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Flexisegurança à dinamarquesa

Na Dinamarca, um em cada três trabalhadores muda de xemprego todos os anos. O modelo seguido no país para combinar flexibilidade laboral e segurança dos trabalhadores tem sido apontado como um exemplo a seguir na União Europeia.

“Querem trabalhar no estrangeiro, ter um bom ordenado e pagar impostos elevados? Então nós esperamos por vocês na Dinamarca”, este foi o convite deixado hoje pelo embaixador Lars Vissing perante uma plateia de estudantes universitários na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho.

Convidado a apresentar o modelo dinamarquês num seminário sobre Flexisegurança, o embaixador em Lisboa recorreu à força dos números para caracterizar o seu país e mostrar que a segurança do mercado de trabalho pode ser compatível com a flexibilidade das relações laborais.

“Temos 800 mil pessoas a mudar de emprego todos os anos. É um número que representa 1/3 dos trabalhadores do país e abrange, também, mudanças dentro da mesma empresa, para assumir novas funções”, explicou Lars Vissen.

Procurando deixar claro que o mercado de trabalho na Dinamarca assenta em tradições muito diferentes das portuguesas, o embaixador salientou que no seu país “a base da estabilidade não está nas empresas, mas no Estado, que intervém para ajudar as pessoas, deixando as empresas seguir o seu caminho”.

A este apoio do Estado, em termos de benefícios sociais e formação, os dinamarqueses respondem, também, com flexibilidade porque recusar uma proposta de trabalho implica perder todos os benefícios.

É assim que desaparecem 300 mil empregos todos os anos “mas, em contrapartida, são criados muitos mais”, prevendo-se, “a curto prazo a necessidade de recrutar 100 mil trabalhadores qualificados”. E, ao mesmo tempo, a economia dinamarquesa tem tido um desempenho positivo, “mantendo uma posição muito competitiva no mundo”, defende o embaixador.

A política governamental, a economia e alguma sorte são, na sua opinião, três factores decisivos no sucesso do modelo dinamarquês, construído ao longo dos anos “no aparente paradoxo de um liberalismo total e de um Estado muito forte”.

Dos impostos que chegam a representar 60% dos salários dos escalões mais elevados, à política da energia, são vários os factores que podem ajudar a explicar este caso de sucesso «made in» Dinamarca. Na verdade, até a política de eficiência energética desenvolvida na sequência da crise de 1973 deu um “contributo precioso” ao desempenho do país: desde então, a Dinamarca manteve estabilizados os níveis de consumo de energia e duplicou o PIB, tendo já nas energias renováveis 20% do consumo nacional.

No entanto, este modelo assente numa “flexibilidade laboral muito forte”, que contrasta com a “total inflexibilidade portuguesa” não é um “programa pronto a usar em todos os países europeus porque implica sempre estratégias de longo prazo”.

Os números do sucesso dinamarquês não devem, também, esconder os problemas internos, da ineficiência no sistema de educação, à elevada carga fiscal ou ao peso dos subsídios por deficiência no Orçamento do Estado. Para Lars Varssen há, ainda, o problema adicional do “enorme desperdício da força laboral qualificada e válida” num país onde as pessoas se reformam a partir dos 55 anos.

 

A DINAMARCA EM NÚMEROS

PIB per capita: 35 mil euros (15 mil euros em Portugal)

Inflação: 2%

Crescimento anual: 3,5% em 2005 (0,3% em Portugal e 2,4% na média europeia)

Desemprego: 4,5% (12.500 pessoas em cinco milhões de habitantes)

Dívida Pública: 34% do PIB (63,9% em Portugal)

Balança de Transacções Correntes: Superavit de 6 mil milhões de euros (défice de 13 mil milhões em Portugal)

Flexibilidade: 800 mil pessoas (1/3 dos trabalhadores) muda de emprego todos os anos