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Felgueiras responde por 23 crimes

Arranca amanhã nos Bombeiros de Felgueiras o mega-julgamento do caso do “saco azul”. A principal arguida, Fátima Felgueiras, presidente da câmara municipal local, responde por 23 crimes.

Crispação é a palavra mais adequada para caracterizar o ambiente que se vive em Felgueiras na véspera do início do mega-julgamento, em que a presidente da Câmara é acusada de ter gerido um "saco azul" abastecido com dinheiros saídos dos cofres da Câmara e que ela alegadamente terá usado para financiar diversas campanhas eleitorais socialistas e despesas pessoais.

O esquema apurado ao longo da investigação, constante de 11.580 páginas do processo, era simples. A Câmara adjudicava obras a empresas amigas (como a Resin) por um valor claramente inflacionado. Posteriormente parte desse dinheiro retornava. Era devolvido pela empresa, em notas, e engordava o chamado “saco azul”.

Grosso modo, a coisa funcionava assim. A Câmara de Felgueiras pagava 10 à empresa A por uma obra cujo valor justo era 6. Depois a empresa A entregava 2, por debaixo da mesa, para o “saco azul”.

Fátima era a terceira presidente da Câmara do PS (Felgueiras desde o 25 de Abril que é um concelho rosa), após Machado Matos (já falecido) e Júlio Faria (também arguido neste processo), quando soube que ia ser presa, preventivamente, na sequência da investigação policial.

Aproveitando a sua dupla nacionalidade (nasceu no Rio, quando os pais estavam lá emigrados), Fátima voou para o Brasil onde teve uma permanência bastante mediática, sublinhada por diversas entrevistas televisivas, e viveu à custa do ordenado de presidente de Câmara.

Nas vésperas das últimas autárquicas (Outubro 2005), protagonizou um espectacular regresso à pátria, conseguindo ser reeleita presidente da câmara à frente do movimento independente “Sempre Presente”, que arrebatou a maioria absoluta (quatro vereadores num total de sete) com 46% dos votos.

Felgueiras na ressaca

Dezasseis meses depois da vitória de Fátima, Felgueiras está na ressaca.

“As pessoas estão tristes, revoltadas e envergonhadas”, declara Francisco Cunha, o médico de 55 anos que preside ao PSD Felgueiras e que foi derrotado por Fátima nas últimas eleições autárquicas a que ela concorreu com as cores do PS. A presidente, uma ex-professora de inglês idolatrada pelo povo pobre e idoso do concelho, recolhe a unanimidade das críticas de todos os quadrantes partidários.

Paulo Rebelo, o advogado da Lixa que dirige o CDS-PP no concelho, fala abertamente de caciquismo e de medo. E dá exemplos relacionados com o conflito aberto por Felgueiras com o Lixa, o clube de futebol da segunda localidade do concelho. No início desta época, Fátima Felgueiras acordou dar 100 mil euros a este clube, em troca de publicidade nas suas camisolas azuis e brancas (o Lixa, que milita na II B, é uma filial do FC Porto), no estádio e no centro do treino nos dias de jogos.

A mensagem publicitária é: "Felgueiras Capital do Calçado". O pretexto é o Lixa jogar seis vezes com equipas da Madeira, um mercado importante para a indústria dominante no concelho (Felgueiras representa 50% das exportações portuguesas de calçado).

O problema foi que quando levou a proposta para aprovação na vereação, apoiada por um parecer favorável de um eminente jurista, Fátima e os três vereadores da lista “Sempre Presente” optaram por se abster. Os dois vereadores laranja também se abstiveram. O do PS votou a favor.

Surpreendentemente, a presidente da Câmara considerou que com seis abstenções e um voto a favor, a proposta não tinha sido aprovada.

Confrontados com a ausência do dinheiro prometido, 700 habitantes da Lixa venceram a pé os seis quilómetros que separam a sua terra da sede do concelho e foram entregar à câmara uma camisola do clube, com a publicidade "Felgueiras Capital do Calçado" inscrita.

“Quer exemplos do ambiente de medo? Quando pedi a uma pessoa que gravasse a convocatória para a manifestação, que seria difundida através de um carro de som, essa pessoa aceitou fazê-lo com a condição de distorcer a voz, para não ser reconhecida. E o motorista do autocarro do Lixa pediu desculpa por não ir na manifestação, mas explicou que tem um pedido de um licenciamento de um café metido na Câmara”, conta Rebelo.

A acusação de caciquismo é subscrita pelos lideres de todos os partidos da oposição. “A Câmara é o maior empregador do concelho. E Fátima sabe o que faz. Não há família importante que não tenha lá uma parente…”, explica Joaquim Freitas, empresário do calçado e um dos denunciantes do caso do “saco azul”.

Felgueiras em Fátima

Fátima não consegue ter boas relações com o mundo do futebol, mas contrabalança essa hostilidade mantendo um excelente relacionamento com a igreja. Todos os anos organiza uma excursão a Fátima, em que acompanha mil velhinhos que viajam em camionetas alugadas pela Câmara. Não raro vai à missa e sobe ao púlpito para ler as Escrituras. Tem um cunhado padre e o bispo do Porto, D. Armindo, já declarou em público que era capaz de por as mãos no fogo por ela.

“Perante Deus, a Fátima já foi absolvida por D. Armindo. Falta-lhe agora ser absolvida perante os homens…”, ironiza Eduardo Teixeira, vice-presidente do Académico de Felgueiras, o clube criado na sequência da extinção judicial do FC Felgueiras.

Ah, e por falar em futebol, a presidente da Câmara não se livra tão cedo dele. É que depois do julgamento do caso do “saco azul” vem aí um novo mega-processo em que ela é arguida, acusada de financiar ilegalmente o FC Felgueiras.

O Expresso tentou por diversas vezes obter uma reacção de Fátima Felgueiras, mas até ao momento tal não foi possível.