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"Há um grande número de doentes que podem beneficiar desta descoberta"

Descobriu com o seu colega Andrew Fire um mecanismo fundamental que ajuda a identificar os genes envolvidos no cancro e noutras doenças. Tem antepassados açorianos e na sua equipa de investigação da Escola Médica da Universidade de Massachusetts estão dois estudantes de doutoramento portugueses.

Como foram estes últimos dias, desde que soube que tinha ganho o Prémio Nobel da Medicina 2006?
Foram maravilhosos, com tanta boa vontade e energia vinda de todos os lados. Parece que há muito entusiasmo nos Açores, o que é fantástico. O meu pai está encantado porque sempre quis ir aos Açores. Acho que ninguém da minha família mais chegada voltou lá.

Quando vieram os seus antepassados para os EUA?
O meu bisavô veio de lá por volta de 1900. Seria interessante descobrir alguns parentes distantes que lá ficaram e encontrar essa ligação. O nome do avô do meu pai era Eugene Mello e a avó era Maria da Glória Botelho Mello, e vinham de uma localidade chamada Maia, em São Miguel. O meu avô já nasceu cá, mas os pais dele trouxeram vários filhos, mais do que lhes era permitido, e por isso «deram» no papel um dos meus tios-avós a outra família para o despacharem por barco (risos). Ele só soube disso quando foi entregar os papéis para a tropa e descobriu que a sua certidão de nascimento ou qualquer outro documento diziam que ele era de outra família! Hoje, tenho alguns parentes na zona de Rhode Island.

O seu avô ainda é vivo?
Infelizmente o meu avô faleceu há seis ou sete anos, portanto não viveu para ver isto. Teria ficado tão emocionado! A minha avó era italiana e o meu avô era português, o que quer dizer que grande parte da herança portuguesa se perdeu porque a família não falava português em casa, o meu pai não aprendeu a língua. Mas temos uma família maravilhosa, são pessoas muito trabalhadoras. Nunca tiveram oportunidade de terminar o ensino secundário, mas eram inteligentes, muito motivados, tanto o meu avô como a minha avó. A verdade é que eram novos neste país e os membros da família tiveram de trabalhar duramente na juventude, o que me impressionou muito. Não apenas porque tiveram trabalhos pesados mas também porque souberam manter uma atitude feliz, sabiam o que era importante na vida, sabiam celebrá-la e manter o interesse pelo mundo, eram pessoas simplesmente maravilhosas.

Nunca conseguiu visitar os Açores?
De facto isso nunca foi possível. E a verdade é que o meu pai dizia ainda no ano passado como gostaria de lá ir em breve. Por acaso recebi um e-mail do Presidente do Governo Regional dos Açores, portanto agora tenho um convite oficial para visitar o arquipélago (risos), por isso penso que temos de lá ir, será uma grande honra.

Ficou surpreendido com toda esta atenção de Portugal?
Não apenas de Portugal, o Brasil também ficou muito interessado, mas julgo que ficaram desapontados por eu não ser brasileiro. Tem sido maravilhoso e faz-me pensar nos meus parentes e como trabalharam duramente para pôr os filhos na escola. É uma dívida que tenho para muita gente, ter a oportunidade e a sorte de fazer o tipo de trabalho que faço. Sei que há muitas pessoas inteligentes em todo o mundo que nunca tiveram uma oportunidade devido às circunstâncias das suas vidas, portanto sinto gratidão não apenas pela minha família mas por todos os que ajudaram a tornar possível que pessoas como eu conseguissem ter empregos como este, onde estudamos e investigamos o funcionamento interno da célula.

Tem dois estudantes de Portugal a trabalhar consigo?
É verdade. São excelentes, sinto-me muito feliz por os ter cá. Quando Portugal se tornou membro da União Europeia decidiu que precisava de investir mais dinheiro na formação de cientistas, para ajudar a vencer o atraso no seu desenvolvimento. Portanto há um programa estupendo através do qual são atribuídas bolsas aos estudantes para irem para o estrangeiro e receberem formação em laboratórios em qualquer parte do mundo. E eu tive a grande sorte de ter primeiro o Pedro Batista no laboratório, é um aluno excepcional e acaba de ver o seu primeiro grande trabalho ser aceite para publicação por uma das mais prestigiadas revistas da especialidade. É um verdadeiro prazer tê-lo comigo, além disso tem-me servido como intérprete na tradução dos tais e-mails que tenho recebido, porque não sei ler nem falar português. Tem-me sido muito útil. O Daniel Chaves veio mais recentemente para o mesmo programa do Pedro. É também um óptimo estudante, muito dinâmico e trabalhador e é um prazer tê-lo no laboratório.

Como surgiu a sua teoria?
Tropeçámos por acaso num conjunto de observações muitíssimo peculiar. É um pouco difícil de explicar a leigos, que possivelmente nem sequer sabem o que é o ARN. Provavelmente ouviram falar do ADN, o material genético que constitui o nosso genoma. Todas as células têm ADN no núcleo, que é como o centro de informação para a célula. O ADN envia instruções na forma de ARN. É como uma carta ou transcrição do que está escrito no ADN, é copiado para ARN e depois enviado para as células para ser traduzido em proteína. A mensagem é descodificada e lida para fazer a proteína. No essencial, é deste modo que a informação flui para as células, vai do núcleo e transforma-se em ARN e este é muito semelhante ao ADN - geralmente é uma forma de cadeia única de ADN.

E o que descobriram?
Descobrimos que quando fazemos uma molécula de ARN, que é essencialmente uma espiral dupla numa estrutura muito semelhante à da molécula do ADN, essa estrutura é reconhecida pela célula, por todo este conjunto de factores celulares a que chamamos factores proteicos, que a reconhecem como estranha. Ou seja, é quase como a resposta imunitária da célula. Há quem a compare com um polícia à caça de vírus. O que nós descobrimos foi que quando estas moléculas de ARN tinham uma constituição de cadeia dupla, a célula reagia e tentava libertar-se delas, não apenas cortando-as aos bocadinhos mas pegando nesses bocadinhos para procurar na célula outros pedaços que pudessem combinar com ela. No essencial, é como desmontar todas as partes desta molécula mais comprida de ARN e dividi-las em pedacinhos, procurar em toda a célula outros pedaços de ARN que se combinem com ela e silenciá-la. É essencialmente uma caça na célula por sequências que são potencialmente nocivas à célula. Toda esta reacção é desencadeada quando os vírus infectam a célula, porque os vírus têm muitas vezes este ARN de cadeia dupla como material genético.

Então descobriram um sistema imunitário.
Sim, descobrimos um sistema imunitário que tem por base o reconhecimento de ARN viral estranho. É assim que pensamos que este mecanismo terá evoluído inicialmente há muitas centenas de milhões de anos ou talvez há mil milhões de anos: a vida já nessa tinha vírus, os seres vivos tinham de os combater e tem sido uma luta constante, os vírus continuam a ser um grande problema. Portanto, isto foi algo que as células desenvolveram para se protegerem. Agora também se concluiu que são utilizados pela célula mecanismos relacionados, apenas para controlar a expressão genica. Portanto nem sempre são utilizados apenas como resposta viral. Uma das muitas coisas novas e fascinantes que descobrimos e continuamos a seguir é o facto de que existem mecanismos naturais endógenos, onde os pequenos ARN, em vez de serem introduzidos por nós experimentalmente ou por uma infecção viral, podem desencadear um evento de silenciamento noutro gene da célula e levar mesmo à ocorrência de um evento evolucionário. Conclui-se assim que o mecanismo da iARN (interferência de ARN) é uma parte essencial do desenvolvimento: os seres humanos, todos os animais e plantas não podem sequer viver sem ele. É uma função evolucionária essencial da célula. Portanto aprendemos algo muito fundamental sobre a célula, essencialmente por acidente, ao descobrirmos que havia esta resposta notável nas células quando eram expostas a este tipo de molécula de ARN.

Quanto tempo acha que será necessário até que as pessoas comuns possam beneficiar destas descobertas?
Há diversas maneiras que nos fazem já beneficiar disso. Como sabe, a sequência do genoma humano foi descoberta há poucos anos e agora conhecemo-la, o esquema do ser humano está agora descodificado, mas o problema é que identificámos cerca de 25.000 ou 30.000 genes que constituem o ser humano feito de ADN, e sabemos qual é o seu alfabeto e sabemos lê-lo, mas ainda não o que significa. Não sabemos a função de um gene nem se está implicado em determinada doença ou se é importante para algum processo de desenvolvimento. O que a iARN vai permitir que os investigadores, médicos e pessoas de todo o mundo façam nos seus laboratórios é estudar a função desses genes desactivando-os. Assim é agora possível encomendar um kit de iARN a diversas empresas, que permitirão que desactive numa célula humana qualquer gene que se deseje. Num prato de laboratório pode-se fazer uma cultura de células humanas para não ter que se fazer estas experiências numa pessoa. As experiências permitem-nos compreender a função dos genes.

Isso permite estudar todas as doenças?
Como já temos uma ferramenta de investigação para nos ajudar a identificar os genes implicados nas doenças humanas, todo o tipo de doenças como o cancro e outras podem ser estudadas desta maneira. Assim, a nossa descoberta já está a beneficiar as pessoas, não apenas no sentido em que estamos a aprender muita coisa, mas porque também está a criar muitos postos de trabalho no sector da biotecnologia. Há uma série de empresas a utilizar esta tecnologia, produzindo ARN e vendendo-o. Já há, portanto, muitos benefícios.

E quando veremos tratamentos em que, em vez de se fazerem coisas num prato de laboratório, se vejam os benefícios nas pessoas, em que se tente controlar os genes responsáveis pelas doenças?
Isso também já está na fase de ensaio clínico por diversas empresas em todo o mundo. As experiências estão a avançar bem, portanto espero no próximo ano ou no seguinte ver resultados indicando que os primeiros medicamentos iARN estão a ser aprovados para utilização nos seres humanos. Penso que começará passo a passo, com doenças em que seja muito fácil introduzir a molécula no tecido doente. Por exemplo, uma das experiências mais adiantadas é a degeneração ocular, onde a iARN pode ser introduzida directamente no olho por injecção. Essas experiências já deram algumas provas de eficácia. Assim, há provas de que a acuidade visual dos pacientes melhorou em consequência das injecções de moléculas de iARN. É, portanto, muito estimulante e penso que há um grande número de doentes que pode beneficiar directamente deste tipo de terapia. Será muito interessante ver como funcionará este tipo de medicamentos à medida que a tecnologia melhorar.

Continua a trabalhar na mesma área?
Passamos a maior parte do nosso tempo a tentar compreender como funciona este mecanismo, ainda há muito para aprender. Temos um conhecimento razoavelmente bom do modo em que ocorre o silenciamento, mas de facto existem muitos pormenores interessantes que ainda não entendemos. Esperamos que, com a continuação dos nossos estudos, possamos aprender algumas subtilezas que ainda não percebemos sobre a maneira de pôr este tipo de moléculas a trabalhar mais eficazmente e, ao fazê-lo, a desenvolver melhores ferramentas para uma melhor aplicação médica da iARN. No futuro seremos capazes de melhorar a primeira geração de tratamentos pela iARN que já vêm para as experiências com humanos.