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"Fritzl argentino" condenado a 16 anos de prisão

Entre 1992 e 2003, Eleuterio Soria, de 73 anos, foi amo, senhor e carcereiro da sua filha, de quem teve dois filhos. Argentino foi agora condenado a 16 anos de prisão.

Márcio Resende

Durante mais de 10 anos, Eleuterio Soria abusou sexualmente da sua filha, com quem teve dois filhos e a quem manteve presa em casa, isolada de qualquer contacto externo. A Justiça argentina o acaba de condenar a 16 anos de prisão por "abuso sexual agravado pelo vínculo", num caso que, por suas características, é considerado o "Fritzl argentino", em alusão ao chacal austríaco que estarreceu o mundo ao manter a sua filha presa por 24 anos e com quem teve sete filhos.



Entre 1992 e 2003, Eleuterio Soria de 73 anos foi amo, senhor e carcereiro da sua filha cujo nome foi mantido em sigilo por protecção de identidade. Não a deixava sair da casa da localidade de González Catán no município de La Matanza, periferia empobrecida de Buenos Aires. O estado de submissão era reforçado por um revólver calibre 38, apontado nos primeiros anos para a filha; depois, para os próprios filhos-netos.



Soria já é conhecido como "o monstro de La Matanza" num paralelismo com "o monstro de Amstetten" da Áustria. O "Fritzl argentino" começou a abusar sexualmente da sua filha quando esta tinha apenas 11 anos. Corria o ano de 1992 e Soria ainda vivia com a esposa e com os seus seis filhos. No ano seguinte, quando a filha ficou grávida, a família quebrou-se. Primeiro, a esposa abandonou a casa. No anos seguintes, os filhos foram paulatinamente embora até que Soria ficou com a sua presa e com o filho que teve com ela.



O promotor do Ministério Público, Sergio Antin, quem pediu 16 anos para o acusado, explicou que "o pai submeteu a sua filha sem a deixar sair nem até a porta da própria casa". "Se falarmos de subordinação sexual e se considerarmos que a vítima não saía à rua, podemos falar de semelhanças", admitiu Antin, em referência ao caso austríaco.



Em 1997, a adolescente voltou a ficar grávida de uma menina, produto das constantes violações. Quando completou os 21 anos, a jovem começou a ensaiar fugas da sua casa-cárcere, mas terminava regressando. Só em 2003, aos 22 anos, fugiu, denunciou o caso e não voltou mais.



"O Ministério Público só conseguiu demonstrar três violações sexuais, factos com penetração carnal, que tiveram como consequência o nascimento dos menores e derivaram na fuga da vítima da sua casa", explicou o promotor.



As provas para a condenação foram os exames de ADN, as perícias psicológicas na vítima e nos seus dois filhos, além dos depoimentos da jovem.



Reconstrução da vida



A mulher tem hoje 28 anos e vive em concubinato com um homem com quem teve mais dois filhos. Os filhos tidos com o seu próprio pai tem hoje 7 e 14 anos de idade.



A defesa de Soria pediu a absolução por considerar que "não havia corpo de delito", mas considerou que se os juízes o declarassem culpado, deveria haver uma pena de 8 anos. Provavelmente, o próximo passo seja o pedido de prisão domiciliária já que a lei argentina contempla essa possibilidade para os maiores de 70 anos.