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Ideias erradas sobre os jovens e o mercado de trabalho

A falta de informação sobre o mercado laboral leva à proliferação de "ideias-feitas". Aqui ficam oito vícios de pensamento que urge combater.

1. O acesso à educação já não constitui um problema para os jovens.

É certo que há cada vez mais jovens a estudar, e por períodos mais longos, mas as dificuldades no acesso à educação e o analfabetismo continuam a ser "doenças crónicas" em muitos países. Na África Subsariana e na Ásia do Sul, onde a educação é um privilégio, mais de um terço dos jovens são analfabetos.

2. Como os jovens têm mais formação, não têm dificuldade em arranjar emprego.

Seria assim se a oferta de emprego cobrisse a procura. Nalgumas economias desenvolvidas, um nível superior de educação pode ser garantia de emprego. Mas em muitos países em vias de desenvolvimento, alguns com sistemas educativos bem sucedidos, o mercado não tem capacidade para absorver quem mais investe na educação.

3. Os jovens não se importam de ir acumulando trabalhos temporários até encontrar o emprego dos seus sonhos.

Esta ideia é válida quando se trata de economias em forte crescimento, logo com um alto nível de procura por parte dos empregadores. Para os jovens dos países mais pobres, encontrar um emprego no sector formal, ainda que esse trabalho não aproveite o seu talento, é um golpe de sorte. Nestes casos, a satisfação laboral é anulada pelo sentimento de segurança.

4. O desemprego é o grande desafio dos jovens.

O desemprego é só a ponta do icebergue. Tão ou mais frustrados quanto os jovens desempregados estão os jovens desmotivados e os trabalhadores pobres. O fenómeno é, porém, difícil de quantificar.

5. Os jovens são um grupo homogéneo pelo que as estratégias para lidar com os problemas do mercado laboral juvenil podem ser aplicadas uniformemente.

Haverá alguma semelhança entre um jovem na China e um outro no Burundi em termos de oportunidades de emprego? Os dois mercados são incomparáveis. O relatório chama ainda a atenção para os jovens que, dentro de cada país, enfrentam desvantagens específicas, como são os os imigrantes, as mulheres, os refugiados e os jovens que vivem em áreas rurais.

6. Dada a crescente procura dos jovens pelos centros urbanos, não há uma necessidade premente de enfrentar os problemas do mercado laboral rural.

O êxodo de jovens das áreas rurais para as urbanas tem, quase sempre, na sua origem a procura de oportunidades e de melhores condições de vida. Mas em todo o mundo, o sector agrícola, por exemplo, continua a empregar mais de 40% da totalidade dos trabalhadores – é o sector que mais emprega na Ásia e na África Subsariana. Por outro lado, as taxas de desemprego tendem a ser mais altas nas zonas urbanas, em virtude do congestionamento provocado por um fluxo contínuo de migrantes em disputa por um número limitado de postos de trabalho. Está também provado que a criação de emprego nas áreas rurais tem mais impacto no combate à pobreza do que nas urbanas.

7. Os jovens são pobres porque não trabalham.

Se há pobres que conseguem sobreviver sem trabalhar, em virtude do apoio da segurança social, em geral as pessoas que vivem em condições de extrema pobreza não dispõem dessas benesses. Para estes, o trabalho torna-se um meio indispensável à sua sobrevivência. A nível mundial, cerca de 125 milhões de jovens trabalhadores vivem com menos de 1 dólar por dia.

8. Os programas de criação de emprego devem dar prioridade aos adultos em detrimento dos jovens.

Esta constatação parte do princípio de que os adultos têm famílias para sustentar. Mas a generalização de que os adultos têm mais necessidades financeiras do que os jovens é pressupor, por exemplo, que os jovens se resignam a ficar em casa dos pais quando têm vontade de constituir o seu próprio agregado familiar. Por outro lado, esta concepção não leva em conta os custos sociais do desemprego jovem: perda de auto-estima e exclusão social. A sociedade sai sempre a perder.