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Festival de drogas

Nem só de paz, amor e ecologia viveu o ‘boom’. A droga também andou à solta no festival mais psicadélico do Verão, em Idanha-a-Nova. Debaixo das batidas de ‘psy-trance’, vendia-se ‘ecstasy’, LSD e ‘cogumelos’.

O AVISO foi escrito à pressa num papel sujo e amachucado, mas chama tanto a atenção como se Mariana o tivesse imprimido a «laser»: «Promoção. LSD: 25 gramas, 200 euros». Sempre que mais um carro faz a curva apertada, a bela «hippie» de vestido excêntrico salta da caravana até ao asfalto com o cartaz mal-amanhado em punho. Os condutores põem o pé no travão, um sorriso de surpresa e ficam na conversa, a regatear. «É um bom preço. Lá dentro é quase o dobro. Até podem fazer negócio mais à noite», afiança a portuguesa de trinta anos, há uns meses a viajar pela Europa com a sua amiga francesa, que acaba de enrolar um charro à porta da caravana.

Elas não estão com pressa, nem preocupadas por ter um jipe da GNR a menos de cem metros, porque estão quase a conseguir juntar os 220 euros necessários para comprar dois bilhetes no Boom Festival, a três curvas de distância. «O nosso produto é do bom», vangloria-se Mariana, tirando do bolso, como por artes mágicas, um frasco de «ecstasy» líquido, droga indicada para aguentar as batidas violentas durante toda a noite. A receita é simples: «É só misturar uma gota de ‘ecstasy’ num copo de água e depois é curtir».

Mariana e a amiga não são as únicas a anunciar o seu produto como se estivessem numa feira. Mais à frente, Marco, um «rasta» transmontano, de mochila às costas, segura um cartão que diz: «Tenho MDMA» («ecstasy»), mas não parece ter tanta sorte como elas. Ali só param «festivaleiros» à procura de cerveja barata, vendida numa barraquinha improvisada ao seu lado. «Vou bazar daqui, que isto não está com nada».

Maldita cocaína. À entrada do festival, na herdade do Torrão, perto de Idanha-a-Nova, os porta-bagagens são revistados em tempo recorde. Os corpulentos seguranças procuram «penetras» que tentam entrar sem pagar o bilhete. É sábado, terceiro dia do Festival, e um dos mais quentes do ano. Joana, uma jovem loira de Sintra que carrega uma pesada mala de viagem e várias manchas de suor na camisola, pede-nos boleia. Até ao parque de campismo ainda teria de andar mais de meia hora à torreira do sol. «O meu namorado e um amigo dele foram expulsos, há uma hora, depois de andarem à porrada», desabafa mal se senta no carro. «Passaram-se». Joana ficou sozinha e sem os oito gramas de cocaína que tinham comprado a meias para os seis dias de festa. «Foi uma estupidez. Se eles não tivessem desatinado ninguém nos catava a cena», conta. «Podíamos ter sido presos se os seguranças não nos tivessem sugerido dividir o pó branco pelos três. Mais de cinco gramas dá direito a cana», lembra a rapariga.

Depois do susto valente, limita-se a encolher os ombros. «O namoro estava nas últimas. Este é um bom pretexto para acabar tudo». Joana tem mais amigos e outras drogas à sua espera. É o segundo ano que vem ao «Boom-Fest» e já conhece bem os cantos à casa. «Encontramo-nos logo, junto à tenda do trance. Vou tentar arranjar umas pastilhas por aí».

O Boom parece a terra de Alice, a do País das Maravilhas: tendas coloridas feitas em bambu, pontes lacustres, barraquinhas de massagens, incenso e balões no ar, engolidores de fogo em terra e maus nadadores na água. Ainda nem tínhamos descarregado a mochila quando fomos abordados por uma jovem belga, de xaile e leque para afugentar o calor, que nos pergunta, em inglês macarrónico: «Querem cristal?». A anfetamina, seis vezes mais barata que a cocaína mas com efeitos dez vezes mais potentes, custa seis euros o grama. Mal nos vira costas, dois «freaks» de sandálias e «t-shirts» cobertas de pó pedem-lhe cinco minutos de atenção. Notas para um lado, sacos para o outro e cada um vai à sua vida.

A luz verde do céu. À noite, todos os caminhos vão dar ao «Chill-Out», zona de descanso onde dezenas de casais e grupos de amigos enrolam charros, num espírito «peace and love». Mas é na tenda «Dance Floor» que a maioria dos vinte mil «boomers» de 60 países exulta com as batidas frenéticas emanadas pelos «dj» de serviço. Perto da pista de dança, um quarentão abana a cabeça enquanto despeja uma risca de coca em cima de um contentor do lixo. Agacha-se, snifa o pó branco, perante a indiferença dos «ravers» a dançar ao seu lado e volta a sacudir o corpo.

Entre os vários grupos sentados na relva, na penumbra, transacciona-se todo o tipo de produtos. Duas jovens madrilenas têm à sua frente uma fila de gente, que aguarda a sua vez para comprar algumas das suas especialidades: «Temos chocolate e ‘cogumelos’ mexicanos», explicam aos seus clientes, que se colocam de cócoras para tocar e cheirar nos exóticos produtos. Por dez euros o grama qualquer um pode trincar uma tablete parecida com as que se vendem nos supermercados. Os efeitos é que são um pouco diferentes. «É uma viagem inesquecível», prometem, em castelhano.

Joana, a nossa amiga da boleia, anda à caça da sua pastilha. Ao pé do bar encontra dois trintões de Sesimbra que vendem de tudo. Umas frases de circunstância bastam para eles mostrarem um saco com MDMA em pó, uma barra de haxixe marroquino e, «voilà», as ditas pastilhas, que mais parecem aspirinas em miniatura. Os «dealers» apelidam-nas de Versace, talvez por serem cor-de-rosa. Custam dez euros a unidade. «Os meus amigos arranjam-na a seis», argumenta. «É pegar ou largar», rebatem eles. Ela não discute mais. Abre o porta-moedas e dá-lhes uma nota de dez para a mão. Num abrir e fechar de olhos, Joana mete metade do comprimido na língua e vai para a pista de dança, contente da vida.

Eles continuam a deambular por ali, de ar alucinado, à espera de mais clientes: «Estou-me a passar com aquela luz verde brilhante no céu. Vou ficar aqui a noite toda a olhar para ela». É apenas um ponto luminoso da tenda de exposições de arte.