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"Gato" compromete Governo

Os ministros do Ambiente de Portugal e Espanha assinaram esta sexta-feira um protocolo que prevê a cedência de linces por parte do Parque de Donaña para o povoamento do Centro Nacional de Reprodução.

O lince ibérico (Lynx pardinus) foi visto, pela última vez, em 1952, na zona do Barlavento algarvio. Agora, 55 anos passados, o felino tornou-se o centro das atenções de ambientalistas e governantes pois da sua sobrevivência depende a construção da barragem de Odelouca que irá abastecer de água toda a população desta zona do Algarve. Este inesperado interesse em investir na preservação desta espécie resulta do facto da União Europeia ter arquivado a queixa da Liga para a Protecção de Natureza (LPN) que, desde 2001, impedia a continuação das obras da barragem por provocarem eventuais impactos negativos em habitats abrangidos por directivas comunitárias. Uma das principais contrapartidas de Portugal para a UE mudar de posição foi o compromisso do Governo de construir, no Algarve, o Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico (CNRLI), orçado em 11 milhões de euros.

Parte deste acordo foi concretizado esta sexta-feira, entre os ministros de Portugal e Espanha com a assinatura de um protocolo em que o Parque Nacional de Donaña - onde já decorre um processo de reprodução destes felinos -, terá de ceder alguns desses exemplares para o povoamento do CNRLI.

A execução deste projecto, a cargo da empresa Águas do Algarve, não é, no entanto, pacífico.

Miguel Lecoq, coordenador do programa Life Lince, da LPN, considera que tudo pode estar em causa se não estiverem reunidas as condições para a reprodução do lince no seu habitat. O responsável da LPN assegura: "A medida de sobrecompensação pode ser inútil se não estiver garantida a viabilidade na natureza do lince ibérico. Caso contrário corremos o risco do centro de reprodução acabar em algo parecido com um jardim zoológico". Lecoq vai mais longe: "Muito pouco tem sido feito pelo Estado português para reverter o declínio da população do lince ibérico em Portugal, apesar de terem existido alguns projectos, em grande parte financiados pela Comissão Europeia, em que as propostas que existem não estão articuladas entre si". Também João Ministro, da organização ambientalista Almargem, está preocupado com a sustentabilidade do projecto, que, como diz, "deve passar pela criação de condições para o regresso do felino à serra algarvia".

Perante estas reservas, o veterinário Rodrigo Serra, um dos membros do Comité de Cria em Cativeiro do Lince Ibérico, e responsável pela construção do CNRLI, garante a salvaguarda do espaço como área científica.

"A reprodução do lince ibérico em cativeiro é a nossa preocupação. A sua reintrodução nas áreas de Portugal e Espanha a partir de 2010 será feito de acordo com as autoridades portuguesas e espanholas em coordenação", frisa Rodrigo Serras.

O centro de reprodução, com cerca de 150 hectares, que será construído na Herdade das Santinhas mereceu a aprovação do Instituto de Conservação de Natureza (ICN), comportará 16 instalações para felinos.

Em Silves, a recuperação de 600 hectares da Herdade da Parra é outro projecto em estudo para a receber o lince numa situação de semi-liberdade até aos nove meses altura em que podem ser libertados.

Em 2004, o Plano de Acção para a Conservação do Lince Ibérico do ICN, coordenado por Pedro Sarmento, onde participaram Joana Cruz e Rodrigo Serra, referia que no início dos anos 90 o lince deixou de ser visto. Desde 1994 apenas foram encontrados excrementos.

Apesar deste felino ter abundado em território ibérico, até meados do século XIX, necessita hoje para não se extinguir da aprovação do Plano Nacional de Acção para a Conservação do Lince-Ibérico em Portugal, que há três anos aguarda uma resposta.

Entre os anos 70 e meados de 80, o lince foi apresentado como uma espécie fundamental na defesa da conservação da natureza, na serra da Malcata, no combate à desertificação dos solos pela eucaliptização que alguns empresas de celulose queriam fazer na zona. Na altura o núcleo de felinos na Malcata não era superior a 9 indivíduos. Nos estudos produzidos então verificou-se que o núcleo central de linces estava do outro lado da fronteira, em Espanha. A justificação era simples. O coelho-bravo, que representa 80 por cento da sua alimentação, tinha sido dizimado em Portugal pela caça intensiva, enquanto do outro lado (Espanha) as condições eram diferentes.

Após tantas diligências infrutíferas, por parte dos técnicos e ambientalistas, na criação de um plano de acção para a conservação desta espécie, agora só resta esperar que o compromisso assumido com a EU permita que o "gato" encontre em terras lusas condições para reproduzir-se.

A resolução dos problemas dos residentes locais é outro problema que os responsáveis da obra e Estado vão ter de ultrapassar perante a indignação reinante, isto apesar do consenso da população quanto à execução da barragem.

"Isso é tudo muito bonito. Mas então nós?"

"Só falam na bicharada. Ainda ninguém nos explicou para onde vamos viver quando as casas ficarem debaixo de água", vai dizendo, irritado, António Joaquim Santos, enquanto trata da sua pequena horta na zona de Monte Branco/Foz de Carvalho, na serra do Caldeirão. A indignação deste homem de 74 anos, ainda agarrado à enxada, mantêm-se desde o arranque das obras para a construção de barragem de Odelouca. O que mais o inquieta é para onde irá viver. A pertinente queixa de António Santos é coincidente com as da maioria dos residentes nesta zona. Alzira, a sua mulher (65 anos), que o acompanha nas idas de carroça a Monchique, serve-se da ironia para descrever a situação: "Sabe, o mais jovem nesta zona tem 65 anos". Na realidade, a população idosa residente junto à ribeira de Odelouca já sabe que as casas vão ficar submersas pelos 134 milhões de m3 de água que a albufeira vai armazenar. Em pelo menos duas reuniões os técnicos, ligados ao empreendimento, apenas os informaram da importância do veado, do lince ou da águia Bonelli no equilíbrio do ecossistema da serra algarvia.

"Isso é tudo muito bonito. Acho bem que se faça a barragem e não matem os bichos, mas então nós? Onde estamos no meio disto?", questiona Leonilde Marques, (80 anos), outra residente que vive na serra há mais de 50.

"A barragem já devia estar feita", afirma igualmente Ilda Encarnação, tendo por perto o seu burro Carito, mas questiona o procedimento dos responsáveis: "Não é justo que não nos digam para onde vamos viver. Estão mais preocupados em salvar veados e linces - que nunca vi por aqui - do que a gente".

Outro dos problemas que as populações serranas, abrangidas pelo projecto de barragem de Odelouca, enfrentam é o da burocracia. Francisco Vargas, 72 anos, conhecedor da serra algarvia, afirma que está a tratar do assunto. "São os registos de propriedade que a maior parte não tem. Uma série de papelada que muitas pessoas nunca tiveram porque antigamente não era preciso. Agora quem não apresentar os registos e não tiver dinheiro para pagar as despesas do processo fica sem nada".