinente e contínua, dirigida a todos. Não se trata de qualquer veleidade aventureira ou exploradora, mas de descobrir no sentido mais encantatório e permanente da palavra, descobrir pelo conhecimento, pela aprendizagem".