Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Governo húngaro referendado nas municipais

As eleições municipais deste domingo, na Hungria, serão analisadas, acima de tudo, como um referendo ao governo socialista chefiado por Ferenc Gyurcsány.

Em poucas eleições houve tanta incerteza quanto ao resultado como nas municipais que vão ter lugar este Domingo. O voto ditará a avaliação que os húngaros fazem da recente admissão do primeiro-ministro Ferenc Gyurcsány, que confessou a elementos do seu partido nada terem feito se não mentir nos últimos 4 anos.

É precisamente por esta gravação, que fugiu à imprensa na semana passada, e pelos protestos e violência que sucederam à sua divulgação, que as municipais de domingo se revestem de invulgar importância.

A oposição conservadora do Fidesz aguarda uma vitória esmagadora que possa forçar os socialistas a demitirem-se face a um evidente descontentamento eleitoral. O líder do Fidesz Viktor Orbán já definiu as eleições como um “referendo ao governo”.

O governo húngaro está numa posição frágil e vê-se na necessidade de implementar um pacote de reformas com vista a reduzir um défice orçamental que ronda os 10 %, o maior da União Europeia (UE). Mas Gyurcsány, que já procedeu a um pedido de desculpas em público, mostra-se determinado a ficar no seu posto.

Apesar das medidas económicas e do plano de convergência do governo socialista gozarem do apoio da UE, a situação doméstica é mais intricada.

A direita, sem apresentar grandes alternativas, insiste que independentemente do imperativo de apertar o cinto, Gyurcsány já não goza da confiança do eleitorado e, derivado disso, não está em condições de liderar o país no difícil período que se avizinha. Entretanto Orbán exige um “governo de especialistas” que leve o país a eleições antecipadas.

A situação seria ideal para os conservadores, não fosse o facto de muitos associarem a violência da semana passada, a mais grave desde a invasão soviética de 1956, aos partidos de direita. Não só Orbán não se distanciou claramente dos acontecimentos, como um dos participantes nos incidentes mais violentos resultou ser um dirigente do movimento juvenil do Fidesz.

O Fidesz tem pedido de forma persistente para as pessoas ficarem na rua, e os protestos continuam, mesmo sem a mesma intensidade. Contudo ultimamente a direita tem tentado apaziguar os ânimos adoptando um tom mais conciliador, enquanto acusam os socialistas de não terem sido capazes de controlar os ímpetos dos jovens «hooligans».

Mas a melhorar a posição dos socialistas contribuiu não só a associação entre a violência e a direita, mas a divulgação da versão integral do controverso discurso, onde fica patente a vontade do primeiro-ministro de mudar a cultura política do país, exigindo o fim das mentiras e a tomada de medidas sérias.

A lei húngara não permite a divulgação de inquéritos de opinião nos dias que antecedem as eleições. Estudos publicados na semana dos incidentes revelaram que 52% dos húngaros exigiam a demissão do primeiro-ministro. No entanto, a indignação inicial deu lugar a um sentimento de perdão, crescente entre os eleitores.

As estatísticas também mostram que só 32% da população considera que o país atravessa uma “crise moral”. Se a crise é política, as urnas o dirão.