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Ferreira Leite discursou "à Cavaco"

Manuela Ferreira Leite não deixou dúvidas: sabe o que quer e não quer um Bloco Central de interesses com o PS. No primeiro discurso, a nova líder não entusiasmou, e revelou que será igual a si própria. E não esconde semelhanças com o Presidente da República.

Ricardo Jorge Pinto (texto) e Alberto Frias (foto)

Não houve referências a Sá Carneiro, nem "sound-bites" que levantassem os delegados das cadeiras. Manuela Ferreira Leite apresentou-se ao XXXI Congresso do PSD no seu habitual estilo sóbrio e sério, alertando para as dificuldades que o País atravessa e para a incapacidade que o Governo sente em superar a crise. E até teve tempo para falar de temas queridos a Cavaco Silva. E no tom que Cavaco usava em antigos congressos social-democratas.

Todo o discurso de Ferreira Leite estava orientado para uma ideia: o Governo está esgotado e é tempo de o PSD aparecer como verdadeira alternativa. E sem alianças com o PS: "Vamos apresentar listas próprias às eleições, salvo as excepções nas autárquicas", explicou Ferreira Leite. E logo acrescentou: "Temos de apresentar as melhores propostas".

A identidade ideológica

A nova líder do PSD também quis esclarecer o rumo ideológico do partido: "O que tenho para dizer é que temos de ter orgulho de pertencer ao nosso partido. Com um projecto que corresponda aos novos desafios, fiel ao personalismo humanista, com justiça social".

No início da sua intervenção, o foco foram os militantes do partido. "Todos nos vamos sentir em casa", afirmou Manuela Ferreira Leite, referindo-se ao Congresso. Estava dado o mote para a importância da unidade do partido. A nova líder referiu-se friamente ao facto de Menezes se ter demitido, tendo-lhe enviado um cumprimento de ocasião. No mesmo exacto tom com que cumprimentou os adversários que derrotou nas últimas eleições directas.

O estilo

"Há ainda muito a melhorar", disse Ferreira Leite, falando da forma como o partido encara a nova etapa. "Não serei diferente da pessoa que conhecem. Nem agirei de forma diferente da que prometi na campanha", explicou de imediato Ferreira Leite.

"Por isso não passarei tempo a explicar estratégias. Nem vale a pena perder muito tempo a ler nas entrelinhas. Porque eu falo tudo nas linhas", avisou a nova líder do PSD, tentando determinar a sua marca. E defendeu que este modelo de congresso tem eficácia, apesar de não ter espectacularidade. "A imagem do partido não é apenas resultado da acção do líder, mas de todos os seus órgãos", disse Ferreira Leite, mostrando que tenciona servir-se de uma equipa coesa para liderar o partido. "Mas isso só é possível com partido organizado e coeso", avisou.

A alternativa

"Também é preciso provar que o partido está em consonância com as preocupações dos portugueses", explicou Ferreira Leite, acrescentando que vai exigir do partido melhores soluções para os mesmos problemas que o Governo enfrenta. "Este Governo está esgotado. E quando os portugueses o sentem, vira-se para nós", diz a nova líder, dizendo que o PSD tem a obrigação de dar soluções novas e eficazes.

"A responsabilidade do PSD é criar alternativa. Assumimo-nos como alternativa ao PS, perante a incapacidade dos os socialistas governarem em tempo de crise". "Também a forma de fazer política tem de mudar", diz Ferreira Leite, criticando a demagogia. Os políticos devem estar atentos aos anseios dos cidadãos, explica, para justificar a necessidade de evitar ilusões, que podem criar insegurança. "Isto explica o descrédito da política", diz, apelando aos políticos que não governam para a sua carreira ou a sua ambição. "Tem de ser apurada a arte de ouvir os cidadãos", referiu.

"Se o nosso caminho for de responsabilidade, o País dá-nos ouvido", afirmou. "O Eng. Sócrates cometeu erros políticos graves", conclui Ferreira Leite, dizendo que o primeiro desses erros foi a forma como ele tratou o PSD. "Ignorou-nos", disse. "Queremos dizer-lhe que essa atitude acabou", disse, numa das frases mais aplaudidas, por militantes expectantes sobre a posição de Ferreira Leite perante o PS, numa altura em que se falou da hipótese de um Bloco Central.

"O PS virou as costas ao País", disse, alertando para o facto de o Governo não ter criado uma relação de confiança com os cidadãos. "Anunciou o fim dos sacrifícios, com a diminuição do IVA! Como se pode confiar num Governo que não percebe os sinais de alarme da sociedade...", disse. Para chamara a atenção para um outro erro do Governo: o recurso à invocação dos executivos do PSD para fugir às responsabilidades. "Não aceitamos que o Eng. Sócrates rescreva a História. O PS tem de assumir as suas responsabilidades. Estamos numa altura de balanço".

A crise

Sem "sound-bites" ou frases apelativas, a líder do PSD falou dos índices de crescimento da economia, referindo as fraquezas do mercado, acusando o Governo de não saber gerir dificuldades. Nesta altura, o seu discurso colou-se ao das palavras recentes de Cavaco Silva, dizendo que Portugal se afasta dos níveis europeus. Falou ainda da corrupção, tema que o Presidente da República trouxe para a agenda política e não esqueceu as assimetrias regionais, que Cavaco também gosta de referir.

"Não esqueçamos que o Governo tem tido condições excepcionais. A economia internacional foi favorável nestes três anos e houve flexibilização das políticas comunitárias sobre o défice", referiu Manuela Ferreira Leite, para dizer que está na altura de exigir mais ao Governo. "No final destes três anos o que se conseguiu? Pouco, muito pouco. Sobretudo menos do que os portugueses merecem", concluiu.

A herança e o rumo

"O PSD do século XXI orgulham-se do seu passado", disse Ferreira Leite, que conseguiu evitar falar de Sá Carneiro, mas que recordou a herança de anteriores líderes do partido. "O PSD está preparado para os próximos desafios, mostrando as diferenças em relação ao Governo, sem rodeios nem calculismos", concluiu a nova líder.

"Está definido o nosso rumo. Não há tempo a perder. Temos de nos concentrar no que é importante", terminou a nova líder, repetindo a ideia de que o actual Governo está esgotado e que é necessária uma oposição com soluções.