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Fátima sem banhos de multidão

Nos próximos sete meses vão ser julgados 16 arguidos, ouvidas 110 testemunhas de acusação e provavelmente outras tantas de defesa.

O julgamento do mega-processo do famoso "saco azul" de Felgueiras, despoletado há sete anos, vai arrastar-se durante sete longos meses, período durante o qual serão julgados 16 arguidos e ouvidas 110 testemunhas de acusação.

Iniciado hoje, no exíguo tribunal de Felgueiras, o julgamento foi transferido por decisão do juiz presidente, Jorge Castro, para o amplo salão novo dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras onde decorrerão as 55 audiências que vão ditar o destino próximo de Fátima Felgueiras, a campeã da lista dos acusados, já que terá de responder por 23 crimes.

Sem os banhos de multidão a que habituou o país sempre que foi acusada, ou quando voltou do Brasil, a autarca chegou ao tribunal com um ar jovial distribuindo sorrisos aos cerca de 30 populares presentes.

Para Joaquim Freitas, um dos denunciantes do "saco azul" e também arguido no processo, o recatado apoio popular deve-se ao facto de “Fátima ser um mito que já passou à história”, o que não impediu que alguns dos presentes o tenha insultado à saída do tribunal sentenciando que “ele é que já devia estar preso”.

A inexistente euforia de outrora pode também ser explicada pelo ostracismo a que os últimos governos têm votado Felgueiras, tanto o concelho como a sua homónima.

O alheamento popular foi ainda mais notado por ter ocorrido um dia depois da distribuição de um panfleto subscrito por Fátima Felgueiras, apelando a manifestações pacíficas a favor da autarca e exortando o povo que se aproxima uma campanha anti-Felgueiras.

“Peço que vos manifesteis publicamente quando provocados por felgueirenses indignos deste estatuto e não tenhais a mesma sapiência cristã que tendes demonstrado ao lado deste calvário”, era um dos apelos do panfleto, que até ver não surtiu grandes efeitos.

Aos 52 anos, a autarca que em Maio de 2003 deu o salto para o Brasil para fugir à ordem de prisão preventiva é indiciada de 23 crimes, cinco dos quais por participação económica em negócio, seis de corrupção passiva por acto ilícito, quatro crimes de abuso de poder, três de prevaricação, dois de peculato, um de peculato de forma continuada e dois de peculato de uso.

Reeleita por maioria à revelia do PS, o seu partido de sempre, em Outubro de 2005, Fátima Felgueiras declara-se “inocente e vítima de uma cabala politica”, conspiração que pretende desmontar até 10 de Setembro, data da última audiência do caso. Artur Marques, o estratega da sua defesa, disse ao Expresso que nunca foi intenção da autarca adiar o início do julgamento, alegando que a vontade da sua cliente “é ver-se livre o mais depressa possível de todas as acusações injustas que sofreu nos últimos anos”.

A assombrar o arranque do julgamento está um recurso pendente do arguido Vítor Borges, ex-presidente do conselho de administração da Resin, defendido por João Nabais, que suscitou junto do Tribunal da Relação de Guimarães a anulação do debate introdutório, invocando que dois dos denunciantes do caso – Horácio Costa e Joaquim Freitas – são hoje arguidos apesar de terem sido inquiridos na condição de testemunhas.

Caso o Tribunal de Guimarães venha a dar provimento ao recurso de Vítor Borges, acusado de cinco crimes de participação económica em negócio, o processo voltará à estaca zero.